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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre Colunas Destaque Diário do Rio Notícias do Jornal

Fim de relacionamento, fim da fantasia

É preciso deixar partir. Foi esse o pensamento que me veio à mente quando o vi atravessar a porta que separava nosso passado de nosso futuro. Como eu supunha, não éramos dois sós a formar um laço. Éramos dois nós atados. E de repente, estávamos nós por um fio. Aquele instante, o instante da contingência, percebi que planos são sempre meias possibilidades. E que certa estava Cassia Eller quando disse que “o pra sempre sempre acaba”. 

Para darmos conta de um “pra sempre” romanesco, criamos fantasias pra sustentar o impossível que se impõe a nós. Assim nascem as fantasias de completude, por exemplo. Fantasiamos a tampa da panela, a parte que nos falta.  Vivemos a eterna (enquanto dura) fantasia de que aquele ser humano cheio de defeitos que divide a vida conosco pode (deve!) atender todas as nossas demandas, tapar todos os furos. Mas o furo é a única certeza num mar de incerteza. A falta que nos constitui coloca-nos na posição de “vir-a-ser” na cabeça do outro, que, inevitavelmente, sempre espera mais de nós do que temos a oferecer. 

De acordo com Lacan, no amor, sempre imaginário, acontece uma dialética entre o amante e o amado em torno de uma falta simbólica. O amante, portanto, sentindo que algo lhe falta, mesmo sem saber o que é, supõe que o amado possui esse algo que o completaria. O amado, por sua vez, sentindo-se escolhido, supõe que tem algo a dar, sem saber também do que se trata. Mas o amado é um ser faltante, assim como o amante. Dessa forma, o que ambos têm a dar um ao outro é um nada, um vazio. Eis a fórmula lacaniana do amor: “amar é dar o que não se tem”.

Certos de que amar significa encontrar a outra parte da laranja, inevitavelmente nos sentimos metade quando o outro se vai. Mesmo quando a separação constitui a tão desejada solução para um problema que não poderia ser resolvido de outra forma, partir, sinônimo de ir, como também é homônimo perfeito de partir – cortar -, dói. Aquilo que os olhos equivocados enxergavam inteiro, foi partido. 

E quando ainda há amor, a dor ainda é mais dilacerante, visto que o amor, enquanto experenciado na dialética com o ser amado, é fonte de felicidade, ao passo que também nos torna vulneráveis. Tal paradoxo é apontado por Freud em Mal-estar na Civilização: “ o amor nos proporcionou a mais forte experiência de uma sensação de prazer avassaladora, dando-nos assim modelo da nossa busca por felicidade (…) O lado frágil dessa técnica de vida é patente…Nunca estamos mais desprotegidos ante o sofrimento do que quando amamos, nunca mais desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou o seu amor…”

Perder o amor do outro pode se constituir a pior das dores, indubitavelmente. E isso porque, no campo das fantasias que criamos para sustentar o amor, perder o amor do outro significa também perder uma versão de nós inventada por esse outro. É perder esse olhar que nos dá um lugar que antes não ocupávamos, quiçá pensávamos que nos cabia. Em certo sentido, no fim, o luto também é pela perda de quem éramos para aquela pessoa; identidade que assumimos na fantasia de quem nos ama; o eu nascido a partir do olhar do outro. Por isso fins de relacionamento são tão sofridos, pois é o momento em que as fantasias caem e nos enxergamos completamente nus, expostos à crueza da realidade.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre Colunas Destaque Diário do Rio Notícias do Jornal

Posto, logo existo

Era domingo, o sol ardia no céu azul límpido que cobria o Rio de Janeiro totalmente alheio ao fato de que o Verão já havia cedido lugar ao Outono. Sentada na areia, absorta, eu olhava aquela linha sem-igual de céu e mar. Eu poderia ficar ali horas e horas, à revelia dos vendedores ambulantes, das crianças jogando altinho, das idas e vindas dos banhistas, só sentindo o vento, observando o vaivém monótono das ondas. Costumaz, peguei o celular para registrar a cena e, posteriormente, postá-la nas redes sociais…. Aquele era um registro que eu não poderia deixar de dividir!

