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Caroline Rodrigues Ribeiro | História e Política Colunas Destaque Diário do Rio

O Mal-estar na atualidade

Nos corredores dos shoppings centers, consumidores transitam de olho nas vitrines, atrás da última tendência. Nas academias, sempre lotadas, o sonho do corpo ideal, em alta entre os influenciadores fitness
da internet. Nas redes sociais, o sucesso é um imperativo e, longe de ser um resultante de múltiplos fatores, é uma simples combinação de esforço e determinação – vociferam os coaches badalados do instagram. Para todo lado que se olha, promessas de felicidade ininterrupta, vida dos sonhos, conto de fadas. Alheios à humanidade
que nos constitui, parece que todos estamos em uma batalha por tamponar as faltas, os furos, os vazios (tão necessários), seguindo o caminho utópico da completude, cujo o destino não é outro senão um
mal-estar sem fim.

De acordo com o psicanalista francês Jacques Lacan, a entrada do sujeito na esfera discursiva, ou seja, no campo do simbólico, implica em uma perda estrutural que constitui o ser falante como faltante. Dito
de outra forma, quando tivemos que expressar, além do balbucio e do grito, o nosso desejo diante do mundo, a impossibilidade de encontrarmos uma representação para tal, atou o desejo à falta. E é esse desejo, sempre faltante, que nos põe em movimento. Nas sábias palavras de Rubem Alves: “é no vazio do jarro que se colocam flores”. Embora soe um paradoxo, é o vazio o que nos constitui como sujeitos do desejo.

Desta forma, a inscrição do sujeito na cultura se dá pela assimilação
de preceitos éticos e morais, que servem para estabelecer limites às nossas forças pulsionais. Isto é, o processo de subjetivação depende do “controle” das nossas pulsões no campo das representações simbólicas, do reconhecimento de que somos sujeitos faltantes e de que, por isso, existe um limite à satisfação de nossas demandas. Entretanto, o que se
percebe é que, indo na contramão dessa lógica, a falta de limites característica da sociedade capitalista contemporânea vem representando um risco no desenvolvimento dos sujeitos na sociedade.

O capitalismo se apropria e incentiva a produção e consumo compulsivos de objetos, ignorando a barra à satisfação total do desejo e alimentando uma ilusão de completude. Nesta esteira, há uma ascensão do objeto em detrimento do sujeito, que os coloca à mercê de um novo tipo de mal-estar, específico da atualidade.

Percebemos que, na antiga sociedade disciplinar, os sintomas surgiam do conflito existente entre as demandas pulsionais e a censura advinda das normas de socialização. O sofrimento psíquico, nesse sentido, surgia em resposta à polaridade conflitual do indivíduo, marcada pela repressão. Na atualidade, o modelo disciplinar cede lugar a normas que
incitam à iniciativa pessoal. As ações do indivíduo passam da permissão social à flexibilização das leis – para que haja cada vez mais consumo -, o que resulta no imperativo às demandas de desempenho e alta performance – para que o sujeito dê conta de produzir e consumir-, levando-o a “patologias da insuficiência”, como a depressão, a ansiedade, o esgotamento e as compulsões.

O que se evidencia é que, por se tratar de um movimento ininterrupto, já que o capitalismo se engendra a partir desse mecanismo de oferta e demanda para um mesmo sujeito, há implosão (por esgotamento)
no corpo desse sujeito – em forma de sintomas específicos desta época – e explosão para fora desse sujeito, destinado ao outro – em forma de atos de violência e agressividade. Ambos incorrendo em um processo de dessubjetivação.

Em suma, torna-se cada vez mais notório que a redução dos sujeitos à consumidores, reificando o objeto em detrimento do ser, representa a causa do mal-estar na contemporaneidade. Patologias da insuficiência
e violência são, portanto, os sintomas de um mal que parece irremediável, o sistema capitalista e sua negação da falta.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | História e Política Colunas Destaque Diário do Rio Notícias do Jornal

Para 2022 desejo que haja desejo

E, finalmente, eis que o ano de 2021 vai se encerrando. Um ano difícil, que parece ter se entrelaçado ao ano de 2020, nos deixando a impressão que não chegaria ao fim. Marcado por vórtices de sentimentos, da angústia à esperança, 2021 foi um ano inquietante.

