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Alfredo Barreto Sampaio | Aventuras Uranianas Colunas Destaque Diário do Rio Notícias do Jornal

Urobóros

Os medicamentos para insônia encareceram, pois sua demanda aumentou; grande parte dessa inflação se deu por conta do aumento no consumo de estimulantes. E o aumento no consumo de estimulantes, comprovadamente teve como um dos grandes causadores o aquecimento do mercado dos calmantes e analgésicos.

Nos comerciais se vê um mundo plástico, perfeito, charmoso, estiloso e convidativo. A vida da maioria das pessoas não costuma ser assim e são essas mesmas pessoas aquelas a quem chamamos ‘consumidores’. Descobre-se, cada vez mais, que o consumidor quer se ver na tela, se identificar. Por conta disso, os comerciais estão mais próximos da ‘realidade’; mas as pessoas estão fartas das suas realidades e se interessam em fantasiar com os mundos plásticos supostamente perfeitos dos comerciais.

A mulher sente saudades do marido, o marido de sua esposa; durante os momentos em que passam separados, pensam um no outro, com uma espécie de tristeza, vontade de estar perto. Encontram-se, passam algum tempo juntos; discutem, incomodam-se. Um vai para longe do outro, por desejo, necessidade ou pelos dois. Sentem saudades novamente.

A morte um dia se abaterá sobre todos, portanto se diz que a vida deve ser aproveitada ao máximo. Aproveitar a vida ao máximo está associado a romper limites, arriscar se, via de regra. Arriscando-se, há maiores chances de prejuízos, inclusive o de morrer. Tal iminência traz arrependimentos, favorece ímpetos de autopreservação. A autopreservação exige uma vida mais moderada e conservadora. Vive-se tal vida e percebe-se que algo falta, porque um dia… um dia a morte se abaterá sobre nós.

Fulano não é dado a valorizar coisas materiais, abre mão das coisas, é generoso, considera-se altruísta, não cuida muito da aparência, por considerar todas e outras questões assim de cunho materialista. Fulano perdeu tudo e precisou trabalhar pra reconquistar a excelente condição financeira que possuía. Ficou um pouco egoísta e tomou uma série de atitudes que o favoreceram em ambientes onde o dinheiro circulava. Voltou a ter uma ótima condição financeira; passou a não ser mais tão dado a valorizar coisas materiais.

O mundo e tudo o que nele existe é governado pelo fluxo inevitável e colossal que há entre os transfinitos pontos que ligam os infinitos ‘contrários’, os extremos que se irmanam – pelas consequências geradas por esses caminhos, por esse magnetismo que ‘puxa’ a partir do Vazio, a existência; por esse absurdo que faz brotar um farto sorriso na face dos loucos e das crianças: mesmo naqueles que precisam ser anestesiados, pelos medicamentos para insônia.

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Estorvo e poder

Tão grande é a ilusão da individualidade, tão grande o engano do indivíduo que considera seus hábitos muito próprios, específicos, raros, diferentes e especiais, que o espanto acomete os incautos arautos da notícia : todos são muito diferentes, mesmo; mas essa diferença é um resultado de muitas e muitas escolhas que, não raro, são resultado
do que muitos denominam acaso.

O poder é a capacidade de fazer algo, qualquer coisa. Se escolho uma forma de fazer cada uma das coisas que faço é porque a considerei melhor, após testá-la com minha experiência; acontece que não deveria me apegar emocionalmente a ela : este apego gera o que muitos chamam de “EGO” que é o agregado de emoções, ideias, sentimentos que são os resultados dessas escolhas feitas pelo sujeito.

Independentemente de quão seguro o sujeito se manifeste quanto às diferenças de hábitos, ideias, comportamentos entre ele e os demais, é evidente que pensa ser o que escolheu para ele melhor. Daí vem o erro de confundir esse melhor com um melhor universal e considerar
que, pelas escolhas dos outros serem diferentes das dele, essas escolhas
estão erradas.