A cena citada acima é falsa, mas todos hão de convir que é tão comum que poderia dizer ser “baseada em fatos reais”.  Como uma marca de nossos tempos, a necessidade de postar tudo o que se vive e tudo que se faz manifesta-se quase como um sintoma. Onde quer que estejamos, frequentemente, nos deparamos com celulares a postos para registrar o momento: no restaurante, foto do prato; no barzinho, foto do drink; na academia, foto dos halteres. Verdadeiros diários públicos, os feeds de notícias das redes sociais são tomados pelas cenas cotidianas, que já não são vividas de forma privada. Se antes fazia sentido escrever sobre a rotina do dia a dia em diários íntimos, escondidos a sete chaves, hoje, com a fronteira do público e do privado implodida, viver e não postar é como se não tivesse vivido. Eis o silogismo do nosso tempo: “posto, logo existo”.

O que se percebe é que, na era das redes sociais, para sentirem-se pertencentes ao ethos contemporâneo, cada dia mais virtualizado, os sujeitos se afirmam a partir dos likes e followers. Logo, a garantia de engajamento nas redes depende intrinsicamente das postagens, o que, consequentemente, gera uma exposição demasiada e, na maioria das vezes, sem critério.  O que, por sua vez, incorre em uma exacerbação narcísica, que tem como resultado uma crescente desvalorização do altruísmo e a fragilização dos laços sociais reais.

Antes mesmo do advento das redes, já em 1968, em seu célebre “A Sociedade do Espetáculo”, Guy Debord já identificava, como consequência da sociedade de consumo capitalista, “a afirmação da vida social como simples aparência”. De certo, a produção de imagens e a valorização da dimensão visual da comunicação como instrumento de exercício do poder, apontadas por Debord naquela época, hoje, com a redes sociais, assumem lugar central, influenciando diretamente na atual compulsão por exposição no universo virtual.

Em suma, em uma sociedade em que para existir faz-se necessário provar que existe; onde a vivência encontra-se amalgamada à sua prova imagética, perde-se o tempo das experiências e de suas sensações, algo voltado pra si – movimento de introjeção, em benefício de uma insana necessidade de apenas registrar o momento, algo projetado ao outro. Não à toa somos uma sociedade cuja marca é a ansiedade. Incapazes de viver o momento, experiência do presente, preocupamo-nos em registrar para postar e esperar pela repercussão e, assim, condicionamos a nossa satisfação nesse “só depois”. Na dinâmica da vida é o que se posta, aquilo que realmente tem valor passa desapercebido pelas câmeras.  Afinal, vida de verdade (sem filtros) é aquela que acontece em off.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre Colunas Destaque Diário do Rio Notícias do Jornal

A política da solidão

Após o Reino Unido nomear, em 2018, uma ministra da solidão, Tracey Crouch, para enfrentar aquilo que denominou “crise de solidão”, em 2021 foi a vez do Japão criar um Ministério da Solidão, tutelado por Tetsushi Sakamoto, responsável  por lidar com o aumento da taxa de suicídio, durante a pandemia de Covid-19, entre pessoas que residiam sozinhas – um total de 14 % da população japonesa.

Considerada uma endemia, segundo estudos recentes, a solidão se faz presente em diversos países, com impactos psicológicos e socioeconômicos importantes.  Enquanto afeto político,  a solidão é resultante da precariedade do sentido de comunidade, e consequentemente, do enfraquecimento da convivência e da substituição das relações reais pelas virtuais.

Com o capitalismo e o reforço do individualismo a partir, sobretudo, da noção de esforço individual para garantia de sucesso -do sujeito empreendedor de si, autossuficiente e dono do seu próprio destino – o sentido de comunidade foi perdendo espaço. O investimento no coletivo  cedeu lugar ao investimento do eu, ensejando um arrefecimento da convivência e um enfraquecimento dos laços sociais.

