Na segunda metade do século XIX houve uma tentativa do governo imperial em modernizar o Brasil. Uma iniciativa que surgiu, a partir da necessidade e desejo de colocar o país à altura das nações européias, consideradas civilizadas. A modernização que estava sendo imposta era fruto da visão dos próprios governantes, ou seja, da elite imperial, que importava e imitava os padrões europeus.
Naquela época havia no Brasil uma grande variedade de pesos e medidas, tais como: jardas, polegadas, arrobas, braça, légua, feixe, grão, onça, quintal, entre outros. Em 1862 foi aprovada a lei que determinava que o sistema de pesos e medidas, em uso, seria substituído, em todo o Império, pelo sistema métrico francês, referente a medida capacidade e peso. Sistema que passou a vigorar a partir de 1872.
A mudança para o sistema francês representava um rompimento com os costumes e a maneira de agir. Implicava em uma forma, completamente, nova de lidar com ele, além, das dificuldades técnicas de aprender a converter os pesos de um sistema para outro, numa população de maioria analfabeta. Para os supersticiosos populares do nordeste rural, o novo decreto de pesos e medidas válidos por decreto imperial, consistia em representações do mal e a tentativa de adotá-lo criou, entre eles, a idéia de que estavam sendo enganados pelos comerciantes e poderosos.Logo, a população vai em busca de uma maneira de resistir a mudança do antigo sistema de pesos e medidas para o sistema novo proposto pelo império. Sendo, a revolta, a tática encontrada.
A Revolta do Quebra-quilos, movimento popular, teve início em 31 de outubro de 1874, no povoado de Fagundes, nas proximidades de Campina Grande, Estado da Paraíba. Estava tudo pronto para a feira começar, as autoridades todas preparadas para a cobrança dos impostos municipais, quando revoltosos liderados por João Vieira (o João Carga D’água) invadiram casas comerciais e aos gritos de “Quebra-quilos, Quebra-quilos” depredaram e atiravam as medidas (caixas de madeira de um e cinco litros de capacidade) usadas pelos feirantes, dentro do açude local, hoje, conhecido como Açude Velho. Os revoltosos cresceram em números e liderados por Manuel de Barros de Souza (Neco de Barros) e Alexandre Viveiros, invadiram a cadeia local, libertaram presos, incendiaram o cartório e os arquivos da prefeitura, destruindo, desta forma, documentos que continha lista de impostos, de hipotecas e etc… o motim contou, também, com a participação de Firmino, negro bastante temido pelas autoridades locais e por Manuel do Carmo.
A denominação de quebra-quilos teria surgido na cidade do Rio de Janeiro, quando populares invadiram casas comerciais que utilizavam o novo sistema de pesos e medidas e proferindo quebra-quilos, depredaram tais estabelecimentos. A partir daí a expressão começou a ser utilizada indiscriminadamente para se referir a todos os participantes dos movimentos de contestação ao governo imperial.
Em mais de setenta outras localidades nordestinas o povo se rebelou contra os motivos que determinaram o descontentamento da população. Um deles foi a cobrança de taxas para o aluguel e a aferição dos novos padrões do sistema métrico- balanças, pesos e vasilhas de medidas. A lei proibia a utilização dos antigos padrões e os seus substitutos deveriam ser alugados ou comprados, na Câmara Municipal. Os comerciantes, por sua vez, acrescentavam ao preço das mercadorias o valor do aluguel ou da compra dos padrões, fato que encarecia muito os produtos, para a população.
Outro fator que causou o descontentamento da população foi a criação do chamado “Imposto do Chão” cobrado dos feirantes que expunham no chão da feira suas mercadorias. Além do descontentamento da população contra as novas regras do recrutamento, as quais diziam que não escapariam do voluntariado militar, nem as pessoas de posse.
A luta contra a sistemática inovadora imposta pelo governo imperial se estendeu a muitos outros municípios e acabaram envolvendo os Estados do Piauí, da Paraíba, de Pernambuco, de Alagoas, da Bahia e do Rio Grande do Norte.
Pela repercussão favorável que encontrou a Revolta dos Quebra-quilos preocupou fortemente as autoridades provinciais pelo número de nordestinos que aderiram à rebelião contra ao novo sistema métrico, os quais saqueavam feiras e destruíram pesos e medidas do comércio. Mas a enérgica repressão promovida pelo governo imperial foi bem sucedida, a repressão foi violenta, com prisões em massa. Em 1875, as forças militares e as autoridades provinciais conseguiram sufocar as manifestações populares em todas as províncias nordestinas e em pouco tempo pacificaram a região, sem a necessidade de confrontos mais sérios.
Uma das práticas repressivas empregada no castigo aos acusados de serem quebra-quilos foi o chamado “colete de couro” que consistia em um pedaço de couro cru colocado sobre o tórax do prisioneiro. Em seguida, esse couro era molhado e, ao secar, comprimia o peito do acusado, violentamente, causando lesões cardíacas e tuberculose como sequelas.
A Revolta do Quebra-quilos ocorreu em nome dos valores e dos costumes. Pessoas livres e pobres perceberam a interferência do governo em seu cotidiano. Razão pela qual os revoltosos reagiram contra o império que feria seus valores, suas tradições e seus costumes. Era muito difícil para o povo, da época, abandonar o antigo sistema, uma vez que este fazia parte de sua cultura.