Quando o indivíduo se descobre acompanhado nas escolhas especiais que fez para sua vida; descobre que existe mais alguém no raro mundo onde se pensava sozinho, escolhendo de forma similar a ele.

Isto o faz sentir bem, faz com que esse outro seja bem considerado, gente boa, pessoa de bom caráter, da melhor qualidade. Mesma ilusão, mesmo desvio. Mas este sustenta o outro : se algo me dá poder e estorvo, como me dá um poder, um prazer, uma sensação boa, já estou sendo ‘pago’ pelos momentos ruins que passarei. Na verdade, como o
indivíduo provavelmente vai se cercar de pessoas que cultivam as mesmas ilusões e adoram as mesmas imagens, o grupo vai se achar especial junto, escolhendo viver entre os melhores, os que conferem
poderes uns aos outros pela confirmação de que suas ideias acerca das
coisas são mais interessantes e verdadeiras, pela valorização e exaltação da sua companhia e semelhanças.

Há que se ter, para aprender a sabedoria desse Poema Zen, coragem…
muita coragem e ao menos uma vida inteira… :
“O caminho perfeito carece de dificuldades
Exceto a de se negar a admitir preferências
Só quando se libertou do ódio e do amor
Revela-se plenamente e sem disfarces
Uma diferença de um décimo de polegada é
O que separa o céu da terra.
Se o quiseres ver com teus próprios olhos, não
Deves ter pensamentos fixos nem contra nem a favor”.

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Muitas Grécias

Antes da Era Presente, na última vez que os humanos tiveram entre eles um deus, caminhando entre eles, parte de seu cotidiano;  um deus que habitava, não que era intuído;  um deus que se alimentava, não que recebia libações;  um deus que se via, não que se esperava ou que se revelava em sonhos… na última vez que tiveram entre vocês um deus… um deus que caminhava, que pisava, que falava… sei que vocês imaginam o pretenso privilégio, o grande prêmio que essa humanidade parece ter recebido pela graça dessa convivência.  É dado que a ignorância que assola esta Era impede a maioria dos mortais de enxergar o que fariam se convivessem com uma divindade… as implicações dessa convivência poderiam ser piores do que o motivo desta história.

É sabido e sem disfarce, divulgado e espargido como a poeira alquímica mais cobiçada, que existem muitos Tempos; que há infinitos adiante, no futuro – bem como outro infinito, para trás, no passado.  Que houve infinitas humanidades.  É sabido e não há quem duvide que houve tal número de existências, que houve tal número de humanidades e de homens, que o casamento deste número com o vazio fez nascer a Deusa  Memória, criadora magnífica; títere luminoso pelas galáxias sem fim.

Já foi dito que a humanidade é um evento: ocorre quando há condições favoráveis para tal, assim como qualquer outro evento na Natureza; e tal não é percebido pelo homem, que, em sua pequenez e grande empáfia, tem nublada a sua consciência, que dorme e mergulha em abismos de vaidade, de ilusões religiosas, ateístas: em brinquedos que cria para se afeiçoar à sua morte.

Numa das Grécias, onde os deuses andavam entre os homens;  onde os deuses eram pequenos mas intensos focos de luz que guiavam, amparavam e davam esperança… numa das Grécias, lá estava o último dos deuses que, por muitos éons, viveria entre os homens… o deus, porém, fora exigido em toda a sua glória. Fora conspurcado, vilipendiado… a ambição humana era sem limites… e os homens o queriam seu escravo… queriam violações às leis naturais… queriam riquezas, não aceitavam revezes se alguém os pudesse evitar… exigiam interferências na natureza, demandavam a poderosa mão sobre o mares e os céus… imploravam por amor e misericórdia; e o perdão infinito que jorrava do coração do último deus entre os humanos era o álibi para o cometimento dos crimes mais atrozes.  E ele passou a nutrir estranha desesperança, embora não parecesse desistir.  Ainda tentou ensinar lições, evidenciar em explosões de beleza o poder que deveria ser fácil alcançar, pelos mortais.

