O Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, virou alvo de investigação da Polícia Federal por suspeita de manobras financeiras que teriam ocultado um prejuízo milionário em seus balanços. As informações foram reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Segundo a reportagem, documentos, auditorias e contratos indicam que o banco teria usado fundos de investimento para retirar de suas demonstrações contábeis carteiras de crédito com altos índices de inadimplência. A estratégia teria permitido apresentar resultados melhores do que a real situação financeira da instituição.
Ao fim de 2025, o Digimais declarou lucro de R$ 31 milhões. No entanto, de acordo com o levantamento, o banco teria deixado de registrar ao menos R$ 480 milhões em créditos vencidos que deveriam impactar diretamente o resultado informado ao mercado.
A Polícia Federal apura suspeitas de fraude relacionadas às operações. Especialistas do setor financeiro classificaram o modelo apontado na reportagem como uma operação “Zé com Zé”, expressão usada quando uma mesma instituição aparece, direta ou indiretamente, nos dois lados de uma negociação.
Na prática, segundo a análise citada pelo Estadão, o banco venderia carteiras problemáticas para fundos dos quais ele próprio é cotista. Com isso, os créditos inadimplentes deixariam de aparecer no balanço, embora a instituição continuasse exposta ao risco econômico dessas operações.
Auditores e agentes do mercado passaram a tratar o caso como um sinal de alerta. Procurados pela reportagem, o Banco Digimais e a Igreja Universal não comentaram as acusações.
Um dos fundos citados na investigação é o Tabor, responsável por comprar carteiras de financiamento de veículos do Digimais. Em abril de 2026, o fundo concentrava R$ 960 milhões em créditos. Desse total, R$ 575 milhões estavam inadimplentes.
Ao Estadão, o perito contábil Alexandre Ripamonti afirmou que a situação do fundo é considerada crítica.
“Quando um fundo de investimentos em direitos creditórios (FIDC) fica desse jeito, o caminho natural é encerrar o fundo. Dificilmente esse dinheiro será recuperado”, declarou Alexandre Ripamonti ao Estadão.
O analista Gabriel Uarian também apontou problemas na estrutura das operações. Segundo ele, a cessão agressiva de créditos para fundos não costuma ocorrer em bancos considerados saudáveis e bem administrados.
A principal atividade do Digimais é o financiamento de veículos. Conforme a reportagem, vendedores credenciados relataram que o banco aprovava crédito para clientes endividados e veículos antigos, compensando o risco com a cobrança de juros elevados.
Em dezembro de 2025, o banco registrou uma das maiores taxas do mercado nesse segmento, com juros de 2,97% ao mês e 41,07% ao ano, segundo dados do Banco Central citados pelo Estadão.
As auditorias mencionadas na reportagem também apontaram dificuldades para verificar cerca de R$ 3 bilhões investidos em fundos ligados ao banco. A falta de acesso a documentos teria impedido uma análise completa sobre esse montante, que representa aproximadamente 75% do total aplicado pela instituição nesses ativos.
Outro ponto considerado sensível envolve uma holding ligada a Edir Macedo. A empresa teria adquirido R$ 741 milhões em cotas de um fundo chamado Hermon. Auditores independentes registraram ressalvas sobre a operação e apontaram dúvidas sobre se a negociação ocorreu em condições normais de mercado.
Em meio à crise e às investigações, o Banco Digimais está em processo de venda. O BTG Pactual confirmou ao Estadão que assinou documentos vinculantes para uma possível aquisição da instituição.
Segundo o BTG, o principal interesse está na carteira de clientes do Digimais. A operação, porém, ainda depende de novas etapas, incluindo processo competitivo e mecanismos de suporte financeiro que podem envolver o Fundo Garantidor de Créditos.
A investigação segue em andamento e deve aprofundar a análise sobre os fundos usados nas operações, os impactos nos balanços do banco e a real dimensão dos créditos inadimplentes ligados à instituição.





