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O Cantador de Histórias: A pobreza que o dinheiro não consegue esconder

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Era uma tarde de janeiro, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Ruas elegantes, vitrines impecáveis, seguranças particulares atentos a quem entrava, saía ou estacionava. Tudo vigiado. Tudo sob controle. Fui até ali para conhecer Manuela. Uma amiga em comum, Cláudia, havia feito a ponte dizendo que ela se interessava por projetos culturais, por ideias que unissem história e canção. Fui como artista e como pessoa.

Cheguei vestido de seresteiro, violão nas mãos. Preparei uma única canção, uma serenata simples, como gesto de apresentação. Esperei Manuela chegar. Quando ela apareceu, cantei. Bastaram poucos acordes para perceber: aquela arte não a tocava. Não houve grosseria, nem desprezo. Apenas uma indiferença educada. E até ali, tudo bem. Nem toda música é encontrada.

Depois conversamos. Manuela falava insistentemente de suas amigas — sempre ressaltando que tinham dinheiro, influência e agenda cheia. Como se isso fosse o verdadeiro valor da relação. Prometia apresentações, contatos, acesso. Falava pouco de arte e muito de vitrine.

Em seguida, mostrou as dependências do espaço, sugerindo ações futuras. E então começaram os pedidos: “canta mais uma”, “mostra outra”, “meus funcionários precisam ouvir”. Fui cantando, um após o outro, como quem oferece provas. Ali ficou claro: não era escuta, era teste. Não era encontro, era exploração disfarçada de oportunidade. Cláudia esteve ali o tempo todo, atenta, indignada, testemunha silenciosa daquele movimento.

Só depois disso Manuela resolveu acertar a recepção musical para suas amigas. Houve demora, negociação excessiva, hesitação. As amigas chegaram aos poucos. Mulheres ricas, bem-vestidas, educadas. Não eram esnobes no trato, mas distantes na escuta. A música servia como cenário, não como experiência.

Dias depois, falamos da serenata maior, pensada para outro evento. Expliquei que seria necessária sonorização. O orçamento subia cem reais em relação ao formato acústico. O suficiente para gerar desconfiança. Como se cobrar o justo fosse tentativa de exploração — ironia cruel para quem havia explorado cada “amostra” anterior.

Lembrei então de algo que Manuela comentou com naturalidade: um profissional que prestou serviço a ela uma vez “não tem mais agenda livre”. Disse como quem reclama, sem perceber que talvez ele tenha aprendido a escolher melhor para quem trabalha.

Ali compreendi: Manuela era muito pobre. Não de dinheiro — isso ela tinha de sobra. Era pobre de escuta, de ética cultural, de entendimento sobre o valor do trabalho artístico. Donos de joias costumam saber o preço do ouro, mas nem sempre reconhecem o valor do que não podem trancar num cofre.

Existe uma riqueza que acredita que arte é recurso a ser explorado, testado, espremido — e descartado se não se submeter. Isso não é parceria. É colonialismo cultural com verniz de educação.

Saí dali convicto: há lugares com muitos seguranças, mas nenhuma proteção contra a própria pobreza espiritual. E nenhuma cerca é alta o bastante para conter quem nunca aprendeu a ouvir

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