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Deleite Linguístico: Gonçalves Dias e Viradouro: um caso de amor

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Apuração terminada, temos a campeã do carnaval de 2026: G.R.E.S. Unidos do Viradouro. Não é que percebi a intertextualidade entre versos desse samba-enredo com os do poema Se se morre de amor, de Gonçalves Dias? O amor que os une infelizmente anda escasso em muitos corações… mas vejamos a correlação existente nesses textos: primeiramente os versos do samba-enredo ganhador deste carnaval: “Se eu for morrer de amor, que seja no samba”; em seguida, os do poema de Gonçalves Dias: “Se se morre de amor! – Não, não se morre”. Como é de praxe, quero explorar o valor semântico da conjunção subordinativa adverbial condicional “se” nos dois versos. ” Que nome extenso!”, dirão muitos! Mas essa é a forma adequada de classificá-la, de acordo com a Gramática Normativa (Prescritiva). Dúvidas não há de que o “se” encabeça a oração que é subordinada à segunda, sinalizando a condição para a outra oração, chamada principal. 

Dando continuidade à análise dos dois versos, concluímos, quanto à função sintática, que o termo “de amor” é adjunto adverbial de causa em ambos os textos. Não é muita coincidência? Será que os compositores tiveram acesso ao poema de Gonçalves Dias para escrever o samba-enredo vencedor? Ou terá sido um momento em que Gonçalves Dias declamou, em sonho, seu poema a um dos compositores que imediatamente iniciou a escrita, aprovada por todos? Observem a magia existente nestes versos: 

“Se se morre de amor! Não, não se morre, / Quando é fascinação que nos surpreende /De ruidoso sarau entre os festejos; / Quando luzes, calor, orquestra e flores / Assomos de prazer nos raiam n’alma / Que embelezada e solta em tal ambiente / No que ouve, e no que vê prazer alcança”. De enorme beleza e maestria, esses versos de 1852 demostram o sentimentalismo que marcou a escola literária do Romantismo brasileiro. Dizem que Gonçalves Dias os escreveu como resposta a questionamentos feitos por senhoras da alta sociedade recifense sobre a possibilidade de alguém morrer de amor. Diante da emoção observada naqueles momentos de apuração no Sambódromo, acredito que o amor à escola pode ser a “causa mortis” de muitos. 

Mestre Ciça, o grande homenageado, estava visivelmente emocionado, explicitando o poder do amor, sublime sentimento que pode ser por alguém (no caso do poema de 1852) ou por uma escola de samba (a grande campeã de 2026)! Se for possível (Esse SE é outro uso da conjunção subordinativa adverbial de valor condicional), eu quero mesmo é que o Amor reine diuturnamente! E que continue a ser fonte inspiradora para poetas e compositores! 

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