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Das mulheres loucas aos desajustados sociais: quando gênero e classe determinam a saúde mental

Foto Pixabay
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Problemas de saúde mental têm se tornado cada vez mais comuns em todo o mundo e se revelam preocupantes no Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 86% dos brasileiros sofrem com algum transtorno mental, como ansiedade e depressão.

Recentemente,  um trabalho publicado na The Lancet demonstrou a importância dos fatores sociais no desencadeamento  de vários transtornos mentais. O caráter social da doença mental se expressa nas diferentes formas como ela incidi  em homens e mulheres e em diferentes classes sociais.

De acordo com o Caderno de Saúde Pública divulgado em 2019, há uma prevalência de Transtornos Mentais Comuns (TMC), tais como depressão e ansiedade,  em mulheres e pessoas de baixa renda.

No entanto, se marcadores como gênero e classe têm se mostrado como principais condições para o sofrimento psíquico na contemporaneidade,  a História vem nos lembrar que a loucura, nome genérico atribuído a transtornos mentais e “desvios sociais” diversos ao longo do tempo, sempre esteve associada às mulheres e aos menos favorecidos, mas não somente como consequência do machismo e do preconceito, e sim como forma de perpetrá-los.

Foi na Grécia Antiga que se ouviu falar pela primeira vez em Histeria, que se referia a perturbações no útero, hystera em grego. Hipócrates, pai da medicina, afirmava que a causa da histeria seria um movimento irregular de sangue do útero para o cérebro, que causava a desordem existente nas mulheres.

Ao longo da Idade Média,  mulheres  pobres e de origem rural eram chamadas de bruxas e levadas à fogueira pela Santa Inquisição. A transgressão à ordem moral, o livre exercício da sexualidade e a existência fora do casamento, além da classe social, foram fatores preponderantes para que essas mulheres fossem associadas à loucura.

No século XVIII, com a ascensão da psiquiatria e do capitalismo industrial, a combinação entre loucura e modo de produção capitalista possibilitou a adoção de critérios de utilidade e produtividade que ensejou a internação dos “desajustados sociais”; indivíduos considerados incapazes para o trabalho, como mendigos, alcoólatras, prostitutas e pobres de toda ordem. Também nesta época, a internação era o destino das mulheres que se furtavam ao seu papel “natural” na sociedade e insistiam em viver suas escolhas fora das normas impostas.

Chegando aos dias de hoje, a violência  física e psicológica impingida pelo machismo e misoginia e o abismo social que leva ao desemprego, insegurança alimentar e pauperização de milhares de brasileiros, apresentam-se como situações geradoras de traumas diversos que estão na gênese de muitos dos transtornos mentais que acometem essas populações.

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