Levantamento da Universidade Veiga de Almeida aponta distorções na cadeia de gestão de resíduos no país
A cidade do Rio de Janeiro descarta, literalmente, centenas de milhões de reais por ano junto com o lixo. Apesar de gerar cerca de 3,4 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) anualmente, menos de 1% desse volume é reciclado.
O dado faz parte de um levantamento conduzido pelo Mestrado em Ciências do Meio Ambiente da Universidade Veiga de Almeida (UVA), com base nos dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA 2025, ano-base 2024).
De acordo com a análise, mesmo avanços modestos na recuperação de resíduos já teriam impacto significativo. Se apenas 10% dos materiais fossem reaproveitados, seria possível movimentar entre R$ 75 milhões e R$ 145 milhões por ano.
Em um cenário mais avançado, com 50% de aproveitamento, esse valor poderia chegar a até R$ 720 milhões anuais, considerando recicláveis secos (plásticos, papéis, metais e vidro) e a fração orgânica, destinada à compostagem ou geração de energia.
Hoje, no entanto, cerca de 3,36 milhões de toneladas por ano no município do Rio permanecem fora de qualquer cadeia estruturada de valorização, sendo encaminhadas majoritariamente para aterros sanitários.
“O Brasil construiu um sistema de coleta relativamente robusto, com alta cobertura. O problema é que essa eficiência não se estende às etapas seguintes. Coletamos bem, mas reaproveitamos muito pouco”, afirma Carlos Eduardo Canejo, professor da UVA e pesquisador responsável pelo levantamento.
Segundo dados do SINISA, 92,6% da população brasileira é atendida por serviços regulares de coleta, índice que chega a 98% nas áreas urbanas. Ainda assim, cerca de 16,1 milhões de pessoas permanecem sem acesso a esse serviço, especialmente em regiões mais vulneráveis.
O maior gargalo, contudo, está nas etapas intermediárias da cadeia. A coleta seletiva atende apenas 40,6% da população e está presente em menos de um terço dos municípios brasileiros (29,2%). Mais crítico ainda é o desempenho: apenas 4,2% da massa total de resíduos domiciliares é efetivamente coletada de forma segregada.
“Existe uma diferença clara entre cobertura e eficiência. A coleta seletiva, na prática, ainda não opera com escala nem integração suficientes para alterar o destino final dos resíduos. Isso faz com que materiais com alto potencial de reaproveitamento continuem sendo tratados como rejeitos”, explica Canejo.
No Estado do Rio de Janeiro, o padrão nacional se repete. Enquanto municípios apresentam alta cobertura de coleta, a recuperação efetiva de resíduos permanece baixa ou inexistente. Na capital, menos de 34 mil toneladas por ano são recuperadas, diante de um universo superior a 3,4 milhões de toneladas geradas.
“Independentemente da escala do município, o resultado é praticamente o mesmo: quase 100% dos resíduos acabam em aterros. Isso revela uma falha sistêmica, não apenas pontual”, destaca o docente.
A análise também aponta que a fragmentação da infraestrutura de gestão de resíduos no país compromete a eficiência do sistema. O Brasil conta com cerca de 5.860 unidades de processamento, incluindo aproximadamente 700 aterros sanitários, 252 aterros controlados e 1.509 lixões ainda ativos, além de unidades de triagem e compostagem distribuídas de forma desigual.