Exemplo desse fenômeno, a hiperconectividade, que num primeiro momento pareceu servir à aproximação das pessoas, possibilitando diversos encontros que sem o advento das redes seriam impensáveis, na realidade serviu como mecanismo de defesa das relações interpessoais. Ao forjar uma ideia de constante  companhia, já que as pessoas estão “ligadas” umas as outras  virtualmente a maior parte do tempo, ela inviabiliza os encontros reais, cada vez mais incomuns, visto que, até quando estão próximas fisicamente – em posse de seus celulares, sempre em mãos – os olhos vidrados na tela determinam a distância intransponível entre os sujeitos “presentes”.

Até mesmo à arquitetura das cidades parece se acomodar à ideia de solidão.  Cada vez mais verticalizados, os centros urbanos são invadidos por prédios. Armações aço e concreto se sobrepõem na paisagem citadina dando indícios de que casas com quintal, onde famílias se reúnem e recebem vizinhos e amigos para sociais, em bairros projetados de forma a possibilitar o senso de comunidade, dão lugar aos altos prédios, nos quais os moradores, alheios a quem vive ao lado, restringem-se a cumprimentos protocolares na área comum. Não à toa os studios, apartamentos de pequena proporção geralmente adequados à moradia de uma só pessoa, viram febre nas grandes cidades como São Paulo. Indício de que não só o sentido de coletividade vai se perdendo, como, também,  cada vez mais pessoas optam por morar sozinhas.

No entanto, se a solidão como mal-estar contemporânea tem trazido consequências psíquicas significativas, como no caso do Japão,  em que o isolamento resultou no aumento na taxa de suicídios, a solidão enquanto afeito político, ao minar o senso de solidariedade,  acende o alerta para questões graves como a perda da noção de democracia,  a exacerbação da intolerância,  assim como um processo de dessensibilização.

Em suma, todos nós, em algum momento da vida, nos sentimos sozinhos, até mesmo quando rodeados de pessoas. Sentir-se sozinho ou até apreciar momentos de solitude que, em geral, não benéficos por serem momentos criadores e que nos levam a reflexões,  é natural e constitutivo de nossa humanidade; todavia, a solidão crônica, que leva a adoecimentos graves,  e  a solidão como tendência, que se manifesta como efeito de um sistema político, mostram-se como imperativos para repensarmos o modo de vida contemporâneo.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre Colunas Destaque Diário do Rio Notícias do Jornal

Eva, Pandora e Sycorax: da origem da dominação masculina à manutenção da violência de gênero

Cada vez mais devastadora, a violência contra as mulheres é considerada endêmica em todos os países e culturas. De acordo com relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) em parceria com a ONU Mulheres, divulgado em 2021, ao longo da vida, uma em cada três mulheres, cerca de 736 milhões, é submetida à violência física ou sexual – um número que permaneceu praticamente inalterado na última década.

Quando falamos da violência que acomete mulheres, é comum nos atermos ao presente; estarrecidos, acompanhamos os noticiários sobre os casos de feminicídios no país – que se tornam cada vez mais recorrentes – nos esquecendo da degradação da mulher enquanto processo histórico.

Em um breve retorno ao legado investido à mulher pela cultura ocidental, notamos que a violência de gênero se perpetua sob o discurso da dominação masculina. Na Grécia Antiga, por exemplo, as mulheres não tinham direitos jurídicos, não recebiam educação formal e eram proibidas de aparecer em público sozinhas.

Foi também na Grécia Antiga que o poeta Hesíodo revelou o mito de Pandora, o mal personificado em forma de uma bela mulher. No mito que explica a origem da humanidade ao estilo de uma tragédia, Zeus cria a mulher como uma maldição para os homens, estabelecendo o equilíbrio entre o bem e o mal.

Com o advento da cultura judaico-cristã, a mulher, culpada pela expulsão dos homens do paraíso, torna-se aquela que deve obediência e submissão aos homens. Passado o tempo, a Igreja, através da Santa Inquisição, em junção com o Estado, foi responsável pela caça às bruxas, entre os séculos XVI e XVII, levando à morte milhares de mulheres na Europa e no Novo Mundo.

