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Liberdade, insegurança e solidão em tempos de relacionamentos líquidos

Foto: Pixabay
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Em 1920, acometido pelas questões de sua época, Freud escrevia em Mal-estar na Civilização que a sociedade havia trocado uma parcela das suas possibilidades de liberdade por uma parcela de segurança. Em seu livro Mal-estar na pós-modernidade, Bauman faz uma atualização da frase freudiana ao dizer que na pós-modernidade nós trocamos uma parcela de segurança por uma parcela de liberdade.

De fato, tendo como uma das suas principais prerrogativas a liberdade individual, o capitalismo ampliou ao extremo as liberdades de escolha, o que resultou numa diminuição da segurança. Os medos e incertezas trazidas pelos nossos tempos estão indubitavelmente atrelados a essa liberdade sem freios que nos condiciona a relações cada vez mais frágeis.

Se hoje, com o advento das redes, se fez possível nos conectarmos a cada vez mais pessoas, a impessoalidade do mundo virtual somada a liberdade que ele nos proporciona nos permite curtir, descurtir, dar match, cancelar pessoas com um simples toque. Ou seja, essa liberdade de escolha reserva também uma liberdade de substituição.

As pessoas se tornaram dispensáveis. Nos transformamos em ilhas e envoltos por um mar de tecnologias estamos aptos a viver a solidão dos tempos pós-modernos.

Conjugamos relações com consumo e fazemos delas meras utilidades com prazo de validade determinado pelo interesse, seja ele qual for.
Estamos cada vez mais nos adaptando á frouxidão dos laços, ao desprendimento nas relações. Ninguém se impõe o trabalho do esmero, do zelo no trato que requer paciência e empenho. Ninguém mais quer suportar o fastio, as dores emocionais, as desilusões costumeiras do convívio cotidiano.

Relacionar-se é trabalhoso. O confronto de pensamentos, valores, hábitos gera desconforto. Sentimento esse extremamente evitado na moderna sociedade do bem-estar. Por isso, ao primeiro sinal de incômodo, desfazem-se laços. Na lógica capitalista, mercantilizamos as relações. Se o “produto” demonstra defeito, jogamos fora, o substituímos.

Foi-se o tempo de reparar arestas. O perdão agora é démodé. Não precisamos consertar relacionamentos quebrados, porque o tempo é outro, é o tempo do desapego. Aliás, liberdade na nossa sociedade pressupõe desapego. Chegou o tempo que a liberdade de escolha é tão grande que já não somos capazes de suportar quaisquer incômodos e desconfortos causados por outrem. Nesse contexto, esvazia-se o diálogo e maximizam-se as intolerâncias, porque a ordem é prescindir.

No entanto, as consequências dessa liberdade demasiada é o medo que essa fragilidade nos laços tem nos causado. Nos sentimos todos inseguros e solitários. De seres gregários, condição para nossa segurança em sociedade, passamos a viver uma solidão disfarçada. Nos bares, nas festas, nas praias, nos transformamos numa multidão de gente sozinha.

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