No desassossego de nossas lutas diárias, todos nós, em algum grau, sofremos o peso da rotina fatigante de uma pandemia que se arrasta e suas diversas consequências psíquicas e emocionais; o que tornou, particularmente, mais estressante um período que, apesar de reservar um caráter de união e alegria, costuma nos deixar à flor da pele.

Segundo uma pesquisa do Isma-Brasil, o nível de estresse do brasileiro sobe, em média, 75% no final de cada ano. Tendo em vista os tempos inóspitos em que vivemos, não é difícil constatarmos que estamos em um momento delicado, em que se faz necessário um maior cuidado com a nossa saúde mental.

Se o fim de ano, geralmente, leva a um desequilíbrio emocional marcado, por um lado, por depressões e ansiedades sazonais, e, por outro, por um empuxo aos excessos, neste fim de ano, a profusão de sentimentos desconexos parece ter nos tomado de assalto; a tal ponto que é comum encontramos sujeitos que estão muito mais empolgados pelo fim de 2021 do que, propriamente, pelo início de 2022.

É como se navegássemos num mar revolto de sentimentos e sensações, totalmente desbussolados. À deriva na nossa radical humanidade, neste momento que nos surpreendemos nus diante da vida. Vulneráveis. Aquilo que não somos capazes de nomear nos atravessa com crueza, tirando o chão sob os nossos pés. E o que resta para além da angústia, do medo, do luto e da vontade pueril que o ano atravesse o portal do tempo levando com ele tudo isso que já não sabemos lidar? Resta o desejo.

Para a psicanálise, o desejo é aquilo que, não tendo objeto que o satisfaça na realidade, nos coloca em constante movimento. Nas palavras da psicanalista Ana Suy “desejo é movimento que não nos deixa descansar. Paradoxalmente, é no movimento desejante que a gente encontra algum tipo de paz”. Desejar, portanto, é o que nos mantêm vivos; ou melhor, nos faz sentir que, apesar de tudo, estamos vivos.

Para 2022, portanto, desejo que haja desejo!

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Caroline Rodrigues Ribeiro | História e Política Destaque Notícias do Jornal

O ofício do poeta , fazer do historiador: a invenção do passado por Manoel de Barros

O conhecimento histórico é um conhecimento relativo ao tempo histórico. Assim, se no século 19, no auge das grandes revoluções, quando o  conhecimento historiográfico ganhava sentido,  o “fazer história” significava recuperar o passado nacional e os grandes feitos da civilização, na atualidade, com a queda dos mitos de fundações e o questionamento da racionalidade e do determinismo histórico, chega-se à conclusão que o conhecimento não se refere a uma realidade objetiva, mas parte de representações subjetivas do mundo. O homem descobre o mundo como linguagem – lugar de invenção.

Daí parte a associação entre História e Literatura. Embora a narrativa histórica não tenha a estrutura de uma narrativa ficcional, ela se alicerça sobre a invenção, sobre a recriação de uma realidade que é sempre subjetiva e que por mais que seja contada, sempre deixa algo a dizer.

No que tange à Literatura, aquele que a escreve sabe que por mais que se diga, há sempre um por dizer que escapa ao fio da linguagem.  E no vácuo entre o dito e o não dito reside a verdade de todo escritor. Ali, onde o elo falta, a imaginação cria e recria, e as letras que bordeiam as páginas ganham vida, estatuto de verdade, independente da fantasia que supostamente comporte.

Manoel de Barros, poeta brasileiro nascido em Cuiabá, Moto Grosso, em dezembro de 1916, talvez tenha sido o escritor que mais se aproximou do fazer história de nosso tempo. Expressando o caráter fragmentário de nossa experiência, dedicou-se à invenção de coisas e mundos. A verdade, portanto, era o que cabia nas suas palavras. “Tudo que não invento é falso”, afirmava  o poeta.

