voz suave e afinadíssima que ajudou a fundar a bossa nova, enfrentou o preconceito e vive seu auge artístico aos 90 anos
Poucas vozes atravessaram tantas décadas da música brasileira com a elegância de Alaíde Costa. Nascida no subúrbio carioca do Méier, em 8 de dezembro de 1935, ela é filha de um forneiro de padaria e de uma lavadeira. Cresceu em Água Santa ouvindo rádio numa época em que o samba-canção dominava as ondas. Tímida, cantava enquanto fazia tarefas domésticas, até que o irmão mais novo percebeu seu talento e a inscreveu num concurso de calouros. Aos 16 anos, interpretou “Noturno em Tempo de Samba” no programa de Ary Barroso e recebeu nota máxima o episódio que definiu sua vida.
Em 1955, assinou contrato como crooner na boate Dancing Avenida e, no ano seguinte, gravou o primeiro de mais de vinte discos. Sua voz chamou a atenção de João Gilberto, que a aproximou dos jovens compositores que criavam uma música ainda sem nome: a bossa nova. Em 1959, ao lado de Sylvia Telles, Carlos Lyra e Roberto Menescal, brilhou no 1º Festival de Samba Session. No mesmo ano lançou o LP “Gosto de Você”, seguido por “Alaíde Canta Suavemente”, em 1960, com repertório recheado de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Donato.
Dona de um timbre personalíssimo e afinação sem deslizes, Alaíde tornou-se a “cantora dos músicos”, admirada por João Gilberto, Johnny Alf e Milton Nascimento com quem gravou “Me Deixa em Paz”, faixa do histórico álbum “Clube da Esquina” (1972). Também compôs ao lado de gigantes como Tom, Vinicius, Alf e Geraldo Vandré, assinando melodias criadas ao piano desde os 17 anos.
Apesar do reconhecimento entre os pares, o sucesso nacional foi raro. Alaíde carregou o estigma de ser respeitada pelos artistas, mas ignorada pelas gravadoras. Anos depois, reconheceu ter sofrido um racismo velado dentro do próprio movimento: “Quando a bossa nova explodiu, senti que não era mais necessária”, declarou. A escolha por canções românticas e dolentes, em vez de sambas alegres, também lhe custou espaço.
O reconhecimento chegou tardio, mas grandioso. Impulsionada por Emicida e Marcus Preto, viveu uma nova fase de intensa produção, com álbuns premiados como “Harmonias Que Soam e Ressoam”. Aos 90 anos, Alaíde Costa é celebrada não só como precursora da bossa nova, mas como símbolo de coerência, dignidade e resistência da mulher negra na música brasileira.





