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Maurina Pereira Carneiro: A Condessa que se fez jornalista (Parte 6)

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Um ano depois, em 1958, a recepção que o Embaixador Hugo Gouthier ofereceu à Imperatriz Soraya, em Bruxelas, foi um sucesso, como afirmava Luiz Lobo em sua coluna na revista Manchete. A Condessa Pereira Carneiro estava sentada, calma, ouvindo a orquestra tocar um samba, quando foi puxada pelo braço para o meio do salão. Era Assis Chateaubriand, que dizia em voz alta: “- Vamos, Condessa, vamos mostrar a essa canalhada toda como é que se dança um samba”. E deram um verdadeiro show no salão, o que mostrava o ecletismo social e artístico da velha dama. No ano seguinte, 1959, a Condessa Pereira Carneiro falava ao repórter Caio de Freitas, do grupo Manchete, sobre a modernização do “Jornal do Brasil”, conhecido nacionalmente como JB, o que foi tido como uma ‘bomba’ do momento e mereceu grande reportagem na revista. Sob sua direção, o “Jornal do Brasil” deixava de ser antiquado e graficamente pesado, para transformar-se, ainda na década de 1950, em um modelo para o moderno jornalismo brasileiro. Foi em 1953, que ela assumiu a direção do JB, após a morte do segundo marido, o Conde Ernesto Pereira Carneiro. Poucos anos após assumir o jornal, a condessa, assessorada pelo jornalista e escritor Odylo Costa, filho, presidiu uma reforma que envolveu a redação e o aspecto gráfico do jornal. Redatores hostis à máquina de escrever, habituados à pena, foram gentilmente mandados para casa, em muitos casos, sem perder seus salários. Essa mudança alterou a fisionomia do jornal, onde surgiu uma brilhante geração de repórteres e fotógrafos. Em pouco tempo, o veículo tornava-se sério concorrente em prestígio do Correio da Manhã. O Conde Pereira Carneiro, durante os três anos da enfermidade que o vitimou, recomendava sempre à sua esposa que seguisse o seu exemplo de trabalho e que, após a sua morte, o substituísse na direção das empresas às quais dedicou o melhor da sua inteligência. Assim, um mês depois do seu falecimento, numa comovida homenagem à memória do Conde Pereira Carneiro, D. Maurina assentou-se na cadeira – que era dele – e passou a dirigir o grande jornal que era o JB e a sua estação de rádio.

Bem humorada, mas enérgica, compreensiva, mas cônscia dos seus direitos, a Condessa Pereira Carneiro segurava as rédeas da administração de sua grande empresa jornalística com mão firme. Ela era a autoridade com ternura. Para os que não acreditavam em palavras nos anos 1950, lá estava para ser vista, em plena Avenida Rio Branco, no coração do centro do Rio de Janeiro, a impressionante obra que essa ilustre senhora já havia realizado, e continuava realizando. A sede antiga era no 110 da Rio Branco, num lindo edifício Art Noveou que já fora o mais alto da América Latina. O antigo prédio da firma, a seu mando, foi revolvido de alto a baixo, nova rotativa foi assentada, derrubaram-se paredes e construíram-se novos andares, instalaram-se maquinas modernas de todos os tipos, numa ânsia de renovação que já havia se convertido numa mística. E não somente o lado material daquele universo gráfico foi atacado. A revolução proposta pela Condessa tinha, igualmente, objetivos intelectuais, transformando, no reduzido espaço de cinco anos, um dos órgãos mais conservadores da imprensa brasileira num jornal vivo e moderno, igual, ou melhor, ao que havia de mais avançado no campo das realizações jornalísticas brasileiras. Entretanto, ela fazia questão de se omitir, em face de qualquer referência elogiosa ao seu esforço. Preferia transferir para os seus colaboradores os louros que por direito lhe cabiam pela esplêndida vitória. Dizia sempre que tudo era resultado de um trabalho de equipe e que requeria muita audácia. E ela não estava errada, mas a revolução jornalística toda era obra sua. Em vida, o Conde Pereira Carneiro interessava-se profundamente por tudo quanto se relacionasse com jornais e nas viagens frequentes que o casal fazia a Paris, nunca deixavam de visitar a redação dos grandes periódicos franceses, indagando, com umas curiosidades a quais não eram estranhos um vago sentimento de interesse pessoal, de todas as inovações que eram introduzidas na organização das empresas. Assim se informavam, com o mais contagiante entusiasmo, sobre os novos métodos de distribuição do trabalho, sobre os processos de coordenação entre a redação e a oficina, enfim, de todos esses pequenos, mas relevantíssimos detalhes, que faziam ou asseguravam a crescente e cada vez mais vertiginosa penetração da impressa no gosto do grande público. Quando o veterano “Jornal do Brasil” foi reformado por etapas e o começo havia sido com a aquisição de rotativa  nova e linotipos, estaria aparelhada a nova oficina e daí a redação seria enriquecida com valores novos. Passou então a sair o suplemento literário que se tornaria famoso desde o primeiro número.

Quem conversava com a Condessa Pereira Carneiro não poderia nunca imaginar que, sob aquela personalidade de senhora da alta sociedade, podia se ocultar um espírito dinâmico, organizador, aberto a todas as solicitações da moderna técnica jornalística. Quando assumiu a direção do jornal, as amigas das altas rodas passaram a procura-la em seu gabinete, convencidas de que haviam descoberto um novo ponto de reunião social, onde os potins’ fervilhassem e as futilidades da vida mundana de então obtivessem uma ressonância maior do que no ambiente acanhado das residências privadas. Puro engano. Em seu gabinete não se servia chá com torradas, mas apenas um cafezinho apressado. A mão que enorme brilhante (presente do Conde Ernesto) ornamentava não se apurava em gestos elegantes, mas se enrijecia em ‘shake-hands’ comerciais, através de sucessivas entrevistas com técnicos gráficos, com jornalistas e com corretores de publicidades.

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