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O Cantador de Histórias: Quando as pessoas partem, a música continua cantando

Foto Gerada por IA

Há encontros que a vida marca no calendário. Outros, a música grava na alma. Durante vários anos, havia um caminho que eu percorria até Interlagos e que, sem que eu percebesse, se transformou numa travessia entre tempos diferentes. Eu levava um violão. Eles me ofereciam aquilo que o mundo moderno anda esquecendo: presença.

Era uma reunião anual de idosos. Mas chamar aqueles encontros de evento seria uma injustiça. Ali acontecia algo mais raro: pessoas dividindo memórias como quem reparte pão.

Ao final da serenata, surgiam as taças de vinho, os bolinhos de chuva ainda quentes e as histórias. Ah, as histórias… Amores que resistiram às décadas. Sonhos interrompidos e retomados. Aventuras de juventude contadas com o brilho de quem descobriu que o tempo leva muitas coisas, mas não consegue apagar aquilo que foi vivido de verdade.

E havia uma canção que nunca podia faltar: “Piracicaba, que eu adoro tanto…” Bastavam os primeiros acordes e algo invisível acontecia. As rugas pareciam virar caminhos de volta. Os olhos se enchiam de uma luz antiga. Por alguns instantes, a velhice dava lugar à eternidade.

Ali eu aprendi que envelhecer não é acumular anos, é acumular mundos.

E que a música atravessa o tempo sem pedir licença e devolve às pessoas aquilo que elas pensavam ter perdido.

Ano após ano, porém, fui notando as ausências.

Uma cadeira vazia. Depois outra.E outra.

Apenas o silêncio se senta onde antes havia uma risada.

Demorei muito para cantar novamente “Piracicaba, que eu adoro tanto”.

Porque algumas músicas deixam de ser músicas.

Elas se tornam morada, afinal ninguém desaparece completamente enquanto existir alguém capaz de lembrar sua canção.

Nesta semana em que celebramos o Dia Internacional da Música, o Dia Internacional das Pessoas Idosas e o Dia Nacional do Idoso, lembrei daqueles encontros e compreendi algo que a vida me ensinou entre um gole de vinho e um bolinho de chuva:

A música não existe apenas para ser ouvida. Ela existe para lembrar quem somos, para transformar desconhecidos em família.

Para devolver voz às memórias, e para nos ensinar que o amor tem muitos nomes.

Às vezes, ele se chama amizade, às vezes, escuta.

E, em algumas tardes de Interlagos, ele tinha cheiro de bolinho de chuva e o som de uma velha canção dizendo baixinho:

“Piracicaba, que eu adoro tanto…”

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