Dã, filho de Jacó e de Bila, ocupa um lugar curioso e desafiador na narrativa bíblica. Seu nome significa “juiz”, e a profecia pronunciada por Jacó revela tanto um chamado nobre quanto um alerta profundo: “Dã julgará o seu povo, como uma das tribos de Israel. Dã será serpente junto ao caminho, víbora junto à vereda, que morde os calcanhares do cavalo, e faz cair o cavaleiro por detrás” (Gn 49,16-17).
Ao mesmo tempo em que Dã é levantado como alguém vocacionado para exercer justiça, ele também é descrito como aquele que age de forma estratégica, silenciosa e, por vezes, traiçoeira. Essa dualidade ecoa fortemente nos dias atuais.
Vivemos em uma sociedade que clama por justiça. Todos querem ser ouvidos, julgados com equidade e ter seus direitos preservados. Assim como Dã, muitos hoje ocupam posições de influência — na política, na mídia, nas redes sociais, nas famílias e até nas igrejas — com a responsabilidade de “julgar”, opinar e direcionar. O problema surge quando essa justiça se mistura com interesses pessoais, manipulação e armadilhas escondidas pelo caminho.
A imagem da serpente junto à vereda é extremamente atual. Nos nossos dias, os perigos nem sempre vêm de ataques diretos, mas de sutilezas: palavras distorcidas, falsas narrativas, julgamentos precipitados e armadilhas emocionais. Pessoas e sistemas caem não por falta de força, mas por falta de discernimento. Quantos “cavaleiros” têm sido derrubados hoje por mordidas invisíveis — fake news, inveja, orgulho e decisões tomadas sem consulta a Deus?
A história de Dã nos convida a refletir sobre que tipo de justiça estamos praticando. Uma justiça guiada pela verdade e pelo temor do Senhor ou uma justiça moldada pela astúcia, pela vingança e pelo desejo de controle? Nos dias atuais, mais do que nunca, é necessário vigiar o coração. Nem toda estratégia é sábia, e nem toda esperteza vem de Deus.
Dã nos lembra que o chamado para julgar exige responsabilidade espiritual. Justiça sem caráter se transforma em armadilha. Que, em meio aos caminhos tortuosos do nosso tempo, escolhamos não ser a serpente que faz cair, mas instrumentos de justiça que levantam, restauram e apontam para Deus.



