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Sobre amar uma pessoa do mesmo sexo

Foto: Pixabay
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Certamente a melhor e mais conhecida qualidade de meu pai era a generosidade e, por este atributo, todos o saudavam na bonita cidade de Sorocaba, no interior paulista. Absolutamente apaixonado pelos filhos, devotava todo o tempo que sobrava do trabalho cansativo (era químico de profissão) aos cuidados comigo, seu primogênito,e com meu irmão oito anos mais novo.

E assim a vida acontecia, enquanto eu crescia. Viagens à praia, finais de semana no clube, futebol toda quarta e sexta à noite e até, quando sobrava dinheiro, turismo na Itália, Calábria especificamente.Eu tinha um pai maravilhoso, alegre, respeitoso, companheiro e, acima de tudo, profundamente culto(tinha lido todos os livros clássicos da literatura ocidental).

Mas esta vida feliz estava prestes a acabar.  Aos dezesseis anos, respirei fundo, meditei por meses a fio até tomar coragem para contar ao meu pai sobre minha homossexualidade.Quando ele, numa noite quente e chuvosa de primavera, ouviu minha confissão, não disse uma palavra sequer;muito pelo contrário, ficou num terrível silêncio que parecia ter durado a própria eternidade.

Desde aquela data, nossa relação mudou inteiramente.Meu pai continuou sendo respeitoso e amigo como antigamente,mas eu percebia que seu olhar tinha se transformado.Também o abraço, outrora caloroso e acolhedor, passou a ser protocolar, quase distante. Tinha a convicção de que havia perdido o amor de meu pai para sempre.E isto doía terrivelmente, dia após dia, noite após noite, mas a vida tinha que continuar.

Acabei a universidade, me formando em engenharia de materiais e prontamente comecei o mestrado na mesma área.Nesta altura, eu já estava namorando o Miguel (apesar de nunca o ter apresentado à família) e praticamente toda a nossa roda de amigos sabia do relacionamento.Recebi então,uma surpreendente proposta para fazer doutorado e trabalhar em uma empresa de tecnologia em Chicago, nos Estados Unidos. Eu e Miguel nos mudamos pra lá no final de 1992.

Certa noite, meses depois de minha partida, recebi um telefonema de minha mãe, dizendo que meu pai estava internado em estado grave no hospital.Arrumei as malas e voltei ao Brasil para visitá-lo.

O diagnóstico era terrível: câncer no pâncreas. Os médicos davam no máximo duas semanas de sobrevida.Encontrei-o magérrimo, quase desfigurado pela dor, perfurado por sondas, crivado de cateteres transparentes no leito do quarto.

Ele me olhou com emoção. Já não podia falar nem se mover, mas com enorme esforço,abriu um largo sorriso ao me ver e o manteve assim o quanto pôde até quedar-se exausto. Logo em seguida, foi levado à UTI e faleceu uma semana depois.

Aquele sorriso dele lancinado jamais saiu do meu espírito, sorriso que significou para mim o amor devolvido ao filho pródigo,um aceno de reconciliação e perdão de quem estava se despedindo da vida.Saudoso, mas renascido, finalmente pude me olhar com dignidade em frente do espelho e prosseguir a rotina sem o travo da angústia que desesperou minha existência desde a juventude.

Voltei aos Estados Unidos e, de maneira completamente banal, descobri que meu marido Miguel estava tendo um caso com outro homem.Fique descontrolado. Ameacei-o com gritos e enxovalhos de toda a natureza. Enxotei-o sem nenhuma piedade do nosso apartamento.

Mas, neste ínterim, o adeus generoso de meu pai ressurgiu em minha memória intensamente.Quatro meses depois de descobrir a traição, liguei para o Miguel, que trabalhava na mesma empresa que eu,e marcamos um encontro na Michigan Avenue.Ele estava ansioso,sentado de pernas cruzadas num daqueles bancos altos perto do bar.

Aproximei-me discretamente, coloquei a mão em seu ombro e dei-lhe o melhor sorriso que um ser humano pode dar a outro ser humano.Afastei-me e fui caminhando cabisbaixo pela neve espessa que cobria a cidade de Chicago.

De volta ao prédio na Union Station, eu estava às lágrimas porque tinha a certeza de que meu pai, lá do céu,sentia orgulho do seu filho homossexual.

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