Professor emérito da Unicamp e idealizador da pedagogia histórico-crítica, ele é um dos pensadores mais influentes da educação brasileira — a escolha desta semana da coluna Brasileiros
Neto de imigrantes italianos e filho de trabalhadores rurais, Dermeval Saviani nasceu numa fazenda em Santo Antônio de Posse, interior de São Paulo, em 25 de dezembro de 1943 — embora o registro oficial marque fevereiro de 1944. Sétimo de dez filhos, viu a família se mudar para a capital em 1948, onde o pai e a maioria dos irmãos se tornaram operários. Foi dessa origem simples, estudando num grupo escolar instalado em um galpão de madeira na periferia, que surgiu um dos maiores pensadores da educação brasileira.
A trajetória acadêmica começou nos seminários de Cuiabá, Campo Grande e Aparecida, onde concluiu o colegial, até ingressar na Faculdade de Filosofia da PUC-SP, formando-se em 1966. Por vir de família operária, conciliou os estudos com o trabalho em banco, no Banespa, de onde se demitiu em 1968 para se dedicar inteiramente ao magistério. Em 1971, defendeu o doutorado em Filosofia da Educação, publicado dois anos depois como “Educação Brasileira: estrutura e sistema”.
A partir daí, ajudou a erguer alguns dos principais pilares da pós-graduação em educação no país. Participou da criação de programas de mestrado e doutorado na PUC-SP, na Universidade Federal de São Carlos e na Unicamp, além de ter sido sócio-fundador de entidades como a Anped e o Cedes. Em 1986, criou o grupo de estudos “História, Sociedade e Educação no Brasil” (Histedbr), que reuniu pesquisadores de quase todos os estados.
Sua maior contribuição, porém, é a pedagogia histórico-crítica, teoria que sistematizou a partir de 1982 e que tem base no materialismo histórico-dialético de matriz marxista. Em contraponto ao ensino conteudista e às correntes que viam a escola apenas como reprodutora das desigualdades, Saviani defende o acesso ao conhecimento sistematizado como instrumento de reflexão e transformação social. A escola, em sua visão, não faz a revolução sozinha, mas pode contribuir decisivamente para mudar a sociedade.
Reconhecido com três Prêmios Jabuti, a Medalha do Mérito Educacional e os títulos de professor emérito da Unicamp e pesquisador emérito do CNPq, além de diversos doutorados honoris causa, Saviani segue ativo como professor colaborador. Sua obra, não sem críticas no próprio meio acadêmico, permanece viva nas salas de aula da escola pública, prova de que pensamento e compromisso político podem caminhar juntos.





