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O eterno marido

Foto: Pixabay
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Pedro Diamante era acima de tudo, um bom marido. Pacato, extremamente educado, algo tímido também, construiu uma sólida reputação como advogado corporativo, tendo inclusive ganhado prêmios de alto galardão junto aos pares jurisconsultos. Exatamente por ser um brilhante advogado, desfrutava de um rico padrão de vida, o que incluía viagens internacionais constantes e dispêndios elevadíssimos nos melhores shopping centers da cidade.

Pedro era casado há 22 anos com Maria Carolina de Pontes Barroso, pertencente às classes sociais abastadas do Rio de Janeiro. O casamento era sólido, estruturado em recíproca confiança e o fato de não terem filhos (ela não os queria) tornava a vida do casal previsível e algo monótona, a despeito da fartura material.

Numa tarde de verão, Pedro chegou em casa mais cedo e foi diretamente conversar com Carolina a respeito das passagens para a Patagônia Argentina. Enquanto trocavam informações sobre os melhores hotéis da região, a mulher foi chamada à portaria do prédio para resolver uma pendência com o jardineiro do condomínio.

Pedro estava sozinho na sala de estar, quando notou novas notificações no celular de Carolina e, pela primeira vez na vida, teve curiosidade de bisbilhotar os contatos da esposa. Eram mensagens tórridas, sexuais, escritas por um tal de Roberto Ambrósio. O próprio tempo parou para respirar, diante da estupefação de Pedro Diamante.

Indignado, esperou a esposa voltar e resolutamente (mas sem qualquer alarde), pôs fim ao casamento. Mudou-se imediatamente do apartamento e colocou na cabeça que iria redirecionar completamente a vida.

Abandonou os ternos convencionais azuis e cinzas e trocou-os por roupas esportivas coloridas e estampadas (conforme sugeria um site italiano dirigido a homens maduros). Deixou o bigode crescer, caprichou no volume para torná-lo atraente e viril, raspou os poucos cabelos que lhe sobravam e começou a malhar diariamente na academia. Aprendeu a surfar e criou o hábito de caminhar sob o sol tépido de todas as manhãs.

O escritório de advocacia foi paulatinamente perdendo o encanto, até que 2 anos após o divórcio, foi extinto definitivamente.

Aos 52 anos de idade, Pedro Diamante era um homem renascido e começou a frequentar o curso de Psicologia, propondo-se inclusive, a ler ao menos um clássico da literatura mundial a cada mês. Deslumbrou-se sobretudo com Kafka e Dostoiévski e nas noites solitárias (apesar de recorrer com frequência aos aplicativos de relacionamentos), agradecia à ex-esposa o fato de lhe ter proporcionado tal transmutação existencial.

Certa noite, 9 anos após o divórcio, Pedro encontrou Carolina num café no Leblon. A jovem senhora estava acompanhada por um homem jovem e foi preciso que ele levantasse os braços para ela reconhecê-lo.

– Nossa! É você mesmo, Pedro? O que aconteceu com você? Me fale dessa tatuagem aí nestes braços malhados.

A conversa transcorreu animada (apesar dos olhares de reprovação do namorado da moça) e eles trocaram os novos números do celular.

Naquela mesma noite, Pedro ligou para a ex-esposa. Conversaram como velhos amigos, riram das intimidades dos tempos de casados. O papo esquentou, Pedro provocou e a imaginação de ambos flutuou livre e erótica sob a égide de Nêmesis, a Deusa da vingança.

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