Em sua obra História do Medo no Ocidente, Jean Delumeau aponta que, no começo da Idade Moderna, no ocidente, a mulher foi identificada como “um perigoso agente de Satã”, não somente por homens da Igreja, mas também por leigos.  Para o historiador francês, “a atitude masculina em relação ao ‘segundo sexo’ sempre foi contraditória, oscilando da atração à repulsão, da admiração à hostilidade”.

Em Calibã e a Bruxa: Mulheres, corpos e acumulação primitiva, a filósofa Silvia Federici demostra que, no início do sistema capitalista, a crise econômica, social e populacional na Europa, gerou um movimento de apropriação do corpo feminino pelo Estado, em que o corpo da mulher foi colocado como uma “máquina de reprodução” a fim da mão de obra necessária ao sistema.

O nome do livro de Federici,  Calibã e a Bruxa, faz alusão aos personagens da obra “A tempestade”, de Willian Shakespeare. Calibã é um homem negro escravizado e descrito como selvagem, filho da bruxa Sycorax. Ambas as personagens são tomadas como símbolos do racismo e da misoginia, que sempre andaram de mãos dadas com o capitalismo.

É justamente sob a égide do capitalismo-patriarcalismo-racismo que o regime da dominação e exploração das mulheres pelos homens continua a se perpetrar. No livro A Dominação Masculina: a condição feminina e a violência simbólica, o sociólogo Pierre Bourdieu define a “imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina” como sendo aquela que estrutura a percepção e a organização de toda vida social, incidindo sobre corpos e mentes, discursos e práticas sociais e institucionais, naturalizando a desigualdades entre homens e mulheres.

Em suma, se manifestando de formas distintas ao longo da história, a violência que atinge os corpos femininos, que emudece vozes e castra desejos, reaparece prontamente sempre que a dominação masculina é posta à prova e a hierarquia dos gêneros ameaça ser abalada.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre Colunas Destaque Diário do Rio Notícias do Jornal

Narcisismo e cultura da indiferença

Recentemente, foi destaque nos jornais de todo o Mundo a notícia da morte do fotógrafo suíço René Robert, de 84 anos, morto por hipotermia depois de desmaiar e cair em uma rua de Paris. Em uma das ruas mais movimentadas da capital francesa, René permaneceu desacordado por 9 horas sem ser ajudado por ninguém que passou por ele. Michel Mompontet, amigo de René, disse que o fotógrafo morreu por causa da “indiferença” das pessoas.

Causa de revolta e comoção no Brasil, a morte brutal de Moise Kabagambe, um jovem congolês de 24 anos, espancado até perder a vida por cobrar duas diárias atrasadas em um quiosque onde trabalhava, na Barra da Tijuca, no último dia 24, também foi marcada pela indiferença.  Depois de espancado e morto, Moise também foi amarrado e, em seguida, deixado estendido numa escada que leva à areia da praia, onde ficou exposto à insensibilidade  dos pedestres que por ali passavam.

René e Moise eram pessoas muito diferentes, vindas de realidades muito dessemelhantes. Enquanto René era um fotografo famoso, conhecido por retratar as grandes estrelas do flamenco contemporâneo, Moise era um refugiado político que veio para o Brasil para fugir da guerra e da fome, e aqui ganhava a vida como diarista. René foi morto por uma fatalidade. Moise por uma covardia brutal. No entanto, embora as causas que levaram as suas mortes sejam completamente distintas, ambos foram vítimas de um mesmo mal: a indiferença.

Enquanto René congelava na calçada da sempre movimentada Rua Turbigo, centenas de transeuntes fingiam não o ver. Indo e vindo das lojas de vinhos, cafés e restaurantes da região, na habitual pressa de chegar em casa vindas do trabalho, pessoas apáticas não foram capazes de desviar suas rotinas e estender as mãos a um homem estirado no chão em uma noite rigorosamente fria de inverno europeu.

E o que dizer dos jovens sorridentes vindos do futevôlei, daqueles vindos das academias com seus fones de ouvido e dos aposentados que caminhavam no calçadão descontraidamente que, à revelia daquele corpo negro amarrado e ensanguentado, seguiram o curso de suas vidas atropelando a realidade bem à frente de seus olhos?

