O ano de lançamento da canção “Como dois e dois são cinco” é 1971; porém parece resumir o sentido que dominou os brasileiros que acompanharam a sessão do Supremo Tribunal Federal em Brasília. Não é para menos.
A ministra Cármen Lúcia declarou haver um “mal-estar cívico” diante dos conflitos entre os ministros do Supremo cujas atitudes, ao invés de tranquilizar o povo, geram intranquilidade em um momento pré-eleitoral, que, por si só, já é capaz de angustiar os eleitores, ávidos por representantes que possam melhorar as condições em que estamos.
Como uma pesquisadora de nossa língua materna, avaliei falas de autoridades e de repórteres que compulsoriamente empregaram a modalidade falada, a fim de passar suas considerações acerca da crise no STF em minha terra natal. Que festival! Em meio a empregos de adjetivos e do pronome de tratamento “Vossa Excelência”, assistimos a “conflitos pessoais e tóxicos”, segundo repórteres. Houve comentarista que declarava que “o STF pareceu disfuncional”, devido às discussões televisionadas em tempo real. Infelizmente não é possível avaliar tudo o que aconteceu como uma sessão fenomenal. A não ser por um outro ângulo: a linguística. Pela ótica dessa ciência que se dedica ao estudo científico e sistemático da linguagem verbal humana e de suas manifestações (orais e escritas), aquela sessão foi sensacional! Para fundamentar-me, explico trechos da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, meu eterno professor e o nome mais expoente quando o assunto é a língua! Nas palavras do mestre Bechara, ” Uma língua histórica nunca é um sistema único, mas um conjunto de sistemas.” Sendo assim, “os sistemas que integram a língua histórica apresentam três aspectos fundamentais de diferenças internas.” De forma resumida, há a) diversidade diatópica, ou seja, relacionada ao espaço geográfico, constituindo diferentes dialetos; b) diversidade ou diferença diastrática, que ocorre no estrato sociocultural, constituindo diferentes níveis de língua e de estratos ou camadas socioculturais; c) diversidade diafásica, isto é, uma diferença em relação a diferentes situações do falar e estilos de língua.
Das três, as diferenças diatópicas ou dialetos são as que os estudiosos sempre deram maior atenção, segundo o linguista Bechara. Ainda na visão desse gramático, as diferenças diastráticas são mais marcadas em comunidades onde os estratos sociais se apresentam muito distanciados, como na Índia antiga, ou onde a rede escolar se encontra fragilizada ou inexistente entre as camadas populares. Por último, o acadêmico Bechara declara que “as diferenças diasfásicas se manifestam quando se comparam língua falada e língua escrita, língua usual e língua literária, língua corrente e língua burocrática ou oficial, etc. Nenhuma dessas variedades diasfásicas se apresenta homogeneamente.”.
Os que assistiram à sessão do STF tiveram a prova de que isso é um fato; já que, à medida que o embate aumentava, o emprego da variedade de maior prestígio era posto de lado, dando lugar a termos mais populares e inadequados ao contexto em que os interlocutores estavam inseridos. Apropriando de versos da canção de Caetano Veloso, deixo a seguinte pergunta: – Ficará tudo “certo” como dois e dois são cinco?