Ele passou a ser desprezado, tornou-se um incômodo.  Ele era real, portanto não agradava a imaginação romântica que idealiza, multiplicando concepções da perfeição de si mesma.  Suas maravilhas já não espantavam ninguém. Talvez fosse lucrativo para algum bom comerciante.

Enclausurado por vontade própria, sua luz oscilante, projetou um poema na rocha da parede que admirava, na qual se transformou.

E, em muitas Grécias adiante no tempo, da memória acerca de tudo isso, restaram apenas palavras.

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Carruagem

Findo o ato de sublimação, alternado o caso de recepção, alhures me
chamava Ariadne, indiferente às perturbações que fingia possuir, eu que não possuía a mim mesmo já havia uma data… o Sol daquele dia queimava o papel do sorvete mais do que minhas narinas e ainda mais do que minhas ideias acerca de sua provável extinção. Saber que algo superior a mim mesmo, em duração, se extinguirá, também é relevante, mas acredito que não tanto para os profissionais do mercado, do marketing; por exemplo, os fabricantes de sorvete.

Andava sozinho e a esmo; tropeçava em mim mesmo e lembrava de Ariadne balbuciando os seus senões longe de meus ouvidos, para que eu não entendesse e ainda me submetesse mais à sua simulada altivez. Ela falava sem parar e falava naquele momento de sua mãe, de como era uma exímia jogadora de xadrez e cheguei a pensar que aquilo fosse uma metáfora, estranhamente porque estávamos no ônibus que seguia rumo a um lugar de onde nunca deveríamos ter saído, porque eu não o conhecia e ela tivera a coragem de me fazer ter coragem – o que ela pensava ser uma influência – de ser menos ignorante a meu próprio respeito. Quanto carinho e quanta petulância!

Sete músicas me entretinham.  Sete livros passavam em minha pele,
porque os lia diariamente e em partes; Leibniz, Platão, Luis Fernando
Veríssimo, Lao Tse, Goethe e…  Que engraçado o pensamento de que a
morte acaba com a cultura, porque a cultura é alguma coisa que parece
existir para que nos curemos dela.  Ou como diz o provérbio latino
acerca da arte, a arte existe para esconder a si mesma.  Como a curiosidade para o conhecimento, a arte é um paradoxo, colocada diante de um espelho.  Admira-se de si mesma, critica seus pormenores, ajeitando os cabelos e sentindo o próprio perfume no pulso.  Ajeita-se no tempo, escolhe as cores e os modos; finge palavras, arremata coisas, mata personagens e vive estribilhos nos silêncios que se imprime… como Ariadne…

Rasgam os céus os últimos relâmpagos de novembro e o meu suspiro se associa a isto me dando saudades;  fogem as carícias, os aromas, as
flores.  Sinto-me só.  Pareço sentir gosto de sangue.  O sabor me dá alguma companhia e raspa música na pele e minhas mucosas me lembram de Leibniz.  Dançam os fantasmas.

Acordo do sonho de outrora.  Ariadne me diz que não existe e eu lhe dou de ombros, saudando o Sol com a tristeza dos guerreiros em paz.

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Alfredo Barreto Sampaio | Aventuras Uranianas Colunas Destaque Diário do Rio

A morcego

Quebra a janela num estrépito! E como quem se recolhe ao próprio lar, desfaz-se dos fragmentos purpúreos do vitral multicolor.

Alça voo! E, planando com graça milenar, vulto negro, executa o movimento que a mantém suspensa, dançando, quase cega em meio aos ornamentos sagrados; pousa e contempla as nuvens do ignoto.

