Escravizada e costureira, mulher negra tornou-se uma das principais lideranças da revolta de 1838 e símbolo da luta pela liberdade no Rio de Janeiro
A história de Marianna Crioula está ligada a um dos principais episódios de resistência de pessoas escravizadas no Rio de Janeiro durante o século XIX. Em 1838, ela participou da revolta liderada por Manoel Congo, na região de Paty do Alferes, então ligada à Vila de Vassouras, no Vale do Paraíba. O movimento reuniu centenas de escravizados que fugiram das fazendas de café em busca de liberdade.
Marianna era escravizada na fazenda do capitão-mor Manuel Francisco Xavier e trabalhava como mucama e costureira de sua esposa, Francisca Elisa Xavier. Diferentemente de muitos trabalhadores que atuavam diretamente nas lavouras, ela exercia atividades domésticas dentro da casa-grande.
Em novembro de 1838, uma revolta começou na região. Liderados por Manoel Congo e com a participação de Marianna, entre 200 e 400 escravizados deixaram as fazendas e se estabeleceram na Serra de Santa Catarina. O grupo formou um quilombo como tentativa de construir uma comunidade livre longe do controle dos proprietários e das autoridades.
Durante o movimento, Marianna Crioula passou a ser reconhecida como “rainha” do quilombo, enquanto Manoel Congo era considerado o “rei”. Relatos históricos destacam sua participação na organização da fuga e no cuidado com mulheres, crianças e idosos que acompanhavam o grupo.
A resistência, porém, durou pouco. A Guarda Nacional mobilizou forças para localizar os fugitivos e desmantelar o quilombo. Marianna esteve entre as pessoas capturadas durante a repressão. Segundo registros históricos e fontes institucionais, ela demonstrou forte resistência à ideia de retornar ao cativeiro.
processo terminou com diferentes sentenças para os participantes. Manoel Congo foi condenado à morte e enforcado em 1839, enquanto Marianna Crioula e outras mulheres foram absolvidas. Pesquisas históricas apontam que a decisão também esteve relacionada aos interesses do proprietário das fazendas e à tentativa de preservar sua força de trabalho.
Mesmo após a repressão, a trajetória de Marianna permaneceu como referência de resistência negra e feminina. Seu nome está ligado à memória da luta pela liberdade na região do Vale do Paraíba e passou a ocupar espaços de preservação histórica. Em 2026, por exemplo, o Iphan destacou a inauguração da Sala Mariana Crioula, em Vassouras, dedicada à memória da líder quilombola e das pessoas escravizadas.
A história de Marianna Crioula também foi retratada no documentário “Marianna Crioula – Um grito de resistência”, lançado em 2020 em uma iniciativa da OABRJ. A obra recupera a trajetória da mulher que, ao lado de Manoel Congo, participou de uma das maiores revoltas de pessoas escravizadas ocorridas no Rio de Janeiro.
Mais de 180 anos depois da revolta, Marianna Crioula permanece como uma personagem importante para compreender a resistência à escravidão e a participação das mulheres negras nos movimentos de luta por liberdade no Brasil.





