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A polícia do pensamento

Foto: Pixabay
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O gigantesco prédio metalizado cor de chumbo estendia-se por quase um quarteirão e possuía nada menos que cinquenta metros de altura. Não havia uma janela sequer para deixar a luz do sol entrar e muito menos quaisquer indícios de ventilação natural.

O arranha-céu era uma fortaleza inexpugnável construída a fim de não permitir a entrada de visitantes indesejados ou a fuga de prisioneiros. Na única porta existente, podia-se ler a inscrição forjada num vermelho conspícuo, cor de sangue: “ALA DOS IDEOCRIMINOSOS”.

Estamos em 2078 e toda a humanidade havia sido dividida em dois tipos de gente: os que integram o sistema político, chamados cidadãos de primeira ordem ou XX e os outros, alcunhados de lunáticos ou XXZ.

Evidentemente, o lugar para onde eram mandados os transgressores, os XXZ, era o imenso e irrespirável edifício localizado no centro da cidade de Londres. Neste lugar sombrio, o partido tentava de todas as maneiras, reeducar os lunáticos para readaptá-los à normalidade da vida pública.

Mas, infelizmente, a empreitada nem sempre obtinha sucesso, sendo necessária por vezes, a morte por tortura não apenas para purgar os erros cometidos pelos desviantes, mas também para mostrar aos cidadãos de primeira ordem que o partido, apesar de ter nascido para garantir a liberdade e igualdade entre os seres humanos, devia sobretudo ser a única fonte dos preceitos morais das pessoas de bem.

Mas quem eram estes trânsfugas, os XXZ? Basicamente, eram homens e mulheres que se recusavam a aceitar o pleno desenvolvimento da ciência hiper moderna e, portanto, desafiavam todos os avanços gloriosos que a inteligência humana havia criado ao longo de séculos e séculos de evolução.

Para piorar a situação, os ideocriminosos ainda mantinham de maneira velada, mas recorrente, as velhas crenças religiosas há muito proibidas pela onisciência do partido hegemônico.  Eram pessoas que, por exemplo, lutavam contra o direito ao aborto universal ou à eutanásia generalizada, além, é claro, de se manifestarem contra a novilíngua, a linguagem oficial do comércio e da propaganda falada, não apenas na cidade de Londres, mas por todo o continente ocidental e boa parte da Eurásia.

E mais, acreditavam os ideocriminosos em antigas superstições muito danosas ao progresso científico, como a vida após a morte e o julgamento final das almas por alguém que eles chamavam (de maneira neurótica e delirante, avaliavam os psicólogos da polícia do pensamento) de Deus.

A título de esclarecimento, acompanhemos como observadores equidistantes, os processos pedagógicos disciplinadores destinados aos lunáticos transgressores no bunker metalizado.

Numa primeira sessão de tortura, eles eram encaminhados para uma sala muito escura e fria, sentavam-se em cadeiras de alumínio grosseiro e ali ficavam cativos por uma hora inteira, vendo numa gigantesca teletela (com tradução simultânea) a apresentação de antiquíssimos músicos brasileiros, os chamados sertanejos. Seres esquisitíssimos, calçando botas de couro e chapelões semi mexicanos.

Quem sobrevivesse a esta terrível experiência (muito poucos conseguiam) era encaminhado para uma sala mais escura ainda, onde ficava exposto às palestras de antigos presidentes do Brasil (país inigualável, diziam os membros do partido) José Sarney, Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso. Havia desmaios generalizados e ranger de dentes por todo o ambiente.

Mas, se porventura alguém ainda saísse inteiro do insano espetáculo, deveria – como última tentativa para a reeducação dos ideocriminosos recalcitrantes – ser levado ao anfiteatro do prédio para passar dois dias intermináveis, escutando um tal de Luiz Inácio da Silva, o Lula Lelê da cuca.

Como ninguém nunca suportou tamanha tortura, a vida sob o controle do partido leviatânico continuou inquestionável e o ano de 2078 pode ser ainda mais alvissareiro com a chegada das vacinas usadas para controlar o bom humor daqueles poucos cidadãos de primeira ordem, ainda não inteiramente domesticados.

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