Parece descansar na solidão, como se alcançasse, com a sua paz e o seu sono na dor, a própria morte.  Os pequenos corações ainda compassavam, marcando o ritmo da vontade… e mais um impulso, atirando-se de uma viga de mármore, em direção a bancos de madeira talhada enfileirados. Passando um a um, a escolher como deveria ser o toque.

E abre as asas… espicha-se, sacudindo os resquícios da chuva que permeavam o peito inchado de fome e de leite.

Os olhos entreabertos e a face indiferente contemplam o sítio estático, soturno, recheado de diminutas e toscas lâmpadas azuis fluorescentes.

Ao alto! Vigorosamente, voando, voando… semeando sutil balé na atmosfera beijada pela brisa que rasgava a luz solar. Pairando e circundando um grande castiçal laqueado, dependura-se. Agora, nova perspectiva se afigurara.

Pequenos espasmos faziam tremer o ventre, como soluços; atirando-se com potente furor ao chão, quase com ele colidindo. Com fortes batidas de asas, impediu a queda e aprumou-se; provou do pão que se oferecia logo à frente, vorazmente, chegando a morder-se. Autofagia.

Haveria de concluir a necessidade imediata de expansão, dirigindo, com leveza inigualável, os corpos, até atingirem os braços unidos e estendidos d’uma estátua. Lá recostou-se e, como reza a maravilhosa lei da perpetuação da vida, deu à luz a um pequeno novelo de carne viscoso e frágil.

A asa que voa é a que abriga, a que protege e resguarda. E neste gesto vai o amor sem ditames, a gratuidade.

Seguindo, a fêmea transpassa a janela pelo mesmo lugar pelo qual entrou. A criaturinha, desabrochando, permanece só na madeira fria.

O Sol, como ele é, sem utilidade na sua beleza e inexorabilidade, repele o morcego para dentro do recinto já visitado; seguir para a madeira, para a carne da divisão, para o cheiro do próprio sangue. Mas o pequeno animal não mais se movia. Havia sido atacado, seus restos não passavam de uma forma nodosa vermelha e fétida.

Teria alimento por mais algum tempo, mas decidiu sumir, voar, cortar o vento. Juntou-se a um bando e permaneceu na escuridão tépida de uma caverna, escondida, latente.

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Alfredo Barreto Sampaio | Aventuras Uranianas Colunas Destaque Diário do Rio

O fantasma do gatinho e os três lados das coisas

Tem sido comum em meus passeios sentir-me como uma criança que percebe uma utilidade, para o futuro, em brincar de quebra-cabeças e
brinquedos de encaixe: hoje senti-me como essa criança que, num insight, vê uma família arrumando uma mudança na caçamba de um carro, encaixando estrados, madeiras, móveis… pensando na utilidade de brincar de encaixar coisas, na conveniência que será esse aprendizado na vida adulta. Essa mesma criança percebe que é esse mesmo o motivo de muitos adultos gostarem de brincadeiras de encaixe.

Num desses passeios, de relance, julguei ter visto um gatinho na rua. Tão rápida foi a imagem e seu desvanecimento que acredito ter sido um fantasma de um gatinho branco, creme e preto, desses vira-latas simpáticos. Acontece que o fantasma desse gatinho que vi na rua me remeteu a muitas ideias, porque me concentrei em sua aparição.

Loucura e normalidade, MAU e bom funcionamento, bem e mal,
justo e injusto, verdadeiro e falso e outros itens, na maior parte das vezes mais fáceis de serem distinguíveis. Os “dois lados da realidade”, porém, representam apenas mais um lado de uma realidade qualquer,
talvez de uma outra realidade de dois lados… as infinidades das combinações entre os caracteres binários da percepção da realidade
implicam, contrariamente a uma experiência da realidade e do mundo como um claro/escuro, simplesmente, numa experiência de momentos de acesso, de sujeitos e objetos de acesso, seus tempos, cores, memórias, desejos. Há um desejo onde há movimento, pois há um
impulso, uma direção. A conferência do sentido a esse impulso, qualquer que seja ele, é e sempre será arbitrária. Está e sempre estará no fluxo, na maior parte das vezes insondável, da Natureza.

