Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. ©2019 Diário do Rio.

Lembrança de Lygia Fagundes Telles (1918 – 2022) (Parte 2)

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email
Share on telegram

Através do casamento com Goffredo, que ainda criança conviveu com Mário de Andrade, Lygia, teria contato com grandes nomes da política, das artes e da sociedade paulistana. Mas ela já era escritora e como o marido, também formada pelas Arcadas (Turma de 1945, ele da de 1933). Pois bem, Goffredo fora casado em primeiras núpcias, no ano de 1939, com Elza Bueno Xavier da Silva, a Zita, uma sobrinha de meu tio Affonso Bueno (descendente direto de Anhanguera II, patriarca de grande parte da gente bandeirante), que era casado com minha tia Alice Galembeck. Com Zita ele teve seu primeiro filho, ou melhor, seu primeiro Goffredo, pois o segundo seria com Lygia, com quem se casou um pouco mais tarde. Triste destino, tanto Zita como Goffredinho faleceriam cedo, deixando o pai e marido inconsolável, o que só mudaria quando conheceu Lygia de Azevedo Fagundes.

Lygia casou-se com seu primeiro marido, Goffredo, em 17 de abril de 1947, 02 dias antes de completar 29 anos. No registro de casamento sua data de nascimento é clara: 19 de abril de 1918, mesmo a imprensa toda e algumas entidades terem dado 1923 como o ano de seu nascimento. Lygia foi registrada no cartório de registro civil de Santa Cecília (São Paulo, SP) em 23 de abril de 1918 com 04 dias de idade. Poucos dias depois foi batizada na paróquia da Consolação em 03 de maio de 1918. Portanto, não faleceu no domingo 03 de abril com quase 99 anos e sim com quase 104 anos, extremamente longeva. Mas, a verdadeira idade de Lygia acabou vazando quando teve de juntar documentação a respeito da sua sucessão. Virou um segredo de polichinelo na Academia Paulista de Letras. Fora dali, poucos sabiam, creio que somente eu e o escritor e jornalista Gabriel Kwaw, meu confrade na Academia de Letras de Campos do Jordão. Sabia que ela era mais velha que minha tia avó, Myrthes, essa de 1920, pois tinham uma amiga em comum cuja idade oscilava entre 1919 a 1922: Cinzica Monti Rolli, também escritora, porém com breve atuação.

E falando na “Montanha Magnífica”, quando ingressei nessa prestigiada entidade, ‘apadrinhado’ por gente como Cecília Murayama e Oswaldo Sangiorgi, tive o prazer de conviver um pouco mais com Lygia, que reinava na cidade sempre ciceroneada pelo Arakaki Masakasu, o célebre secretário geral da Academia de Letras de Campos do Jordão, a qual me aproximou também de Gabriel Kwak. E o próprio Gabriel, viu uma vez Lygia (que votou nele, inclusive, para ingressar naquela entidade), comentando numa roda que estava rasgando muita coisa do seu arquivo, inclusive cartas, para que não atribuíssem a ela que tivesse namorado este ou aquele. Nélida Piñon o disse que o pouco arquivo que Lygia juntou – e doou ao Instituto Moreira Salles – foi por influência dela, Nélida, que “guarda tudo“, inclusive, notas de aula e várias versões dos seus romances. E no quesito namoro, Lygia namorou Moacyr Werneck de Castro.

Os primeiros livros de Lygia ela os renegou e se tornaram raridades, itens de colecionador, como ‘Porão e sobrado’, ‘Praia viva’ e ‘O cacto vermelho’. Agora, mais valiosos ainda. Descanse em Luz, Lygia Fagundes Telles, escritora e mulher – ofício e condição duplamente difíceis de contornar – que ouvia duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembrava poesias, sonhava, inventava, abria todos os portões quando via a alegria instalada em si!”.

pt Português
X
Open chat