Para Christian Dunker, psicanalista e professor do Departamento de Psicologia da USP, “a indiferença não se trata apenas de um efeito de distanciamento, nem apenas de uma incapacidade de pensar o outro, mas uma política, uma atitude de enfrentar conflitos pelo método da esquiva; pelo método de transformação da realidade ao invés da transformação de nós mesmos”. Ou seja, a indiferença surge como um efeito de uma disposição narcísica, um modo de enfrentamento de conflitos marcado pelo escapismo, pela negação da diferença, daquilo que causa mal-estar.

Marca da nosso cultura, a medicalização da vida tornou-se um mecanismo de analgesia das dores existenciais cujo anestesiamento produzido acabou por se estender às relações com a alteridade, fonte de constante mal-estar. Partindo da premissa de que me é hostil o que eu não conheço, o aspecto “protetor” do narcisismo resiste à diferença e estabelece fronteiras entre o eu e o outro. Dentro dessa lógica narcísica de negação daquilo que vem do outro, a inserção da indiferença se dá por meio do fechamento do indivíduo e sua demanda de anestesiamento do sofrimento, que culmina no prejuízo do estabelecimento dos laços sociais, num processo de crescente dessensibilização.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre Colunas Destaque Diário do Rio

O Mal-estar na atualidade

Nos corredores dos shoppings centers, consumidores transitam de olho nas vitrines, atrás da última tendência. Nas academias, sempre lotadas, o sonho do corpo ideal, em alta entre os influenciadores fitness
da internet. Nas redes sociais, o sucesso é um imperativo e, longe de ser um resultante de múltiplos fatores, é uma simples combinação de esforço e determinação – vociferam os coaches badalados do instagram. Para todo lado que se olha, promessas de felicidade ininterrupta, vida dos sonhos, conto de fadas. Alheios à humanidade
que nos constitui, parece que todos estamos em uma batalha por tamponar as faltas, os furos, os vazios (tão necessários), seguindo o caminho utópico da completude, cujo o destino não é outro senão um
mal-estar sem fim.

De acordo com o psicanalista francês Jacques Lacan, a entrada do sujeito na esfera discursiva, ou seja, no campo do simbólico, implica em uma perda estrutural que constitui o ser falante como faltante. Dito
de outra forma, quando tivemos que expressar, além do balbucio e do grito, o nosso desejo diante do mundo, a impossibilidade de encontrarmos uma representação para tal, atou o desejo à falta. E é esse desejo, sempre faltante, que nos põe em movimento. Nas sábias palavras de Rubem Alves: “é no vazio do jarro que se colocam flores”. Embora soe um paradoxo, é o vazio o que nos constitui como sujeitos do desejo.

Desta forma, a inscrição do sujeito na cultura se dá pela assimilação
de preceitos éticos e morais, que servem para estabelecer limites às nossas forças pulsionais. Isto é, o processo de subjetivação depende do “controle” das nossas pulsões no campo das representações simbólicas, do reconhecimento de que somos sujeitos faltantes e de que, por isso, existe um limite à satisfação de nossas demandas. Entretanto, o que se
percebe é que, indo na contramão dessa lógica, a falta de limites característica da sociedade capitalista contemporânea vem representando um risco no desenvolvimento dos sujeitos na sociedade.

O capitalismo se apropria e incentiva a produção e consumo compulsivos de objetos, ignorando a barra à satisfação total do desejo e alimentando uma ilusão de completude. Nesta esteira, há uma ascensão do objeto em detrimento do sujeito, que os coloca à mercê de um novo tipo de mal-estar, específico da atualidade.

Percebemos que, na antiga sociedade disciplinar, os sintomas surgiam do conflito existente entre as demandas pulsionais e a censura advinda das normas de socialização. O sofrimento psíquico, nesse sentido, surgia em resposta à polaridade conflitual do indivíduo, marcada pela repressão. Na atualidade, o modelo disciplinar cede lugar a normas que
incitam à iniciativa pessoal. As ações do indivíduo passam da permissão social à flexibilização das leis – para que haja cada vez mais consumo -, o que resulta no imperativo às demandas de desempenho e alta performance – para que o sujeito dê conta de produzir e consumir-, levando-o a “patologias da insuficiência”, como a depressão, a ansiedade, o esgotamento e as compulsões.

