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A cultura do cancelamento

Foto: Reprodução
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Junto ao recente conflito entre Rússia e Ucrânia, um fenômeno, talvez tão antigo quanto a humanidade, tem tomado lugar de destaque nas atuais discussões entre acadêmicos, políticos, ativistas e jornalistas: o cancelamento cultural. Também conhecido como ostracismo, o cancelamento cultural ganhou novo impulso com a tecnologia de informação e a globalização, nos últimos anos, e nova roupagem com a atividade política de grupos como Black Livesmatter, por exemplo. Dentro desse contexto, a guerra iniciada pelo presidente russo Vladimir Putin não somente ativa a discussão acerca o poder de censura sobre culturas consideradas politicamente incorretas, mas também a entende para o campo das atividades financeiras e de mercado. Um exemplo disso está na saída de algumas empresas ocidentais da Rússia em protesto contra sua posição bélica de ataque à Ucrânia, o que tem provocado sentimentos de contentamento e de indignação entre consumidores e investidores no mundo todo.

Tendo em vista que tais fatos têm minimamente desestabilizado a economia mundial e dividido opiniões políticas, cabe aqui uma discussão mais profunda que toma seu lugar de fala: as controvérsias em torno do cancelamento cultural e da liberdade de expressão. Alguns acreditam que a censura pode dar voz a grupos de protesto que de outro modo permaneceriam na obscuridade. Outros pensam que tal fenômeno pode ser danoso para a liberdade de opinião e para o debate aberto. No primeiro caso, os benefícios colhidos da censura poderiam ajudar no processo de empoderamento de ideias e de acirramento de conflitos em favor de mudanças sociais necessárias. No segundo caso, caso, o boicote cultural, seja o de uma pessoa na mídia ou o de uma nação na sua dinâmica geopolítica, representa o exercício do controle e da limitação do poder sobre ações/palavras consideradas questionáveis ou ofensivas, ferindo, portanto, a liberdade individual e coletiva. Em qualquer um dos casos, no entanto, há não somente o desconforto moral da censura em si mesma, mas também a opressão política como uma forma de totalitarismo. Em qualquer um dos casos, deve-se levar em conta a existência do convívio de culturas diversas sem o domínio de umas sobre as outras e sem a objetificação das culturas não dominantes na lógica estrita do mercado.

O cancelamento cultural sempre foi e sempre será essencialmente um fenômeno referente `a eterna luta política por domínio e influência entre os grupos e, em alguns casos, um instrumento de corte das diferenças e de homogeneização. Estar ciente isso, não significa, entretanto, a aprovação de conflitos bélicos e perpetração de injustiças. Estar consciente disso é apreender seu sentido e implicações em favor de uma integração política mais legitima e escolhas mais sensatas.

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