O terceiro lado das coisas tem a ver com isso: essa “terceira margem
do rio” como o caminho que somos nós, pode ser esse ponto de percepção e de sensações que acessei, ao voltar de minha caminhada,
ao acreditar ter visto o fantasma de um gatinho; sensibilizei-me quanto
aos olhares de outros, tantos outros, perdidos de si mesmos, ansiosos
por amor, alheios às suas infinitas capacidades de acessos, jardins caminhando sobre asfaltos desertos, corações luminosos cerrados em seus cárceres de ternura.

Mas qualquer dia desses virá, na vida que vem, o fantasma de um gatinho para que, como num brinquedo de encaixe, após alguma dificuldade de acessos com atritos, seja formada uma imagem que remeterá para além de toda imagem; onde a solidão que nos acompanha a nós todos permanece, eterna, como o terceiro lado de todas as coisas.

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Alfredo Barreto Sampaio | Aventuras Uranianas Destaque Diário do Rio Notícias do Jornal

Presente escondido

Há aqui, um presente por se mostrar. Escondido por entre as
palavras, quem o há de encontrar?

Difícil ver claramente quando a tristeza nos agarra, o cansaço nos dilacera… são tantas notícias desanimadoras… a violência em nossas ruas, a selvageria desses tempos… como discernir algo quando vemos que há crianças, também, nas tantas guerras deste mundo? Crianças que, com ou sem pais, já nascem órfãs.

E as doenças? Virá outra Pandemia? Virá outro tipo de catástrofe? O desemprego, o dia de amanhã, quem o sabe? O esmagador peso dos interesses do capital sobre o povo… e os desmandos e enganações lícitas ou não dos políticos, das grandes empresas? A ‘sociedade do cansaço’ reinventando nomes pra nos fazer crer que somos coisas. E ainda ficarmos satisfeitos, ao menos resignados, com isso.

Que será a satisfação, essa coisa que quando vem já se foi? Mas queríamos tão pouco, nós os brasileiros. E todos os dias nos ouvimos falar acerca de como os impostos que pagamos com nosso sangue não são usados pra educação, pro saneamento, pra segurança, pra saúde.

O tempo que urge, tantas coisas por fazer e já se foi outro ano. Os amigos que ficaram no passado, onde estarão? Tanta lembrança boa que parece que foi ontem e já se foi há tempos. Aquele sonho que não se realizou e que ficou cravado no coração como um diamante indesejável.

Aquela pessoa que tanto amávamos… agora, tão distante, impossível, alheia a nós ( talvez ). Aquela mistura que é a saudade, intraduzível, brasileira saudade. Aquela esperança de que um dia… aquela certeza de que nunca mais… A saudade é irmã da fé.

Uma ingratidão, uma lágrima vertida na solidão de um quarto, com poucas cores. Observar o luar sem nenhuma emoção; ver os mendigos com gorro de papai noel nas sarjetas sem nenhuma emoção. Nem o belo e nem o feio; sequer o justo, injusto, natural ou artificial: o compartilhado, o enquadramento: o ‘aonde é visto’ e o ‘por quem é mostrado’ é a máquina de emoções contemporânea.

Onde, a felicidade? Aqui se esconde o presente. A felicidade não é desse mundo. Quando achamos que a possuímos, nosso próprio esforço em mantê-la nos faz perdê-la. E, quando sem ela, tristes, a confundiremos com euforia, com certos momentos de prazer e satisfação, comodismo e calma.

Acreditar que nunca a sentimos, verdadeiramente, uma vez que nossa ingenuidade humana nos fez procurá-la onde nunca esteve, é o seu primeiro brilho, como um raio de Sol, em nossos corações… que atravessará, de ponta a ponta, nossa vida inteira.