O que se evidencia é que, por se tratar de um movimento ininterrupto, já que o capitalismo se engendra a partir desse mecanismo de oferta e demanda para um mesmo sujeito, há implosão (por esgotamento)
no corpo desse sujeito – em forma de sintomas específicos desta época – e explosão para fora desse sujeito, destinado ao outro – em forma de atos de violência e agressividade. Ambos incorrendo em um processo de dessubjetivação.

Em suma, torna-se cada vez mais notório que a redução dos sujeitos à consumidores, reificando o objeto em detrimento do ser, representa a causa do mal-estar na contemporaneidade. Patologias da insuficiência
e violência são, portanto, os sintomas de um mal que parece irremediável, o sistema capitalista e sua negação da falta.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre Colunas Destaque Diário do Rio Notícias do Jornal

Para 2022 desejo que haja desejo

E, finalmente, eis que o ano de 2021 vai se encerrando. Um ano difícil, que parece ter se entrelaçado ao ano de 2020, nos deixando a impressão que não chegaria ao fim. Marcado por vórtices de sentimentos, da angústia à esperança, 2021 foi um ano inquietante.

No desassossego de nossas lutas diárias, todos nós, em algum grau, sofremos o peso da rotina fatigante de uma pandemia que se arrasta e suas diversas consequências psíquicas e emocionais; o que tornou, particularmente, mais estressante um período que, apesar de reservar um caráter de união e alegria, costuma nos deixar à flor da pele.

Segundo uma pesquisa do Isma-Brasil, o nível de estresse do brasileiro sobe, em média, 75% no final de cada ano. Tendo em vista os tempos inóspitos em que vivemos, não é difícil constatarmos que estamos em um momento delicado, em que se faz necessário um maior cuidado com a nossa saúde mental.

Se o fim de ano, geralmente, leva a um desequilíbrio emocional marcado, por um lado, por depressões e ansiedades sazonais, e, por outro, por um empuxo aos excessos, neste fim de ano, a profusão de sentimentos desconexos parece ter nos tomado de assalto; a tal ponto que é comum encontramos sujeitos que estão muito mais empolgados pelo fim de 2021 do que, propriamente, pelo início de 2022.

É como se navegássemos num mar revolto de sentimentos e sensações, totalmente desbussolados. À deriva na nossa radical humanidade, neste momento que nos surpreendemos nus diante da vida. Vulneráveis. Aquilo que não somos capazes de nomear nos atravessa com crueza, tirando o chão sob os nossos pés. E o que resta para além da angústia, do medo, do luto e da vontade pueril que o ano atravesse o portal do tempo levando com ele tudo isso que já não sabemos lidar? Resta o desejo.

Para a psicanálise, o desejo é aquilo que, não tendo objeto que o satisfaça na realidade, nos coloca em constante movimento. Nas palavras da psicanalista Ana Suy “desejo é movimento que não nos deixa descansar. Paradoxalmente, é no movimento desejante que a gente encontra algum tipo de paz”. Desejar, portanto, é o que nos mantêm vivos; ou melhor, nos faz sentir que, apesar de tudo, estamos vivos.

Para 2022, portanto, desejo que haja desejo!

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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre Destaque Notícias do Jornal

O ofício do poeta , fazer do historiador: a invenção do passado por Manoel de Barros

O conhecimento histórico é um conhecimento relativo ao tempo histórico. Assim, se no século 19, no auge das grandes revoluções, quando o  conhecimento historiográfico ganhava sentido,  o “fazer história” significava recuperar o passado nacional e os grandes feitos da civilização, na atualidade, com a queda dos mitos de fundações e o questionamento da racionalidade e do determinismo histórico, chega-se à conclusão que o conhecimento não se refere a uma realidade objetiva, mas parte de representações subjetivas do mundo. O homem descobre o mundo como linguagem – lugar de invenção.

