Felipe Alfau não é um escritor que se encontra por acaso. É preciso tropeçar nele.
Em Locos: A Comedy of Gestures, publicado em 1936, Alfau apresenta Fulano, um homem tão desesperado para ser reconhecido que sua maior tragédia é justamente não conseguir ser percebido. Seu nome significa algo próximo de “fulano”, “qualquer um”, “aquele cujo nome não importa”.
Há algo de profundamente contemporâneo nisso.
Vivemos cercados de maneiras de provar que existimos. Fotografias, documentos, assinaturas, perfis. Hoje podemos até medir quantas pessoas nos viram ou seguiram. Nunca tivemos tantos meios para afirmar a própria existência.
E, ainda assim, talvez nunca tenha sido tão fácil perguntar: quem sou eu quando ninguém está olhando?
Fulano leva essa pergunta ao absurdo. Depois de uma sucessão de acontecimentos, descobre que outra pessoa passou a ocupar seu lugar no mundo. Tem seu nome, seus bens, sua casa, sua reputação. O outro tornou-se famoso; ele tornou-se ninguém.
É então que surge a frase que resume toda a vertigem do personagem:
“Well, I do not exist.”
Não existo.
Mas o que significa não existir?
Para Alfau, a identidade não parece ser apenas aquilo que carregamos conosco. Ela depende também do olhar alheio, da memória e da história que contamos sobre nós mesmos — ou que alguém conta sobre nós.
É aí que a literatura entra como uma espécie de espelho deformador.
O narrador de Alfau sabe que está inventando Fulano. E Fulano deseja desesperadamente tornar-se personagem. A criatura quer ser escrita para poder existir. O escritor, então, deixa de ser apenas aquele que conta uma história: torna-se aquele que concede uma segunda vida.
Talvez seja essa a grande ironia de Alfau. O homem que passou a vida tentando ser importante acaba encontrando sua existência justamente naquilo que não poderia controlar: a ficção.
E talvez exista aí uma verdade escondida.
Todos nós queremos deixar alguma coisa de nós no mundo. Um gesto, uma obra, uma lembrança, uma frase. Não necessariamente fama. Às vezes basta que alguém encontre aquilo que fizemos e diga: eu sei que esta pessoa esteve aqui.
Talvez escrever seja isso: uma maneira de contrariar o desaparecimento.
Talvez a literatura seja o lugar onde até um fulano pode, finalmente, ter nome.
Felipe Alfau (1901–1999) foi um escritor espanhol-americano cuja obra permaneceu durante muito tempo à margem do grande circuito literário. Locos misturam ficção, metafísica, humor e personagens que parecem saber que estão dentro de uma história.
Por isso, Alfau merece ser descoberto.
Há livros que contam histórias. E há livros que, enquanto contamos suas histórias, começam a perguntar quem somos nós.





