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O ofício do poeta , fazer do historiador: a invenção do passado por Manoel de Barros

Foto: Cottonbro/ Pexels
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O conhecimento histórico é um conhecimento relativo ao tempo histórico. Assim, se no século 19, no auge das grandes revoluções, quando o  conhecimento historiográfico ganhava sentido,  o “fazer história” significava recuperar o passado nacional e os grandes feitos da civilização, na atualidade, com a queda dos mitos de fundações e o questionamento da racionalidade e do determinismo histórico, chega-se à conclusão que o conhecimento não se refere a uma realidade objetiva, mas parte de representações subjetivas do mundo. O homem descobre o mundo como linguagem – lugar de invenção.

Daí parte a associação entre História e Literatura. Embora a narrativa histórica não tenha a estrutura de uma narrativa ficcional, ela se alicerça sobre a invenção, sobre a recriação de uma realidade que é sempre subjetiva e que por mais que seja contada, sempre deixa algo a dizer.

No que tange à Literatura, aquele que a escreve sabe que por mais que se diga, há sempre um por dizer que escapa ao fio da linguagem.  E no vácuo entre o dito e o não dito reside a verdade de todo escritor. Ali, onde o elo falta, a imaginação cria e recria, e as letras que bordeiam as páginas ganham vida, estatuto de verdade, independente da fantasia que supostamente comporte.

Manoel de Barros, poeta brasileiro nascido em Cuiabá, Moto Grosso, em dezembro de 1916, talvez tenha sido o escritor que mais se aproximou do fazer história de nosso tempo. Expressando o caráter fragmentário de nossa experiência, dedicou-se à invenção de coisas e mundos. A verdade, portanto, era o que cabia nas suas palavras. “Tudo que não invento é falso”, afirmava  o poeta.

Retirando o olhar do grandioso e heroico para o ínfimo, “deu valor às coisas desimportantes e aos seres desimportantes” – aguçados ao seu próprio olhar. Manoel, “aparelhado para gostar de passarinhos”, derrubou as versões hegemônicas da memória dos vencedores e  versou sobre o ordinário.  “Amou o resto como as boas moscas”, tal qual o historiador da micro-história que recria a realidade a partir do olhar para o que a maioria não vê.

Em tempos de desmoronamento de valores, crenças e certezas, dar valor a quem constrói mundos com palavras retiradas das nossas ruínas, dá dignidade e sentido a nossa existência. Se já não damos contas de escavar catacumbas e ressuscitar o passado para nos ensinar suas lições, resta-nos os poetas para nos ensinar que “[as] palavras estão fatigadas de informar (…)”, elas querem transcender; criar pontes entre às memórias e as coisas.

Neste mês de novembro, completamos sete anos sem o poeta pós-Modernista. Com sua sabedoria de fazedor de poemas, Manoel de Barros nos mostrou que “a palavra é nascedouro que acaba compondo a gente.” Ou seja, a linguagem é o lugar de invenção da realidade. Por isso, “há histórias tão verdadeiras que parecem inventadas”, pois a história é invenção de versões concebíveis à nossa trajetória no tempo e espaço.

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