Daí parte a associação entre História e Literatura. Embora a narrativa histórica não tenha a estrutura de uma narrativa ficcional, ela se alicerça sobre a invenção, sobre a recriação de uma realidade que é sempre subjetiva e que por mais que seja contada, sempre deixa algo a dizer.

No que tange à Literatura, aquele que a escreve sabe que por mais que se diga, há sempre um por dizer que escapa ao fio da linguagem.  E no vácuo entre o dito e o não dito reside a verdade de todo escritor. Ali, onde o elo falta, a imaginação cria e recria, e as letras que bordeiam as páginas ganham vida, estatuto de verdade, independente da fantasia que supostamente comporte.

Manoel de Barros, poeta brasileiro nascido em Cuiabá, Moto Grosso, em dezembro de 1916, talvez tenha sido o escritor que mais se aproximou do fazer história de nosso tempo. Expressando o caráter fragmentário de nossa experiência, dedicou-se à invenção de coisas e mundos. A verdade, portanto, era o que cabia nas suas palavras. “Tudo que não invento é falso”, afirmava  o poeta.

Retirando o olhar do grandioso e heroico para o ínfimo, “deu valor às coisas desimportantes e aos seres desimportantes” – aguçados ao seu próprio olhar. Manoel, “aparelhado para gostar de passarinhos”, derrubou as versões hegemônicas da memória dos vencedores e  versou sobre o ordinário.  “Amou o resto como as boas moscas”, tal qual o historiador da micro-história que recria a realidade a partir do olhar para o que a maioria não vê.

Em tempos de desmoronamento de valores, crenças e certezas, dar valor a quem constrói mundos com palavras retiradas das nossas ruínas, dá dignidade e sentido a nossa existência. Se já não damos contas de escavar catacumbas e ressuscitar o passado para nos ensinar suas lições, resta-nos os poetas para nos ensinar que “[as] palavras estão fatigadas de informar (…)”, elas querem transcender; criar pontes entre às memórias e as coisas.

Neste mês de novembro, completamos sete anos sem o poeta pós-Modernista. Com sua sabedoria de fazedor de poemas, Manoel de Barros nos mostrou que “a palavra é nascedouro que acaba compondo a gente.” Ou seja, a linguagem é o lugar de invenção da realidade. Por isso, “há histórias tão verdadeiras que parecem inventadas”, pois a história é invenção de versões concebíveis à nossa trajetória no tempo e espaço.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre Destaque Notícias do Jornal

Liberdade, insegurança e solidão em tempos de relacionamentos líquidos

Em 1920, acometido pelas questões de sua época, Freud escrevia em Mal-estar na Civilização que a sociedade havia trocado uma parcela das suas possibilidades de liberdade por uma parcela de segurança. Em seu livro Mal-estar na pós-modernidade, Bauman faz uma atualização da frase freudiana ao dizer que na pós-modernidade nós trocamos uma parcela de segurança por uma parcela de liberdade.

De fato, tendo como uma das suas principais prerrogativas a liberdade individual, o capitalismo ampliou ao extremo as liberdades de escolha, o que resultou numa diminuição da segurança. Os medos e incertezas trazidas pelos nossos tempos estão indubitavelmente atrelados a essa liberdade sem freios que nos condiciona a relações cada vez mais frágeis.

Se hoje, com o advento das redes, se fez possível nos conectarmos a cada vez mais pessoas, a impessoalidade do mundo virtual somada a liberdade que ele nos proporciona nos permite curtir, descurtir, dar match, cancelar pessoas com um simples toque. Ou seja, essa liberdade de escolha reserva também uma liberdade de substituição.

As pessoas se tornaram dispensáveis. Nos transformamos em ilhas e envoltos por um mar de tecnologias estamos aptos a viver a solidão dos tempos pós-modernos.

Conjugamos relações com consumo e fazemos delas meras utilidades com prazo de validade determinado pelo interesse, seja ele qual for.
Estamos cada vez mais nos adaptando á frouxidão dos laços, ao desprendimento nas relações. Ninguém se impõe o trabalho do esmero, do zelo no trato que requer paciência e empenho. Ninguém mais quer suportar o fastio, as dores emocionais, as desilusões costumeiras do convívio cotidiano.

