Não é de hoje que percebo uma atitude recorrente em muitos usuários da língua portuguesa: a equivocada ideia de que sabem manejar a língua com maestria. Basta, meus caros leitores, uma célere observação pelos mais variados textos que circulam entre nós para encontrar construções em que determinada regra gramatical foi violada. Duvidam? Que tal ler os seguintes textos: 1) Houveram vítimas fatais naquele acidente. 2) Não viram-me ali?; 3) Encontrei bastante produtos na promoção. 4) Aquele livro infanto-juvenil é ótimo!
Segundo o professor Sírio Possenti, ao processo que leva o usuário a corrigir algo que está correto, ou seja, quando se corrige demais, damos o nome de hipercorreção linguística. Seria a arrogância de algumas pessoas que se veem como autoridades em assuntos da norma-padrão?
Fazendo uma análise linguística de cada período, chegamos às seguintes análises:
Para o período 1, a hipercorreção é fruto de “vítimas fatais” ser confundida com o sujeito da oração, classificado como inexistente. Com isso, ” vítimas fatais”, sintaticamente, exerce a função de objeto direto do verbo” Houveram “ que por estar no sentido de existir, é impessoal, ou seja, não apresenta sujeito. Diante disso, a construção adequada é “Houve vítimas fatais naquele acidente”. Para o período 2, em que parece extremamente culto o emprego do hífen, ligando o verbo ao pronome pessoal do caso oblíquo “me”, o usuário ignorou que essa ênclise (assunto de colocação pronominal), não é permitida pela presença do advérbio de negação “não”, que atrai o pronome oblíquo para a posição proclítica, em que “me” fica antes do verbo. Portanto a construção esperada é “Não me viram ali?. Já o período 3 se enquadra na concordância nominal, que fora desrespeitada pela fato de normalmente as pessoas memorizarem que ” advérbio (bastante) nunca vai para o plural”. A questão é uma pegadinha que serve para lembrar a todos que não se devem decorar regras; porque o que vale é o contexto em que o ” suposto advérbio* está inscrito. No caso 3, o que parece advérbio é, na verdade, um pronome indefinido que deve, por regra, concordar em gênero e em número com o substantivo a que se liga. Ou seja, “bastante” precisa estar no plural. Diante disso, o período muda a escrita para “Encontrei bastantes produtos na promoção”. O último caso aborda uma das 21 bases do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, especificamente o emprego do hífen, que ainda leva usuários ao erro. No caso 4, o adjetivo composto, por ter a primeira palavra terminada em uma letra que é diferente da que inicia a segunda palavra, exige que o hífen seja retirado. Isso leva a esta versão: Aquele livro infantojuvenil é ótimo!
Espero sinceramente que esta crônica linguística tenha contribuído para que usuários de nosso idioma pensem duas vezes antes de corrigir seus textos, a fim de que o processo de hipercorreção não os leve a cometer inúmeros desvios gramaticais.





