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Ars Gratia Artis: ‘Ausência de destino’ – Parte I

Csaba Segesvári / Wiki Commmons
Csaba Segesvári / Wiki Commmons

‘Posso assegurar: a espera não atrai a felicidade – ao menos foi essa a minha experiência quando por fim chegamos. É possível que estivesse cansado e a ansiedade de chegar me fizesse esquecer da ideia; entretanto, de certo modo, fiquei mais apático. Mas precipitei um pouco os acontecimentos. Lembro-me de que acordei de repente por causa de um estrépito insano de sirenes que pareciam próximas; a luz débil que se filtrava no nosso vagão marcava o amanhecer do quarto dia. A base das costas, que tocava o piso do vagão, doía. O trem ficou parado, como das outras vezes, e como sempre quando havia um ataque aéreo. Nessas horas, as janelas ficavam ocupadas. Ultimamente todos esperavam ver alguma coisa. Passado algum tempo, consegui um lugar: não vi nada. Fora, a madrugada estava fresca e perfumada, sobre os vastos campos pairava uma neblina cinza e, de repente, um facho parecido com o anúncio de um trompete, intenso, concentrado, vermelho, alcançou-nos de algum lugar às nossas costas e eu compreendi: assistia ao nascer do sol. Era belo e, no conjunto, interessante. Nessa hora, em casa, eu estaria dormindo. Vislumbrei um edifício, uma estação no fim do mundo ou o prenúncio de uma estação maior, à frente, um pouco à esquerda. Era acanhada, cinzenta, vazia, com pequenas janelas fechadas e um telhado de inclinação engraçada, como os que eu havia visto na região, na véspera: no amanhecer enevoado, ganhava, a princípio, contornos sólidos, arredondados, passava do cinza ao lilás, e as janelas adquiriam um brilho avermelhado à medida que sobre elas caíam os primeiros raios. Outros também a perceberam; eu mesmo falei dela aos curiosos atrás de mim. Perguntaram se eu não conseguia ver o nome do lugar. Divisei duas palavras na luz incipiente, na parede debaixo do teto, do lado mais estreito do edifício, voltadas para nós: “Auschwitz – Birkenau” – li, em letras alemãs anguladas, sinuosas, ligadas por um traço de união que formava duas ondas. Entretanto, de minha parte, a busca nos conhecimentos de geografia foi inútil, e os demais também não se mostraram mais bem-informados. A seguir, sentei, pois os que estavam atrás de mim queriam o meu lugar e, como era cedo e eu estava com sono, logo voltei a dormir. 

Mais tarde fui acordado por agitação, movimentos. Fora, o sol ardia pleno. O trem voltara a andar. Perguntei onde estávamos aos rapazes: responderam que nos encontrávamos no mesmo lugar, mas acabávamos de partir de novo; devo ter despertado com os sacolejos. Porém, não restava dúvida – acrescentaram – de que adiante havia fábricas e uma espécie de acampamento. Um minuto depois, os da janela disseram, e eu também o havia imaginado pela mudança da luz, que tínhamos passado sob um arco abobadado. Mais um pouco e o trem parou, e eles, excitados, avisaram que viam uma estação, soldados, pessoas. Muitos logo começaram a juntar os pertences, abotoar a roupa; alguns, em especial as mulheres, passaram a se limpar, embelezar-se, pentear-se de improviso. Ouvi pancadas nos vagões vindas de fora, barulho de portas que se abriam, balbúrdia de passageiros que se confundiam à saída do trem, e nessa hora tive de concordar que, sem dúvida, havíamos chegado. Fiquei feliz, era natural, mas com um espírito diferente do que sentira na véspera. Depois, uma ferramenta golpeou a porta do vagão e alguém, ou alguns, fez a porta pesada correr. 

Imre Kertész ( ganhador do Nobel de Literatura de 2002 )