Relacionar-se é trabalhoso. O confronto de pensamentos, valores, hábitos gera desconforto. Sentimento esse extremamente evitado na moderna sociedade do bem-estar. Por isso, ao primeiro sinal de incômodo, desfazem-se laços. Na lógica capitalista, mercantilizamos as relações. Se o “produto” demonstra defeito, jogamos fora, o substituímos.

Foi-se o tempo de reparar arestas. O perdão agora é démodé. Não precisamos consertar relacionamentos quebrados, porque o tempo é outro, é o tempo do desapego. Aliás, liberdade na nossa sociedade pressupõe desapego. Chegou o tempo que a liberdade de escolha é tão grande que já não somos capazes de suportar quaisquer incômodos e desconfortos causados por outrem. Nesse contexto, esvazia-se o diálogo e maximizam-se as intolerâncias, porque a ordem é prescindir.

No entanto, as consequências dessa liberdade demasiada é o medo que essa fragilidade nos laços tem nos causado. Nos sentimos todos inseguros e solitários. De seres gregários, condição para nossa segurança em sociedade, passamos a viver uma solidão disfarçada. Nos bares, nas festas, nas praias, nos transformamos numa multidão de gente sozinha.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | Associação Livre

Das mulheres loucas aos desajustados sociais: quando gênero e classe determinam a saúde mental

Problemas de saúde mental têm se tornado cada vez mais comuns em todo o mundo e se revelam preocupantes no Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 86% dos brasileiros sofrem com algum transtorno mental, como ansiedade e depressão.

Recentemente,  um trabalho publicado na The Lancet demonstrou a importância dos fatores sociais no desencadeamento  de vários transtornos mentais. O caráter social da doença mental se expressa nas diferentes formas como ela incidi  em homens e mulheres e em diferentes classes sociais.

De acordo com o Caderno de Saúde Pública divulgado em 2019, há uma prevalência de Transtornos Mentais Comuns (TMC), tais como depressão e ansiedade,  em mulheres e pessoas de baixa renda.

No entanto, se marcadores como gênero e classe têm se mostrado como principais condições para o sofrimento psíquico na contemporaneidade,  a História vem nos lembrar que a loucura, nome genérico atribuído a transtornos mentais e “desvios sociais” diversos ao longo do tempo, sempre esteve associada às mulheres e aos menos favorecidos, mas não somente como consequência do machismo e do preconceito, e sim como forma de perpetrá-los.

Foi na Grécia Antiga que se ouviu falar pela primeira vez em Histeria, que se referia a perturbações no útero, hystera em grego. Hipócrates, pai da medicina, afirmava que a causa da histeria seria um movimento irregular de sangue do útero para o cérebro, que causava a desordem existente nas mulheres.

Ao longo da Idade Média,  mulheres  pobres e de origem rural eram chamadas de bruxas e levadas à fogueira pela Santa Inquisição. A transgressão à ordem moral, o livre exercício da sexualidade e a existência fora do casamento, além da classe social, foram fatores preponderantes para que essas mulheres fossem associadas à loucura.

No século XVIII, com a ascensão da psiquiatria e do capitalismo industrial, a combinação entre loucura e modo de produção capitalista possibilitou a adoção de critérios de utilidade e produtividade que ensejou a internação dos “desajustados sociais”; indivíduos considerados incapazes para o trabalho, como mendigos, alcoólatras, prostitutas e pobres de toda ordem. Também nesta época, a internação era o destino das mulheres que se furtavam ao seu papel “natural” na sociedade e insistiam em viver suas escolhas fora das normas impostas.

Chegando aos dias de hoje, a violência  física e psicológica impingida pelo machismo e misoginia e o abismo social que leva ao desemprego, insegurança alimentar e pauperização de milhares de brasileiros, apresentam-se como situações geradoras de traumas diversos que estão na gênese de muitos dos transtornos mentais que acometem essas populações.