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Entrevista com Indy Carvalho:“A família é fator fundamental na vida dos atletas, podem ajudar muito no bom desempenho deles ou simplesmente fazer com que desistam de seus sonhos.”

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Indy Carvalho tem 40, formada em Serviço Social, descobriu com o passar do tempo e o trabalho como Assistente Social o interesse em atuar como psicoterapeuta, depois de muito olhar e perceber a carência das pessoas de direitos básicos e mais cuidado com o emocional. Tornou-se psicóloga e atua com foco em terapia cognitiva, se especializando no Instituto Brasileiro de Hipnose Aplicada no Rio de Janeiro.

Trabalhando com atletas de e-Sports, Indy Carvalho conversou com o Jornal DR1 sobre a vida desses atletas.

Jornal DR1: Por que trabalhar com atletas de eSports?

Indy Carvalho: Sempre me interessei por esporte, tive uma influência dentro da família que me estimulou nessa parte e acredito que ajudou nessa inclinação para olhar o esporte como uma frente para a atuação da psicologia. A psicologia do esporte foi me interessando durante minha formação profissional, ao perceber quanto o psicológico afeta o desempenho e rendimento dos atletas e que a psicologia faz um trabalho fundamental junto o emocional e psicológico desse público. O universo dos jogos online vem avançando num crescente e ganhando espaço e reconhecimento no mundo esportivo, uma modalidade relativamente nova e apresentam muitas demandas como em outras modalidades, como ansiedade, depressão, angustia, inseguranças, baixa autoestima, que precisam ser tradadas. Sendo assim tem frente de trabalho para a atuação da psicologia e que não tem tanta visibilidade.

Jornal DR1: Qual a maior dificuldade que se tem enfrentado com esses atletas?

Indy Carvalho: Acho que todas as dificuldades apresentadas por eles são importantes e caminham juntas, eles tem que lidar com vários desafios ao mesmo tempo. Mas posso destacar uma delas, a autoconfiança, pois a cada campeonato, a cada resultado a confiança deles é influenciada positiva ou negativamente.

Jornal DR1: A internet pode ser um ambiente tóxico e prejudicial à saúde, como trabalhar esse quesito com essas pessoas que estão imersas nesse mundo em níveis bem maiores que o usuário básico das redes?

Indy Carvalho: Uma boa estratégia é apresentar atividades que serão tão importantes quanto o treinamento deles. Estipular uma rotina para que consigam conciliar a vida pessoal com os horários de treino, como realizar atividade física diária. Por ficarem muitas horas sentados, na frente da tela do computador, a movimentação do corpo é muito pequena e o condicionamento desses atletas é muito mais mental do que físico, porém trabalhar o condicionamento físico é tão importante quanto treinar, pois refletirá diretamente em sua disposição. Quando nos exercitamos, hormônios são liberados na atividade física e eles, junto com os neurotransmissores, são responsáveis por ajudar a regular o sono e a digestão, melhorar a pressão sanguínea e os processos corporais, além de causar a sensação de bem-estar, felicidade e relaxamento e alivia dores e a ansiedade. Pois estimula a produção de serotonina, endorfina, adrenalina, dopamina, que são os hormônios responsáveis pela sensação de prazer, bem-estar e felicidade.
Além de ter horário para treino com início e final, momento de lazer, a socialização também faz um papel importante para a saúde. Eles conseguindo criar uma rotina focada no autocuidado, no auto rendimento com treinos eficazes, tornam seu dia a dia mais saudável, trazendo mais qualidade de vida e diminuindo o tempo “não produtivo” na frente do computador.

Jornal DR1: Em todos os esportes os familiares são personagens das histórias, apoiando ou criticando, qual é o cenário atual em relação ao e-Sports?

Indy Carvalho: A família é fator fundamental na vida dos atletas, podem ajudar muito no bom desempenho deles ou simplesmente fazer com que desistam de seus sonhos. Ter o apoio de seu familiar impacta diretamente do desempenho, na confiança e na concretização do sonho deles.
Nem todo atletas de eSports recebem apoio da família, não são vistos nem como atletas e sim como jovens que passam o dia na frente do computador jogando ao invés de trabalhar ou estudar, veem como perda de tempo e desinteresse. Alguns familiares tem dificuldade de entender que é uma profissão, que há uma possibilidade de crescer profissionalmente e se manter financeiramente. Em casos assim, muitos atletas acabam desistindo de seguir no game, outros se distanciam da família, passam a não dividir mais suas vidas, se isolam, e contextos como esses acabam impactando negativamente no estado psíquico e emocional do atleta.
E em situações em que o atleta recebe o apoio da família, ele vai encontrar outros desafios, mas este que tem a família do lado e acreditando e investindo junto com ele, apresenta uma fala positiva e confiante referente aos seus planos de vida.

Jornal DR1: Em relação aos que tem que enfrentar dificuldades na família, existe uma figura central entre os familiares exercem essa negatividade sobre os atletas?

Indy Carvalho: A figura da família de maior influência na vida desse atleta vai depender da relação que é construída dentro dessa estrutura familiar, normalmente é a figura que é o pilar da família e isso varia muito, pois existem várias estruturações familiares. A interferência vai depender muito do vínculo criado e da relação construída com esse familiar, pois a opinião dessa pessoa é algo importante e afeta diretamente na sua autoestima e confiança na concretização dos seus desejos, crenças e sonhos.

Jornal DR1: Como é o dia a dia do seu trabalho com eles?

Indy Carvalho: Nossos encontros são quinzenais, realizamos a psicoterapia de grupo, onde nesse ambiente eles tem esse espaço para compartilharem opiniões e experiências, discutir dificuldades e desafios e fazerem avaliações sobre o desempenho e desenvolvimento do time. Levantando suas dificuldades e analisando seus pensamentos, comportamentos e sentimentos individuais e coletivo. Buscando aprimoramento e evolução como atletas e como pessoas.

Jornal DR1: A pandemia afetou a saúde física e mental de muitos trabalhadores do meio físico, o eSports sofreu dessa maneira?

Indy Carvalho: Acredito que sim, a pandemia afetou a todos e no universo dos jogos online, eles também não foram poupados, pois apesar de os jogos acontecerem online, existem campeonatos em que os atletas precisam de uma estrutura presencial, foram limitados aos acessos a lugares externos, com cancelamento de eventos e o principal afetado foi o estado psicológico desses atletas, que foi abalado e muitos apresentaram adoecimento psicológico e emocional, influenciando diretamente em seu desempenho nos jogos e na própria vida.

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