Retirando o olhar do grandioso e heroico para o ínfimo, “deu valor às coisas desimportantes e aos seres desimportantes” – aguçados ao seu próprio olhar. Manoel, “aparelhado para gostar de passarinhos”, derrubou as versões hegemônicas da memória dos vencedores e  versou sobre o ordinário.  “Amou o resto como as boas moscas”, tal qual o historiador da micro-história que recria a realidade a partir do olhar para o que a maioria não vê.

Em tempos de desmoronamento de valores, crenças e certezas, dar valor a quem constrói mundos com palavras retiradas das nossas ruínas, dá dignidade e sentido a nossa existência. Se já não damos contas de escavar catacumbas e ressuscitar o passado para nos ensinar suas lições, resta-nos os poetas para nos ensinar que “[as] palavras estão fatigadas de informar (…)”, elas querem transcender; criar pontes entre às memórias e as coisas.

Neste mês de novembro, completamos sete anos sem o poeta pós-Modernista. Com sua sabedoria de fazedor de poemas, Manoel de Barros nos mostrou que “a palavra é nascedouro que acaba compondo a gente.” Ou seja, a linguagem é o lugar de invenção da realidade. Por isso, “há histórias tão verdadeiras que parecem inventadas”, pois a história é invenção de versões concebíveis à nossa trajetória no tempo e espaço.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | História e Política Destaque Notícias do Jornal

Liberdade, insegurança e solidão em tempos de relacionamentos líquidos

Em 1920, acometido pelas questões de sua época, Freud escrevia em Mal-estar na Civilização que a sociedade havia trocado uma parcela das suas possibilidades de liberdade por uma parcela de segurança. Em seu livro Mal-estar na pós-modernidade, Bauman faz uma atualização da frase freudiana ao dizer que na pós-modernidade nós trocamos uma parcela de segurança por uma parcela de liberdade.

De fato, tendo como uma das suas principais prerrogativas a liberdade individual, o capitalismo ampliou ao extremo as liberdades de escolha, o que resultou numa diminuição da segurança. Os medos e incertezas trazidas pelos nossos tempos estão indubitavelmente atrelados a essa liberdade sem freios que nos condiciona a relações cada vez mais frágeis.

Se hoje, com o advento das redes, se fez possível nos conectarmos a cada vez mais pessoas, a impessoalidade do mundo virtual somada a liberdade que ele nos proporciona nos permite curtir, descurtir, dar match, cancelar pessoas com um simples toque. Ou seja, essa liberdade de escolha reserva também uma liberdade de substituição.

As pessoas se tornaram dispensáveis. Nos transformamos em ilhas e envoltos por um mar de tecnologias estamos aptos a viver a solidão dos tempos pós-modernos.

Conjugamos relações com consumo e fazemos delas meras utilidades com prazo de validade determinado pelo interesse, seja ele qual for.
Estamos cada vez mais nos adaptando á frouxidão dos laços, ao desprendimento nas relações. Ninguém se impõe o trabalho do esmero, do zelo no trato que requer paciência e empenho. Ninguém mais quer suportar o fastio, as dores emocionais, as desilusões costumeiras do convívio cotidiano.

Relacionar-se é trabalhoso. O confronto de pensamentos, valores, hábitos gera desconforto. Sentimento esse extremamente evitado na moderna sociedade do bem-estar. Por isso, ao primeiro sinal de incômodo, desfazem-se laços. Na lógica capitalista, mercantilizamos as relações. Se o “produto” demonstra defeito, jogamos fora, o substituímos.

Foi-se o tempo de reparar arestas. O perdão agora é démodé. Não precisamos consertar relacionamentos quebrados, porque o tempo é outro, é o tempo do desapego. Aliás, liberdade na nossa sociedade pressupõe desapego. Chegou o tempo que a liberdade de escolha é tão grande que já não somos capazes de suportar quaisquer incômodos e desconfortos causados por outrem. Nesse contexto, esvazia-se o diálogo e maximizam-se as intolerâncias, porque a ordem é prescindir.

