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O Cantador de Histórias: Quando a serenata virou rally romântico

Carrinho de golfe 3

Tem noite em que a gente sai para fazer serenata e volta com a sensação de ter participado de um reality de aventura. Foi exatamente assim numa viagem para uma cidade fora de São Paulo, onde o trio da Serenata & Cia tinha uma missão especial: homenagear Valéria e Adolfo na data do casamento, presente dos queridos e antigos clientes Patrícia e Guilherme. A proposta era linda, romântica, daquelas de aquecer o coração. O que ninguém nos avisou é que, antes de aquecer o coração dos homenageados, a gente precisaria testar o estado do próprio coração.

Depois de muitas andanças procurando o condomínio, daqueles que parecem uma mistura de bairro, labirinto e parque temático, finalmente chegamos à portaria. No meio das informações, ainda descobrimos que no mesmo prédio morava um apresentador muito conhecido. A essa altura, eu já achava que a qualquer momento alguém ia aparecer com câmera, microfone e anunciar: “Hoje, no quadro Músicos em Perigo…”

Mas o melhor ainda estava por vir.

Um funcionário do condomínio nos recebeu e explicou, com a maior naturalidade do mundo, que até o apartamento de Valéria e Adolfo não dava para ir a pé: só de carrinho de golfe, por causa da distância. Até aí, tudo bem. O problema começou quando o motorista, o simpático e perigosíssimo Adalberto, virou para nós e perguntou com a tranquilidade de quem oferece café:

— Vocês querem com emoção ou sem emoção?

Nossa cantora e a produtora Fernanda, já percebendo um certo brilho suspeito no olhar do homem, respondeu na hora:

— Ah, sem emoção!

Mas Fredi Jon, entrando no espírito da aventura, soltou:

— Pode ser com emoção!

E Adalberto entendeu isso não como uma escolha, mas como um chamado à velocidade.

Bastou o carrinho sair para percebermos que não estávamos sendo levados a uma serenata. Estávamos sendo arremessados em direção a ela. A cada curva, o carrinho parecia decidir entre seguir o caminho ou testar nossa capacidade de aterrissagem. Nós três fomos instantaneamente transformados em artistas circenses. Fredi Jon segurava a craviola numa mão e a própria dignidade na outra. O saxofonista tentava proteger o instrumento, o corpo e, se possível, a coluna. Já nossa produtora e a cantora, entre um solavanco e outro, deviam estar repassando mentalmente todos os contratos da carreira para ver se em algum deles constava a cláusula “risco de capotamento poético”.

E o carrinho seguia firme no seu propósito de nos sacudir como se fôssemos cubos de gelo dentro de uma coqueteleira. Tinha curva, lombada, arrancada e uma sensação constante de que, a qualquer momento, a craviola chegaria primeiro que o músico.

Quando enfim desembarcamos, a impressão era de que não tínhamos chegado a um apartamento, mas vencido uma etapa do Rally dos Sertões versão romântica.

Só que aí veio a recompensa. A serenata foi linda, emocionante, divertida e cheia de participação. Valéria e Adolfo entraram de corpo e alma naquele momento, se emocionaram, sorriram, interagiram, e a homenagem ganhou aquela magia que faz tudo valer a pena. Patrícia e Guilherme acertaram em cheio no presente: não deram só uma serenata, deram uma lembrança para a vida toda.

E nós também levamos uma lembrança inesquecível. Porque, naquela noite, fomos contratados para tocar músicas de amor, mas quase saímos de lá precisando de uma serenata em nossa própria homenagem. Afinal, emocionar o casal era o plano. O que a gente não sabia é que, antes disso, o trajeto faria o trio inteiro quase virar atração do condomínio. 

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