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Alfredo Barreto Sampaio | Aventuras Uranianas Destaque Notícias do Jornal

Ki, atendimento ao público e o sofá

‘Ki’ ( 気 ) é uma palavra que designa a energia. Também conhecida como Pneuma, Ka, Baraka… os nomes, muitas vezes, mais confundem do que esclarecem os significados das coisas.

O atendimento ao público é um campo riquíssimo para a experimentação da eficácia do Rei Ki – a Energia Universal. Sim, isto soará vago para quem não conhece o método Reiki de terapia alternativa. Mas soará menos vago se você entender que o KI não é um mero instrumento terapêutico: ele é o insondável no movimento da vontade; o mistério cujo Poder é indescritível, indecifrável, inelutável.

Durante um atendimento, surgiu diante de mim uma senhora, evidentemente perturbada. Ela esbravejava, contradizendo-se… falava sussurrando… Ao lado dela, seu filho: um jovem de dezesseis anos, numa cadeira de rodas, doente; com problemas graves e visíveis de coordenação motora. Ele balbuciava, gritava, babava, grunhia.

A ‘plateia’, formada pela extensa fila de clientes sentada à minha frente, já começava a rir da cena. Por certo, considerava-nos ridículos: a mim, por dar atenção excessiva a eles; a eles, pelos excessos patológicos.

O rapaz estava começando a ficar agressivo. Experimentei projetar um feixe de energia, do meu peito, para o garoto. Não por acaso, silenciou, repentinamente. A energia o atravessava, inundava seu campo bioeletromagnético.  Ele permaneceu, quase imóvel. Olhava-me, fixamente. E assim continuou, até o final do atendimento.

Há um sofá na minha sala, com três almofadas retráteis. Uma delas, a do meio, estava emperrada, há muito tempo. Nem eu, usando uma dose de força razoável, consegui movê-la.

Dia desses, pedi para o meu filho, que tem apenas nove anos, puxar tais almofadas e… conseguiu, de primeira! Perguntei pra ele como fez aquilo. Ele me disse que usou o Ki, que não havia usado só a força física. Não achei estranho, pois comento sobre energia com ele, desde que ele era pequenino.

Chega a ser enfadonho pensar como e de quantas formas podemos explicar tais coisas “À LUZ DA CIÊNCIA”… de que tudo é compreensível; que não há nada de extraordinário nisso tudo e etc. Esquecemo-nos, entretanto, de que é princípio fundamental da Ciência ter o espírito livre para novos conhecimentos, sem negar o desconhecido, ou repetir, de forma insensata, comodista, soberba e vaidosa supostas verdades.

‘Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo’. (Guimarães Rosa)

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Alfredo Barreto Sampaio | Aventuras Uranianas Destaque Notícias do Jornal

O Imperador

A conquista de alguma liberdade reside nas renovações que suportamos; com elas, vêm muitas dores. A dor, diga-se de passagem, tem essa função, quando sentida conscientemente: dentro de certa medida que não a configure como instrumento de masoquismo, mas como agente transformador; útil para o espírito, portanto, no exercício de desapego daquilo que não serve mais, daquilo que há em excesso, que está fora de lugar, na vida.

Numa de minhas andanças, passei pela majestosa estátua de Cuauhtémoc, erigida em homenagem ao último imperador Asteca, cujo nome significa “águia que cai”. Apenas apreciei a bela obra de Art Decó, situada na Praça do Índio, sentindo, após seguir em frente, um não sei o quê, um aperto no peito, alguma tristeza, mesmo sem conhecer profundamente a trágica história desse importante Imperador.

Senti, então, a mais universal das tristezas, contra a qual não pude lutar, nem me desesperar, muito menos fazer qualquer coisa. Apenas aceitei que, por todo o tempo que já passou e que eu SEI que passou e que eu SENTI que passou, pela eternidade que há no passado… por todo o tempo que virá e NÓS sabemos que virá, e por toda a GRANDEZA de tempo que está para além desse tênue fio que é a vida de todos nós… pude sentir o quão efêmero é, foi e será tudo aquilo que vive, tudo aquilo que existe.