No entanto, as consequências dessa liberdade demasiada é o medo que essa fragilidade nos laços tem nos causado. Nos sentimos todos inseguros e solitários. De seres gregários, condição para nossa segurança em sociedade, passamos a viver uma solidão disfarçada. Nos bares, nas festas, nas praias, nos transformamos numa multidão de gente sozinha.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | História e Política

Das mulheres loucas aos desajustados sociais: quando gênero e classe determinam a saúde mental

Problemas de saúde mental têm se tornado cada vez mais comuns em todo o mundo e se revelam preocupantes no Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 86% dos brasileiros sofrem com algum transtorno mental, como ansiedade e depressão.

Recentemente,  um trabalho publicado na The Lancet demonstrou a importância dos fatores sociais no desencadeamento  de vários transtornos mentais. O caráter social da doença mental se expressa nas diferentes formas como ela incidi  em homens e mulheres e em diferentes classes sociais.

De acordo com o Caderno de Saúde Pública divulgado em 2019, há uma prevalência de Transtornos Mentais Comuns (TMC), tais como depressão e ansiedade,  em mulheres e pessoas de baixa renda.

No entanto, se marcadores como gênero e classe têm se mostrado como principais condições para o sofrimento psíquico na contemporaneidade,  a História vem nos lembrar que a loucura, nome genérico atribuído a transtornos mentais e “desvios sociais” diversos ao longo do tempo, sempre esteve associada às mulheres e aos menos favorecidos, mas não somente como consequência do machismo e do preconceito, e sim como forma de perpetrá-los.

Foi na Grécia Antiga que se ouviu falar pela primeira vez em Histeria, que se referia a perturbações no útero, hystera em grego. Hipócrates, pai da medicina, afirmava que a causa da histeria seria um movimento irregular de sangue do útero para o cérebro, que causava a desordem existente nas mulheres.

Ao longo da Idade Média,  mulheres  pobres e de origem rural eram chamadas de bruxas e levadas à fogueira pela Santa Inquisição. A transgressão à ordem moral, o livre exercício da sexualidade e a existência fora do casamento, além da classe social, foram fatores preponderantes para que essas mulheres fossem associadas à loucura.

No século XVIII, com a ascensão da psiquiatria e do capitalismo industrial, a combinação entre loucura e modo de produção capitalista possibilitou a adoção de critérios de utilidade e produtividade que ensejou a internação dos “desajustados sociais”; indivíduos considerados incapazes para o trabalho, como mendigos, alcoólatras, prostitutas e pobres de toda ordem. Também nesta época, a internação era o destino das mulheres que se furtavam ao seu papel “natural” na sociedade e insistiam em viver suas escolhas fora das normas impostas.

Chegando aos dias de hoje, a violência  física e psicológica impingida pelo machismo e misoginia e o abismo social que leva ao desemprego, insegurança alimentar e pauperização de milhares de brasileiros, apresentam-se como situações geradoras de traumas diversos que estão na gênese de muitos dos transtornos mentais que acometem essas populações.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | História e Política Diário do Rio Notícias do Jornal

História e política: “Amar é dar o que não se tem”

Há quem diga que quem nunca ficou meio borocoxô escutando Marília Mendonça não amou de verdade. Afinal, amar e sofrer é uma combinação tão perfeita que não à toa domina canções, livros, novelas. O que não faltam são desencontros amorosos e amantes chorosos prontos para se deleitarem com aquela história de amor imperfeito que é só sofrimento e identificação. Mas, de onde vem essa ideia de que todos estamos fadados a sofrer por amor?

Revisando a história do amor no Ocidente, é possível perceber as diferentes configurações do amor produzidas ao longo do tempo. É na Grécia Antiga que encontramos o primeiro tratado filosófico sobre o amor: O Banquete de Platão. Nele nos deparamos com a noção do amor como algo Bom, Belo e Verdadeiro; sentimento único, universal e intrínseco à natureza humana, relacionado à permanência e que, portanto, escapa à frivolidade da atração sexual e sentimental.

