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Ars Gratia Artis: A Cidade que Nos Tropeça: como a desordem das ruas adoece o corpo, a mente e o espírito carioca

Foto: Gerada por IA
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A irregularidade das calçadas brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro, não é apenas um problema de mobilidade ou de estética urbana. Ela revela uma forma de organização do espaço que, muitas vezes, transfere ao cidadão a responsabilidade por conviver com obstáculos, desníveis, buracos, lixo, entulho, postes mal posicionados, mobiliário urbano improvisado e outros elementos que tornam o deslocamento cotidiano uma espécie de percurso de obstáculos. Em contraste, em muitas cidades de países desenvolvidos, a manutenção das áreas públicas tende a obedecer a padrões mais rigorosos de continuidade, acessibilidade, limpeza e ordenamento espacial.

No Rio, caminhar pode exigir atenção permanente: olhar para o chão para evitar uma queda, desviar de um saco de lixo, contornar uma calçada interrompida ou disputar espaço com veículos. No curto prazo, isso produz incômodo, irritação, sensação de abandono e estresse. Fisicamente, aumenta o risco de tropeços, quedas, torções, dores musculares e acidentes, sobretudo entre idosos, pessoas com deficiência e indivíduos com mobilidade reduzida.

No médio prazo, a repetição dessa experiência pode transformar a própria percepção da cidade. O cidadão passa a naturalizar a precariedade, a reduzir caminhadas, a evitar determinados trajetos e a desenvolver uma sensação persistente de insegurança e impotência diante do espaço público. O corpo também pode sofrer: alterações na marcha, sobrecarga muscular, dores crônicas e sedentarismo decorrente da dificuldade ou do desestímulo à circulação a pé.

A longo prazo, os efeitos ultrapassam o indivíduo. Uma cidade que dificulta o caminhar favorece o isolamento, reduz a convivência nos espaços públicos, prejudica a autonomia e pode contribuir para uma população menos ativa fisicamente e mais tolerante à desordem urbana. Há ainda um efeito psicológico coletivo: quando o ambiente transmite continuamente a mensagem de que ninguém é responsável por mantê-lo digno, o próprio cidadão pode passar a agir de acordo com essa lógica, descartando lixo inadequadamente, ocupando irregularmente os e

spaços ou deixando de cobrar sua conservação.

Cria-se, assim, uma retroalimentação perversa: a desorganização produz estresse e desânimo; o desânimo reduz o sentimento de pertencimento e responsabilidade; a menor responsabilidade favorece novos comportamentos inadequados; e esses comportamentos aprofundam a desordem. Romper esse ciclo exige mais que consertar calçadas. Exige compreender que a qualidade física do espaço público também educa, condiciona comportamentos e participa, diariamente, da construção da saúde física, mental e social de uma cidade.

Alfredo Barreto Sampaio

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