Tomado por esses pensamentos, viro a Rua Senador Vergueiro e encontro no chão o que parecia ser um plástico sendo agitado pelo vento: era um pássaro, muito doente, que mal conseguia se mover. Tomado de grande tristeza, ainda dominado pelas ideias arremessadas pelo mundo, contadas há pouco, estanquei. Aquela ave sofrendo era a humanidade, era eu, era o Imperador… a grande Águia que caiu.

Por instantes, olhando o pássaro ao longe, pensei em buscá-lo, levá-lo ao veterinário. O fato de ele se virar para mim apenas intensificou meus sentimentos, até então confusos.

Tudo que existe leva em si a semente de sua própria destruição; tudo aquilo que é aniquilado traz em si o germe de um novo nascimento.

E, com passos mais suaves que de costume, vagarosamente, fui adiante. Desviava-me delicadamente das pessoas na estreita calçada, pois cada uma delas, cada um de nós é mesmo algo raro e breve, lindo e fugaz.

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Alfredo Barreto Sampaio | Aventuras Uranianas Destaque Notícias do Jornal

Início e fim… E fim… E início

Tudo o que eu – Ariadne – queria era sair da névoa deste mundo, poder
respirar pela alma as cores da antimatéria, sem nenhum sufocamento de partes de mim cujo simples existir já soaria como uma sentença de
morte – e também o pior – uma sentença de vida; uma vida eivada
pelo sofrimento e insatisfação, pela solidão e abandono, pelo
apodrecimento ingênuo das gerações.

Caso o mito da convivência entre cordeiros, leões e crianças fosse
real – em qualquer parte do planeta – desde já seria uma idéia a
se rejeitar com tudo o que se é. Tais figuras jamais estarão nem neste
e nem em nenhum outro orbe, em verdadeira paz. Mas serão – ou seriam – seres diferentes, cuja fome não se sacia com a carne e o sangue de outros seres, cuja morte que traz explícita em seu código genético – o ADN é a letra de nossa Ária Fúnebre – tão breve e fugaz que não cansa esta humanidade de criar morais para justificar o afastamento ou a proximidade de qualquer coisa que ao menos libere, num milionésimo de segundo cósmico, um odor de eternidade, uma lufada de imortalidade, um sonho de um toque de uma divindade, em si mesma, dentro de um sonho.

As memórias das tantas lutas que perdi… serão sonho? O que é real
no sonho?

Não mais tardarei a lhes contar: estou, agora, em coma. A morte – ao
se aproximar como uma madrinha, sentada ao meu lado num banquinho de praça, se aproxima com o olhar doce e gentil de uma conselheira desconhecida, cuja intimidade suspeitei, num átimo, ser milenar.

A inércia do real me golpeia… sinto-me como um casal sem filhos que
observa uma grande avenida totalmente vazia, sem movimento; os prédios e lojas vazios, a poeira se amontoando, a verdade dissipada; a crueldade do existir compartilhada pelos desertos de pessoas no excesso de coisas.

Sinto uma presença em meio ao temporal; as histórias que ousarei
contar aqui serão guiadas por ele… Adianto que o geniozinho, ou fada
ou entidade – ou eu mesma, no delírio de criação de uma última
personagem – me prometeu que, se o guiasse por essas veredas, sem
perder o fio, teria no final o que tanto quis: a liberação deste
mundo, o ingresso na dimensão ulterior do Planeta Urano, onde há seres que não vivem da morte de outros. Aventuras Uranianas.

Embora não esteja tecendo para ninguém, alguém saberá…na armadilha do sonho, na realidade escolhida… ouvir o silêncio, tecer a palavra.