Chegando à Idade Média, encontramos o amor reproduzido sob a égide do Cristianismo. O amor verdadeiro seria, portanto, um sentimento voltado para algo que transcende a vida mundana e aspira à eternidade. Nessa esteira, o casamento se configurava como espaço a fim da propagação dos filhos de Deus pela constituição da família.

Em resposta a este cenário, surge no séc. XII o amor cortês como uma recusa aos padrões estabelecidos pela Igreja, enfatizando o aspecto do amor-paixão enquanto sofrimento e renúncia ao objeto de desejo. Há, portanto, uma laicização do objeto de amor, onde a mulher, a dama cortejada, entra em cena como objeto do amor idealizado.

Na Modernidade, fundindo elementos das reproduções anteriores, o amor ganha a forma do amor-romântico, um sentimento universal, sem o qual não há felicidade, pré-requisito para realização pessoal e onde não são estabelecidas diferenciações claras entre amor, paixão e atração. isto é, um amor marcado por idealizações, sobretudo de completude. Paradoxalmente, esse amor tende a se manifestar de maneira frívola e efêmera, pois, ancorado em um ideal de perfeição inalcançável, acaba por lançar o sujeito em constante insatisfação e consequente sofrimento.

À procura da metade da laranja o sujeito contemporâneo não percebe que os encontros amorosos se dão como plugs de três pinos que não se encaixam em tomadas de dois furos. É o que demonstra Jacques Lacan, psicanalista francês, quando aponta que o amor não existe sem o desejo e este, por sua vez, não existe sem a falta, visto que não se procura o que já se tem, busca-se a partir de uma falta. Ou seja, a associação inescapável que se faz entre amor e sofrimento na atualidade se dá por essa constante negação da incompletude dos laços amorosos. Afinal, o amor não funciona como um bloco de encaixe, e sim como exercício de respeito à alteridade.

Carolina Rodrigues Ribeiro
Graduada em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e pós-graduada em Ciência Política pela Universidade Cândido Mendes.

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Caroline Rodrigues Ribeiro | História e Política Notícias do Jornal

No embate isolamento social x economia quem perde é o povo

 

Por: Carolina Rodrigues Ribeiro (Graduada em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e pós-graduada em Ciências Políticas pela Universidade Cândido Mendes) 

Em meio a maior crise sanitária da história, muitas questões têm surgido para embate público. Dentre elas, as ações de prevenção e controle da disseminação do coronavírus, com formas de distanciamento social menos ou mais rígidas e medidas de caráter econômico visando a manutenção da capacidade financeira de empresas e auxílio aos trabalhadores.

Medidas restritivas mais rígidas têm sido adotadas. Mas o forte impacto econômico, sobretudo o agravamento do desemprego e da fome, evidenciam a necessidade de superação do maniqueísmo isolamento social versus economia e a adoção de medidas que, de fato, garantam segurança física e financeira à população.

Com a pandemia, houve um salto na taxa de pobreza extrema no Brasil, com cerca de 27 milhões de pessoas vivendo em situação de miséria e insegurança alimentar grave, segundo dados da FGV. De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Data Favela, em parceria com a Locomotiva – Pesquisa e Estratégica e a Central única das Favelas, com o fim do auxílio emergencial, 68% dos moradores de 76 favelas brasileiras não tem dinheiro para comprar comida. Tais dados apontam para a necessidade da intervenção estatal na economia como forma de mitigar os danos provocados pela crise sanitária. Na ausência de políticas públicas contundentes, quaisquer medidas restritivas rígidas serão insuficientes e incorrerão no agravamento da situação.

Ou seja, ao invés de apelarmos a um moralismo sanitário que busca culpabilizar a população, principal vítima da péssima gestão da pandemia, o apelo deve ser direcionado à responsabilização do Estado na contenção da crise, garantindo a implementação de medidas macroeconômicas emergenciais eficientes, como a criação de linha de crédito emergencial com taxas atrativas para pequenas e medias empresas, efetivação de um programa de renda universal decente – que viabilize a adoção das medidas profiláticas necessárias -, bem como a mobilização prioritária de recursos orçamentários para o sistema de saúde e para compra de vacinas.