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DOSTOIÉVSKI E O CRISTIANISMO

Foto: Constantin Shapiro/ Wikipedia
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Aristóteles alertava-nos que “o homem que não precisa de ninguém, ou é Deus, que tudo em si próprio contém, ou um animal feroz”. É, sobretudo, acerca dos desatinos deste “animal feroz” que Dostoiévski irá debruçar-se para mostrar o quanto a errância da civilização centrada no homem elevou-se a níveis exponenciais com o declínio da religião cristã, tanto na Europa Ocidental, como na Rússia do século XIX.

Esse ethos religioso baseado na esperança de salvação e na compreensão do “sentido do mal no mundo” ajudou, em grande medida, no apaziguamento do desespero do homem ocidental. Foi através deste arcabouço normativo – tal como preconizado desde os primeiros Padres da Igreja e, especialmente, pela obra de Santo Agostinho – que o Cristianismo se consolidou como sistema de crenças que protege o ser humano dos malefícios do amor-próprio e, ao mesmo tempo, lança-o diante da “transparência divina” e do milagre.

O Cristianismo preconiza que as angústias terrenas servem como expiação dos pecados – portanto, os sempiternos sofrimentos não são fortuitos e incompreensíveis, antes possuem um valor de kenósis (purificação) – e predica que a vida, na verdade, não termina com a morte, ao contrário, a “verdadeira vida” continua no post mortem.

Da mesma maneira que a religião foi sendo emasculada, retraindo-se à vida privada dos sujeitos, também as ideologias políticas – especialmente aquelas que guardavam um forte apelo por redenção no final dos tempos, como o marxismo histórico e as utopias arianas e fascistas – paulatinamente, aumentaram seu poder de sedução sobre o homem ávido por “sentido existencial” e pertencimento gregário.

Na literatura de Dostoiévski, em consonância com esta erosão de sentido ético, haverá o testemunho da emergência sem precedente, do “mal ontológico”, a ruptura definitiva com o transcendente, jamais esquecida.

Infenso a qualquer tentativa de “evolução moral”, o nosso eu profundo só poderia mostrar-se integralmente através de uma literatura “maldita”, que trouxesse à luz a saudade do absoluto que a civilização ocidental “descristianizada” tentou, inutilmente, manter em esquecimento.

Somos seres descontínuos, porém temos a nostalgia do absoluto perdido. Geralmente suportamos mal a situação que nos sujeita à individualidade do acaso, à individualidade material e perecível de que somos feitos. Mas, ao mesmo tempo, temos o desejo angustiado da duração deste perecível, desejamos a continuidade cósmica que nos religa ao Ser.

No halo religioso que permeia os escritos dostoievskianos, percebe-se, de maneira nuançada, mas constante, a nostalgia desta “relação primordial”, a presença subliminar de um Deus criador, aquele que expulsou o homem do paraíso por causa do pecado original, impondo a mortalidade como característica mais marcante da nova e sofrida vida longe do paraíso, mas que pode ser entrevisto todas as vezes em que o ser humano esquece-se de si mesmo, sacrificando-se pelos órfãos da terra, em atos sublimes de amor.

 

 

 

 

Eduardo Oyakawa é pós doutor em filosofia da arte pela UNIFESP.

Mestre e Doutor em filosofia da religião pela PUC-SP.

Sociólogo, professor universitário e autor do livro “Os Sagrados Cães Dançarinos: Mística e Heresia em Franz Kafka”: editora Filocalia, entre outros.

 

 

 

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