Documento divulgado durante a Assembleia Geral da ONU propõe ação coordenada contra facções; diplomatas brasileiros veem risco de militarização do combate ao narcotráfico
Uma declaração dos Estados Unidos e de outros 14 países das Américas colocou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) no centro de uma disputa que vai além da segurança pública. Divulgado à margem da Assembleia Geral da ONU, o documento do grupo Escudo das Américas prevê o endurecimento de medidas contra organizações criminosas transnacionais. O Brasil não participou da iniciativa, classificada como “muito grave” por diplomatas brasileiros ouvidos pela CNN Brasil.
Sanções e disputa de conceitos
A declaração inclui as facções brasileiras entre os grupos visados pela coalizão e abre caminho para medidas coordenadas, como sanções financeiras. O ponto mais sensível para Brasília é o uso da classificação de “narcoterrorismo”. Embora o governo brasileiro reconheça a gravidade da atuação do PCC e do CV, há divergência sobre enquadrá-los como organizações terroristas e sobre as consequências internacionais dessa definição.
A distinção tem efeitos práticos. Sanções podem atingir integrantes, financiadores e empresas ligadas às facções. Ao mesmo tempo, tratar o narcotráfico como uma ameaça comparável ao terrorismo muda o tom da resposta política e pode ampliar a pressão por operações de caráter militar. Uma declaração conjunta, por si só, não autoriza ações armadas em território brasileiro.
O receio de uma ação unilateral
Segundo a avaliação de diplomatas brasileiros relatada pela CNN Brasil, o documento pode servir de porta de entrada para a militarização do combate às drogas na América Latina. A preocupação ganhou força após o presidente norte-americano Donald Trump defender, em discurso na ONU, o uso do poder militar dos Estados Unidos para proteger interesses do país na região. Trata-se de um risco apontado pelo governo brasileiro, e não de uma operação militar anunciada contra o Brasil.
O episódio expõe uma questão central: como ampliar a cooperação internacional contra redes que atravessam fronteiras sem retirar dos países o controle sobre as ações realizadas em seus territórios? Compartilhar inteligência, rastrear dinheiro e bloquear bens pode fortalecer investigações. Para Brasília, contudo, essa cooperação precisa respeitar a soberania e as instituições nacionais.
Resposta brasileira
Na Assembleia Geral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a soberania do Brasil e rejeitou a ideia de subordinação do país a uma potência estrangeira. O recado político ocorre em meio ao avanço de uma coalizão da qual o Brasil está ausente, mas que passou a tratar diretamente de facções brasileiras.
O desafio agora é evitar que a divergência diplomática paralise o enfrentamento ao crime organizado. A expansão internacional do PCC e do CV exige investigação e cooperação entre países. O impasse está nos limites dessa cooperação: quem define os alvos, quais medidas serão adotadas e sob qual autoridade elas poderão ocorrer.





