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Fim de relacionamento, fim da fantasia

Foto: Pixabay
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É preciso deixar partir. Foi esse o pensamento que me veio à mente quando o vi atravessar a porta que separava nosso passado de nosso futuro. Como eu supunha, não éramos dois sós a formar um laço. Éramos dois nós atados. E de repente, estávamos nós por um fio. Aquele instante, o instante da contingência, percebi que planos são sempre meias possibilidades. E que certa estava Cassia Eller quando disse que “o pra sempre sempre acaba”. 

Para darmos conta de um “pra sempre” romanesco, criamos fantasias pra sustentar o impossível que se impõe a nós. Assim nascem as fantasias de completude, por exemplo. Fantasiamos a tampa da panela, a parte que nos falta.  Vivemos a eterna (enquanto dura) fantasia de que aquele ser humano cheio de defeitos que divide a vida conosco pode (deve!) atender todas as nossas demandas, tapar todos os furos. Mas o furo é a única certeza num mar de incerteza. A falta que nos constitui coloca-nos na posição de “vir-a-ser” na cabeça do outro, que, inevitavelmente, sempre espera mais de nós do que temos a oferecer. 

De acordo com Lacan, no amor, sempre imaginário, acontece uma dialética entre o amante e o amado em torno de uma falta simbólica. O amante, portanto, sentindo que algo lhe falta, mesmo sem saber o que é, supõe que o amado possui esse algo que o completaria. O amado, por sua vez, sentindo-se escolhido, supõe que tem algo a dar, sem saber também do que se trata. Mas o amado é um ser faltante, assim como o amante. Dessa forma, o que ambos têm a dar um ao outro é um nada, um vazio. Eis a fórmula lacaniana do amor: “amar é dar o que não se tem”.

Certos de que amar significa encontrar a outra parte da laranja, inevitavelmente nos sentimos metade quando o outro se vai. Mesmo quando a separação constitui a tão desejada solução para um problema que não poderia ser resolvido de outra forma, partir, sinônimo de ir, como também é homônimo perfeito de partir – cortar -, dói. Aquilo que os olhos equivocados enxergavam inteiro, foi partido. 

E quando ainda há amor, a dor ainda é mais dilacerante, visto que o amor, enquanto experenciado na dialética com o ser amado, é fonte de felicidade, ao passo que também nos torna vulneráveis. Tal paradoxo é apontado por Freud em Mal-estar na Civilização: “ o amor nos proporcionou a mais forte experiência de uma sensação de prazer avassaladora, dando-nos assim modelo da nossa busca por felicidade (…) O lado frágil dessa técnica de vida é patente…Nunca estamos mais desprotegidos ante o sofrimento do que quando amamos, nunca mais desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou o seu amor…”

Perder o amor do outro pode se constituir a pior das dores, indubitavelmente. E isso porque, no campo das fantasias que criamos para sustentar o amor, perder o amor do outro significa também perder uma versão de nós inventada por esse outro. É perder esse olhar que nos dá um lugar que antes não ocupávamos, quiçá pensávamos que nos cabia. Em certo sentido, no fim, o luto também é pela perda de quem éramos para aquela pessoa; identidade que assumimos na fantasia de quem nos ama; o eu nascido a partir do olhar do outro. Por isso fins de relacionamento são tão sofridos, pois é o momento em que as fantasias caem e nos enxergamos completamente nus, expostos à crueza da realidade.

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