Jornal DR1

A solidão dos átomos terapêuticos

Os místicos de várias religiões argumentam que a solidão é condição fundamental para termos um contato direto com a divindade. Este raciocínio pressupõe que o barulho produzido pelos seres humanos, principalmente nos grandes aglomerados comerciais, dificulta enormemente a escuta da palavra de Deus. Em outros termos, quando os homens falam, Deus fica com tédio, se aborrece e sai de fininho de cena.

Chamemos de positiva ou ascética este primeiro tipo de solidão e dela nos ocuparemos em outra oportunidade. O que nos preocupa agora é outro tipo de patologia social, aquela que os sociólogos de cariz durkheimiana reputam como falta de vínculos sociais ou, simplesmente, anomia. Neste segundo caso, Deus afastou-se do mundo e, quanto mais os homens falam, menos queremos ouvi–los, uma vez que estes ruídos nos são indiferentes ou ao menos não nos dizem respeito diretamente.

A imagem que me vem à mente é de uma enorme tela de televisão, vociferando palavras ao vento, enquanto a multidão passa ao largo, rumo aos afazeres cotidianos. Não é por acaso que países como a Inglaterra ou o Japão criaram os ministérios da solidão, ocupados do gravíssimo problema de milhões e milhões de indivíduos que se sentem ensimesmados, perdidos em um mundo atulhado por pessoas impassíveis às suas existências. Disso decorre uma quantidade expressiva e aparentemente incontrolável de suicídios, crises de sociabilidade de todas as espécies, fobias generalizadas, etc. Sem falar no número de pessoas que consomem diariamente antidepressivos, ansiolíticos ou controladores de atenção neurovegetativa.

Trata-se de um emblemático sintoma da solidão contemporânea que diz respeito a anciãos já muito vividos e jovenzinhos de 12, 13 anos de idade. No caso da Inglaterra, o adolescente sai de casa quando termina o ensino médio, vai para um centro grande, estuda em faculdades, começa algum tipo de relacionamento romântico, acaba por morar com o companheiro ou companheira, para logo a seguir voltar a ficar solteiro. Filhos são cada vez mais raros e os pais e a família como um todo passam a ser figuras distantes, enevoadas, perdidas na memória. Em outro âmbito, o trabalho com seu intrínseco anonimato (aqui o que importa é a performance no cargo, as funções requeridas, independentemente das pessoas de carne e osso que as ocupam) acaba sendo uma fonte de frustração também. Afinal de contas, você não é o Eduardo ou a Cristina com suas preferências estéticas ou singularidades psíquicas, mas apenas o gerente de relacionamento ou o analista júnior de tal ou qual empresa.

Ademais, a própria habitação nas gigantescas cidades tende a fazer do ser humano alguém atomizado, invisibilizado em enormes condomínios, onde mal sabemos o nome do nosso vizinho do andar de cima ou mesmo conhecemos aqueles que dividem os espaços de lazer conosco. A solidão dos átomos terapêuticos é a solidão de quem precisa pagar para ter amigos (há agências deste tipo em inúmeras cidades do Japão) ou contratar figurantes para tornar a própria festa de formatura mais animada.

Mas, existem aqueles que, apesar das evidências psicossociais, argumentam que nunca fomos tão livres, tão preocupados com o bem-estar do planeta, nunca a ciência nos prometeu tanto em relação à saúde física e mental. Em geral, estes profissionais ganham fortunas com livros de autoajuda ou estão em consultórios chiques, proclamando aos incautos pacientes: “deixe as amarras de lado, permita-se ser quem você é (seja lá o que signifique isso), liberte-se dos preconceitos impingidos pela sociedade opressiva, patriarcal e cristã”. Claro que, para ouvir estas sábias considerações, alguns estão dispostos a pagar dois, três mil reais por sessão terapêutica.

Eu penso que apenas os poetas podem capturar o drama deste mundo dominado por ideologias niilistas e perceptível no desespero sutil das multidões solitárias. Renato Russo foi direto ao ponto, quando cantou a angústia de uma geração inteira: “parece cocaína, mas é só tristeza”.

Confira também

Nosso canal