Bairro da Zona Norte é berço de uma das mais tradicionais escolas de samba do país e guarda uma trajetória marcada pela cultura afro-brasileira
Falar da Mangueira é contar um pedaço importante da história do Rio de Janeiro. Localizado na Zona Norte, próximo a São Cristóvão e à Quinta da Boa Vista, o bairro tornou-se conhecido mundialmente pelo samba e pelas cores verde e rosa. Mas sua trajetória começou muito antes da criação da famosa Estação Primeira.
A região era conhecida como Morro do Telégrafo desde meados do século XIX. Com a expansão ferroviária, uma área coberta por mangueiras passou a servir como referência para quem utilizava os trens. Em 1889 foi inaugurada a Estação Mangueira, nome que posteriormente passou a identificar toda a região.
A ocupação do morro ganhou força com famílias de baixa renda, em grande parte negras e descendentes de pessoas escravizadas. Moradores expulsos dos cortiços do Centro durante as reformas urbanas também encontraram na região um lugar para reconstruir suas vidas.
O nascimento de um símbolo do samba
Foi nesse ambiente de intensa convivência comunitária que manifestações religiosas, batuques, cantos, blocos e cordões carnavalescos ganharam espaço. A cultura afro-brasileira tornou-se um dos pilares da identidade local.
Em 28 de abril de 1928 nasceu o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Entre seus fundadores estavam nomes que entrariam definitivamente para a história da música brasileira, como Cartola, Carlos Cachaça, Zé Espinguela e Saturnino Gonçalves.
O nome “Estação Primeira” faz referência à Mangueira como primeira parada, a partir da estação central, onde havia samba. Já as cores verde e rosa foram escolhidas por sugestão de Cartola.
Berço de grandes artistas
A Mangueira ultrapassou os limites do Carnaval e se transformou em uma verdadeira escola da música popular brasileira. Cartola é um de seus maiores símbolos, mas a história do lugar também está ligada a nomes como Carlos Cachaça, Nelson Sargento e Jamelão.
Mais do que artistas individuais, gerações de compositores, músicos, passistas, ritmistas, baianas e moradores ajudaram a construir um patrimônio transmitido de pais para filhos.
Essa memória também encontra espaço no “Museu do Samba” (https://reference-url-citation.invalid/4), localizado na Rua Visconde de Niterói. A instituição mantém acervo documental e audiovisual, além de desenvolver atividades culturais e educativas voltadas à preservação do samba e da cultura afro-brasileira.
Muito além do Carnaval
Embora a Estação Primeira seja sua referência mais conhecida, a Mangueira não vive apenas dos dias de folia. O bairro é formado por uma comunidade com cotidiano próprio, relações de vizinhança, comércio, projetos sociais e manifestações culturais que permanecem ativas durante todo o ano.
Ao mesmo tempo, sua trajetória também reflete contrastes históricos do Rio. A força cultural convive com desafios sociais e urbanos enfrentados por muitas comunidades cariocas. Ainda assim, a Mangueira construiu uma identidade capaz de atravessar gerações e projetar seu nome para além das fronteiras brasileiras.
Verde e rosa como identidade
Na Mangueira, escola, bairro e comunidade se confundem. As cores verde e rosa tornaram-se mais do que símbolos carnavalescos: representam pertencimento e uma memória coletiva construída ao longo de décadas.
Conhecer a Mangueira é, portanto, conhecer um Rio que não está apenas nos cartões-postais. É descobrir um território fundamental para compreender a formação cultural da cidade, a resistência da população negra e a consolidação do samba como uma das maiores expressões da identidade brasileira. Entre histórias, versos e batidas de tambor, a Mangueira continua mostrando que sua maior riqueza está em sua gente e na memória que insiste em manter viva.





