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A liberdade de ter voz

Foto: Divulgação
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‘Luiz Gama – Uma voz Pela Liberdade’, direção de Ricardo Torres, produção de Mario Seixas e MS Events, roteiro de Déo Garcez, estrelado por Déo Gracez e Soraia Amoni

Com os atuais movimentos culturais e políticos em luta pelo reconhecimento e legitimação das minorias sociais, como por exemplo, o movimento negro ‘Vidas negras importam’, nada poderia ser mais oportuno do que revisitar a história de 353 anos de violência institucional do Brasil escravocata, a qual se deu a partir do século XVI. E nada mais oportuno do que revisitar a história do jornalista, poeta e advogado Luiz Gama (1830-1882). A vida e obra do abolicionista e escritor brasileiro, que advogou em favor da libertação de centenas de escravos mantidos em cativeiro ilegal, é revista pelo roteirista e ator Déo Garcez, trazendo de volta assuntos que ainda se mantêm presentes em nossa sociedade como a violência racial contra jovens negros das periferias e favelas de centros urbanos e a ausência de representatividade de tais minorias em posições de relevo no Brasil.

A luta contra a desigualdade no Brasil compõe a base de discussão da peça ‘Luiz Gama – Uma Voz Pela Liberdade’, protagonizaada por Déo Garcez – tendo este atuado também em Chica da Silva, O Cravo e a Rosa e Escrava Isaura, entre outros – e Soraia Amoni, a qual conta, dentro de uma biografia dramatizada, a trajetória de Luiz Gama, através de sua produção escrita, em artigos, poemas e sátiras políticas e sociais, e de seu perfil ativista, junto a personagens influentes em sua vida como sua mãe, interpretada pela atriz Soraia Amoni.

A ambientação intimista e o cenário minimalista – com uma luz de centro, duas cadeiras e uma mesa-, colocam em evidência a expressão corporal e a composição da personagem de Déo Garcez em dois diferentes momentos, o do intelectual abolicionista e a do advogado ativista, interpretados com perfeita desenvoltura. Soraia Amoni, por sua vez, trafega com fluidez e segurança nas diversas personagens que interpreta, dando também voz a uma narradora onisciente e crítica. Por fim, através desses expedientes, o diretor Ricardo Torres revela ao público os principais aspectos da vida e da militância política de Luiz Gama de forma dialógica e inventiva de tal modo que, em falas como “Em terra que rege branco, somos privados de pensar”, somos convidados a nos debruçar sobre nosso passado e a refletir sobre nosso presente.

Sob tal prisma, a peça, de forma muito bem sucedida, abre-nos um viés de permanente discussão e de engajamento por causas contra a opressão de minorias, sejam elas minorias de gênero, étnicas, religiosas ou raciais. Em particular, no entanto, a peça nos convoca a pensar de modo incisivo sobre o racismo sistêmico que ora assombra o mundo a partir de governos ultraconservadores. No Brasil, por exemplo, ainda nos deparamos com certas ideias insidiosas que se encontram veladas em vários discursos da mídia, os quais nos fazem ainda acreditar que racismo no Brasil não existe ou mesmo que a escravidão teria sido benéfica para os descendentes de africanos. Em vista disso, temos, com a peça, a oportunidade não somente de entender quais as reivindicações históricas que estão na ordem do dia, mas também de nos mobilizar a favor das causas antiracistas. Como bem coloca o ativista baiano Zulu Araújo, “Temos a oportunidade histórica de juntar pretos e brancos antiracistas nessa luta, algo que, depois de muito tempo, o movimento negro norte-americano conseguiu alcançar.”

Sendo assim, considerando o atual cenário político-social de certo retrocesso ideológico em torno da legitimação de práticas opressoras contra aqueles que compõem minorias, nada mais oportuno do que uma visita aos porões escuros de nossa história com a peça sobre Luiz Gama. Dessa forma, talvez, possamos encarar de frente nossos próprios monstros e nos inspirar a fazer uma mudança positiva em nossa sociedade. Aplaudo de pé a iniciativa.

MÔNICA DE FREITAS

Bacharel em Letras, professora de inglês e mestre em Filosofia

(PR2-55697)

profmonica_highkevel@yahoo.com.br

 

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