Vinicius Zepeda
O samba embalava a festa no coreto da Praça São Salvador. Cerveja gelada e alegria davam o tom das celebrações. Próximo dali, a cozinha da casa de Eduarda e Clarice impregnava-se pelo cheiro da feijoada.
No carro, Clarice voltava para o lar depois de ter alta do hospital. O coração rejuvenescido teimava em bater como o surdo marcando o ritmo. O ar que expirava emitia um sibilo que remetia ao ronco de uma cuíca.
Nunca havia levado jeito para a dança. Porém, depois de uma tripa de porco em seu coração remendado, nenhuma atitude sua causaria estranheza. E ao saltar do carro com auxílio de seu primogênito, Clarice sentia transbordar de emoções. Era o samba de sua alma que queria gritar. E ela não deixaria morrer.
Dias antes, a nonagenária Eduarda (Duda para os mais chegados) Diana Malito resolveu fazer topless e ganhar marquinhas de sol na Praia do Flamengo. Uma ousadia erótica como uma maneira de agradecer por toda uma vida junta.
O cabelo repartido de lado com uma flor na orelha e um vestido estampado. Um perfume e maquiagem leves que a deixavam irresistivelmente linda.
Sessenta anos de vida juntas as fazia entenderem-se mesmo à distância. Dois corações batendo na mesma sintonia.
Duda aguardava ansiosa na cozinha. Clarice já subia pelo elevador com o coração acelerado querendo sair pela boca. Ambas sentiam e escutavam – talvez da festa na Praça São Salvador – a mesma música: “Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto que eu “tô” voltando”.
As mãos ao segurar o molho de chaves dificultavam o encaixe perfeito na fechadura. Mas Clarice insistiria até escancarar as portas para Duda entrar. Por mais que ainda fosse improvável haver segredos entre as duas.
Foi então que, quase e m “Abre-te, Sésamo!”, romperam-se as portas da cozinha. Assim, Duda e Clarice se entreolharam com ternura.
Ambas fixaram o olhar na outra com o coração acelerado. Sorriso nos lábios, telepatia. Lágrimas a escorrer dos seus olhos. Uma imagem de cinema que representaria bem o amor em pouquíssimos frames. O primogênito das duas observava tudo e também não tinha como segurar a emoção ao presenciar tudo. Seis décadas de uma história de amor.