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Palavras são como jujubas que a gente devora e não sente

Foto: Pixabay
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Existem as palavras. Sim, existem as palavras que nos distinguem: cheiro de café pela manhã, estradas de terra ao final da tarde, frutas saborosas e coloridas à vista da criançada, perfume das árvores depois da chuva intensa, grama molhada, pássaros cor de cinza chumbo e de peito amarelo, o olhar que vê, que se alonga, contempla e agradece, amigos que se aproximam, abraços, risos soltos, “quem fez esta merda no teu cabelo, mano?”,  a música de nossa juventude, os corpos macios e inebriantes das meninas quando eu tinha 14 anos nos bailinhos da vizinhança, o primeiro beijo, que sensação aquela! 

Saudades da Mirela! Passei em frente da sua casa depois de 30 anos, ainda é a mesma casa de sempre, mas onde está você? O tempo passou rápido, mudo, imperceptível. A memória que guardamos nas entranhas, o jeito debochado e alheio da Gabriela, a doce Marli na faculdade, lugar de tantos e tantos livros encantados, preciosos. Quantas vezes salvaram a minha vida? Não saberia dizer.

Salinger, Maughan, Drummond, Kafka, Holderlin, Buber, minha sincera gratidão a todos vocês. O paraíso é vosso agora e por toda a eternidade. Preces na noite escura, compaixão pelo jovem sonhador, Deus. Seria essa, afinal de contas, a palavra essencial? Ou seriam outras, tais como: estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar como cantava o poeta mineiro? 

Cantar o velho Rock and Roll, delícia das delícias juvenis, jeans velhos, rasgados, som altíssimo, cabelos compridos a bordo do carro veloz serpenteando pelas ruas de São Paulo, minha cidade, lugar ébrio apascentando os terrores, minha implacável solidão. Mas sempre voltei a ti, não é? Desta traição não podem me culpar. O quarto escuro, cativo, emoções se multiplicavam, contraditórias como o desejo, ser e não ser ao mesmo tempo.

“A quem eu muito amei, muito feri”, li numa placa escrita em Cascais, Portugal, aquele sotaque irmão, mas espezinhado. Os sons que saem da boca de todo o mundo, mas as palavras não deviam ferir nem humilhar. Elas não nasceram para isso, as palavras são como jujubas que a gente devora e nem sente, mas de vez em quando elas machucam.

“Você não é gente”, disse meu pai numa manhã longínqua, perdida para sempre no coração do jovem de 24 anos. Então, veio a filosofia, conceitos, explanações analíticas e, com jeitinho, aprendemos os macetes, os jargões, grego e latim. E eles (no grande teatro do mundo) acham que ficamos inteligentes, sábios e eloquentes, mas se esquecem que só fazemos meditar sobre a morte, somente ela importa. O que vem depois do fim ou não vem nada e tudo é rigorosamente absurdo?

Mas, se é absurdo, então eu persevero e creio, fecho os olhos e acredito. Estou com os primeiros cristãos no Coliseu de Roma, diante dos leões famintos e ulcerados. Nossos corpos agora foram retalhados, dançamos no ar um balé macabro, rodopiamos no ar lacerados. Somos gritos, uníssonos, entreouvidos nos espaços ermos, nas bocas manchadas de sangue. Mas eu creio, apesar de tudo, creio como a criança cingida nos braços da mãe crê no amor gratuito e sincero, a despeito do aparente abandono em que tantas vezes fazemos morar o nosso desespero.

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