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Távola Redonda: Continuidade que vira título: a Espanha mostra o caminho que o Brasil insiste em ignorar

Foto: FIFA/FIFA Via Getty Images
Foto: FIFA/FIFA Via Getty Images

O título mundial da Espanha não nasceu na final. Também não começou nesta Copa do Mundo. Na verdade, ele começou anos atrás, quando a Federação Espanhola decidiu que a seleção principal não seria um projeto isolado, mas a consequência natural de um trabalho desenvolvido desde as categorias de base.

Luis de la Fuente é o maior símbolo dessa ideia. Antes de assumir a seleção principal, comandou as equipes de base da Espanha e foi o treinador da equipe que conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Boa parte daqueles jogadores hoje forma a espinha dorsal da seleção campeã do mundo (Unai Simón, Pau Torres, Eric García, Cucurella, Pedri, Merino, Dani Olmo e Oyarzabal). Eles cresceram juntos, aprenderam o mesmo modelo de jogo, entenderam os mesmos conceitos e chegaram à equipe principal sabendo exatamente o que fazer.

Não houve ruptura. Houve continuidade.

Enquanto isso, o Brasil segue vivendo um ciclo de improvisações. A cada Copa do Mundo, um novo treinador. A cada troca de comando, uma nova filosofia. As categorias de base trabalham de um jeito, a seleção principal de outro, e o resultado é uma equipe que parece começar do zero a cada ciclo.

A Espanha mostrou que formar jogadores vai muito além de revelar talentos. É preciso formar uma identidade. Os atletas chegam à seleção principal sem precisar reaprender futebol. Eles apenas dão sequência ao trabalho iniciado anos antes.

Os resultados comprovam isso. Em pouco tempo, a Espanha conquistou a Eurocopa, chegou à final da Nations League (perdendo apenas nos pênaltis, sem ser derrotada nos 90 minutos) e agora levanta a taça da Copa do Mundo.

Mais impressionante do que o título foi a campanha.

Tudo começou com desconfiança após um frustrante empate por 0 a 0 contra Cabo Verde na estreia. Muitos imaginaram que a Espanha seria apenas mais uma favorita pelo caminho. Foi justamente ali que a equipe começou a crescer.

A evolução foi evidente a cada partida. Na semifinal, simplesmente anulou a França. Não foi apenas uma vitória. Foi uma atuação que impediu os franceses de jogarem seu futebol, dominando posse, espaços e ritmo do jogo do início ao fim.

Na decisão, o desempenho foi ainda mais marcante. A poderosa Argentina passou 90 minutos sem acertar uma única finalização no gol espanhol. Em uma final de Copa do Mundo. É um dado que resume melhor do que qualquer discurso a superioridade apresentada pela equipe de Luis de la Fuente.

Outro número impressiona: em uma campanha com um jogo a mais do que a maioria das seleções por conta do novo formato da competição, a Espanha sofreu apenas um gol em toda a Copa, justamente nas oitavas de final. Uma demonstração de equilíbrio entre ataque e defesa que poucas seleções campeãs conseguiram apresentar na história recente.

Não foi um título conquistado apenas pelo talento de uma geração. Foi a recompensa de um projeto esportivo bem executado.

Enquanto a Espanha colhe os frutos de um planejamento iniciado nas categorias de base, o Brasil continua discutindo convocações, trocando treinadores e reinventando sua identidade a cada ciclo. A diferença entre as duas seleções não está apenas na qualidade dos jogadores. Está, principalmente, na qualidade das ideias.

A Espanha não venceu a Copa por acaso. Venceu porque sabia exatamente onde queria chegar. E, sobretudo, porque começou a construir esse caminho muito antes de a bola rolar no Mundial.

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