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AI DE MIM, CRIATURA NOTURNA DE DEUS

Foto Divulgação
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Por Eduardo Oyakawa

 

A cidade, ou melhor, o vilarejo de Santo Atanásio das Flores fica no extremo oeste de São Paulo. Lugar calmo e conhecido pela hospitalidade de sua gente humilde vinda da roça.

Passava das duas horas da madrugada e eu estava voltando para casa, caminhando numa rua afastada e fronteiriça ao rio Guapé. A lua iluminava a cidade inteira, mesmo porque as poucas lâmpadas de mercúrio se encontravam no acanhado centro e mal podiam clarear os outros caminhos de asfalto recém assentado.

No meu andar solitário, havia uma misteriosa penumbra entrecortada, às vezes, por este luar longínquo. Andava pensando nos afazeres que me esperavam no dia seguinte, quando avistei vindo em direção a mim dois homens falando e gesticulando sem parar.

Meu coração estremeceu. Por mais que a cidade fosse pacífica, nunca sabemos ao certo a intenção das pessoas.

Eles se aproximavam e eu fui ficando cada vez mais ansioso. Quando passaram por mim, fiquei assustado e levantei as mãos para o alto.

Os jovens riram e num sotaque parecido com o mineiro, disseram:

– Calma irmão, fica na paz! Jesus Cristo está contigo!

Nem pude acreditar. Minha mente voltou a serenar e pude respirar sem angústia novamente.

Continuei perambulando e refletindo: como a gente se engana com as pessoas! Como fazemos julgamentos apressados e injustos!

Jesus Cristo está contigo, disseram. Certamente são bons homens.

De repente senti um chute violento nas pernas que me fez cair imediatamente. Eram os dois que tinham voltado para roubar minha carteira, relógio e tênis.

Mas não parou por aí. Eu estava deitado na rua escura e eles começaram a me dar mais pontapés, desta vez no rosto e no tórax, enquanto eu tentava, desesperadamente, me proteger. A saraivada de golpes me atingia em cheio nos olhos, nos braços, por todos os lados.

Senti num estalo que vibrou no ar, a perna quebrada e a boca, já amortecida, sangrando sem parar. A dor era tão intensa, que não tive forças para gritar, apenas gemia e me contorcia, tentando, sem sucesso, manter a calma.

Dez minutos de surra foram suficientes para me transformar num homem desfigurado, num farrapo humano. Caído naquele lugar no final do mundo, com o rosto sujo de asfalto e ossos partidos, verti lágrimas envergonhadas. Um choro contido, parecido com um cão jogado pela janela de um automóvel em movimento.

Eu pensei que fosse morrer, imitando o personagem de Franz Kafka que ouviu de seus algozes, antes do assassinato: morra como um cão.

Mas sobrevivi àquela desventura e caminhei ainda por outros sítios onde o luar é furtivo e as ruas, espinhosas e assombradas.

O acontecimento no vilarejo mudou algo em mim definitivamente. Deixei de acreditar em palavras sagradas e reconfortantes vindas de desconhecidos. Deixei, como num ritual de iniciação religiosa, de ser vítima sacrificial.

Ai de mim, criatura noturna de Deus!

Hoje quando peço amor às pessoas, sinto a boca machucada, balbuciando frases afogueadas como se fossem o sangue derramado em Santo Atanásio das Flores.

Eduardo Oyakawa é escritor, filósofo e professor.

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