A informação consta no processo acessado nesta segunda-feira (24). As caixas continham 291 microtubos de conteúdo incerto e foram enviadas para perícia do Ministério da Agricultura.
A Polícia Federal (PF) revelou um novo elemento nas investigações sobre o furto de material biológico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): amostras contendo agentes patogênicos foram apreendidas dentro do congelador doméstico dos pesquisadores investigados, ao lado de embalagens de alimentos.
A apreensão ocorreu em março durante o cumprimento de mandado de busca na residência da professora Soledad Palamenta Miller e do seu marido, o veterinário e doutorando Michael Edward Miller, em Campinas (SP). No congelador da cozinha, os agentes encontraram 291 microtubos (eppendorfs) divididos em caixas plásticas com marcações manuscritas. O material foi encaminhado para perícia no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
Mapeamento dos materiais apreendidos
Segundo os registros do inquérito, as amostras foram localizadas em três pontos distintos:
- Residência dos suspeitos: Caixas no congelador da cozinha dividiam espaço com embalagens de comida congelada. A inspeção preliminar apontou que alguns frascos continham patógenos de interesse de saúde humana e animal.
- Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA): Cinco caixas armazenadas em um ultracongelador a -80°C no Laboratório de Engenharia Metabólica e de Bioprocessos (LEMEB).
- Instituto de Biologia (IB): Amostras guardadas em ultrafreezers no subsolo, além de materiais biológicos e equipamentos descartados em lixeiras comuns do laboratório.
Entre os materiais recuperados posteriormente na universidade, peritos encontraram um tubo identificado manualmente como “H1N1”, guardado em um freezer a -20°C — temperatura inadequada que poderia ter deteriorado o patógeno.
Câmeras de segurança e conduta irregular
As investigações apontam que pelo menos 24 cepas virais — incluindo dengue, zika, chikungunya, H1N1, coronavírus humano e patógenos animais — foram retiradas sem autorização de uma área de biossegurança máxima (NB-3) do Instituto de Biologia.
Câmeras de segurança registraram Michael Miller circulando no local em horários noturnos, fins de semana e recessos acadêmicos. Em diversas ocasiões, ele trabalhava no laboratório de alto risco sem utilizar os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) obrigatórios. Já Soledad Miller continuava acessando as áreas restritas do campus mesmo após ter se desligado formalmente do grupo de pesquisa em janeiro de 2025.
Andamento do caso e posição da Unicamp
A PF descartou a hipótese de bioterrorismo, indicando que a motivação do casal estaria ligada ao uso em pesquisas internas. A professora responde ao processo em liberdade provisória por crimes como furto qualificado, fraude processual e transporte irregular de organismos geneticamente modificados.
Em nota, a Unicamp informou que concluiu a sindicância interna e instaurou um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Como medida imediata, a universidade bloqueou o acesso dos investigados às instalações, iniciou uma auditoria nos laboratórios e anunciou estudos para endurecer as normas de segurança nos ambientes de pesquisa.





