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Jairo Carioca: O fascínio pelo fim do mundo

Foto: Pixabay
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Bem, você e eu chegamos em 2022, o que equivale a dizer duas coisas: ou sobrevivemos ao apocalipseanunciado que ocorreria pela pandemia ou tudo não passou de mais uma daquelas previsões de fim de mundo entre tantas que já sobrevivemos.

Profecias sobre o fim do mundo não é invenção da modernidade, há registros muito antigos e em diversas civilizações sobre profecias parecidas, desde os nórdicos que acreditavam num inverno glacial e na morte de todos os deuses até os Maias e seu calendário que foi interpretado por muito como a anunciar o fim do mundo, e claro, não podemos esquecer também do livro de Enoque que influenciou em muito os escritos do novo testamento e o famoso médico da Renascença Michel de Nostredamecom suas famosas profecias.

A verdade é que o nosso fascínio pelo fim do mundo vem pela nossa visão linear da história, onde há um fim irrefutável, e ter uma data para esse fim acontecer traz uma falsa segurança, uma doce ilusão. Não sabemos lidar com nossa finitude, a mortalidade é difícil de aceitar, dizer que o fim do mundo está próximo alivia a ideia de morrer, afinal, o mundo continuar a existir depois de você é inadmissível, em uma catástrofe, todos morrem juntos.

Freud em sua ultima longa entrevista conduzida por George Sylvester Viereck disse: “Os desejos de morrer e de viver convivem lado a lado dentro de nós. A Morte é a companheira do Amor. Juntos, eles governam o mundo. Essa é a mensagem do meu livro, Além do princípio do prazer. No início, a psicanálise achava que o Amor era o sentimento mais importante. Hoje, sabemos que a Morte tem a mesma importância. Biologicamente, todo ser humano, não importando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pelo fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto o objetivo final da vida é a própria extinção”.

Nossa mente deseja um fim coletivo, por que temos medo de nossa solidão, na destruição nos sentimos parte de algo maior do que nós, um plano universal que promete fim as incertezas sobre a própria vida. A ideia de um poder maior que corrigirá o curso da sociedade e que promete uma pós-vida de paraíso, trazendo compensação para aqueles que vivem uma vida difícil neste momento, é muito bem vinda, assim, o fim do mundo é uma chance de mudança. Isso chegou a gerar até suicídios, como aquele que aconteceu em Jonestown, na Guiana, quando em 1979, 918 pessoas morreram em um misto de suicídio coletivo e assassinatos guiados pelo messianismo de Jim Jones, pastor e fundador do Templo Popular, uma seita pentecostal cristã.

Em 1919 Freud escreveu “Das Unheimliche”, uma palavra sem equivalente no português, mas que no Brasil foi traduzido como “O Estranho”. Neste texto Freud analisa o medo que sentimos diante de situações estranhamente familiares, mas que deflagram processos mentais profundos, uma sensação insuportável de angustia. Para ele o medo é desencadeado pela ameaça de castração, pelos desejos recalcados, pelos processos primitivos de pensamento e a realidade psíquica seria não apenas fonte de estranheza, mas causa dos principais elementos causadores de nossos temores.

Experimentamos um profundo mal estar quando nossas verdades absolutas e nossa fortaleza de certezas começam a apresentar rachaduras, quando aquilo que sabemos sobre nós mesmo e sobre as coisas que nos cercam é confrontado pela ruptura na racionalidade tranquilizadora do dia a dia, e acabam por confirmar as velhas e rejeitadas crenças, fazendo assim então com que nos voltemos para profecias de fim de mundo, ou nas palavras do próprio Freud: “crenças animistas”.

No seu livro “A vida não é útil” o ativista indígena brasileiro Ailton Krenak, sustenta que a humanidade é uma espécie de conceito limitador, pois exclui os outros seres que habitam o planeta, como animais, árvores, rios, montanhas. Uma espécie de um clube seleto de certo tipo de gente, que exclui outras formas de vida, humanas e não humanas. Então, a pandemia veio nos ensinar que arecriação do mundo é possível e que “ela não é a maior desgraça do planeta”, e convoca: “Ou você ouve a voz de todos os outros seres que habitam o planeta junto com você, ou faz guerra contra a vida na Terra”.

Tem-se que mudar algo ou alguma coisa, isso tem que ser feito agora, “o que nos resta é viver as experiências, tanto a do desastre quanto a do silêncio”. A pandemia não é o fim do mundo, mas pode ser o fim do mundo marcado pela obsolescência da vida e quem sabe o recomeço de um mundo onde o amor faça mais sentido.

Jairo Carioca é Psicanalista. Dr. h. c. em Psicologia pelo Logos University International, e Pesquisador no Laboratório de Educação, Gênero e Sexualidades da UFRRJ.

 

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