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Destaque Eduardo Okayama | Lâminas do Cotidiano

MEU AMIGO CHARLIE

A kombi verde oliva flanava pelas ruas da grande cidade, levando meninos entre oito e doze anos, todos judocas mirins com seus quimonos brancos e faixas brancas, azuis e roxas. Quem conduzia o veículo encantado era um humilde homem de ascendência japonesa, que no alto de seus 1,50 m de altura, era venerado por todos os garotos.

Também pudera! Quando o mestre Getúlio vestia seu uniforme de guerra e amarrava na cintura a faixa preta ornada por inscrições douradas, transformava-se no mais espetacular judoca de toda a cidade. Seus golpes precisos eram conhecidos pelos adversários, mas ele era simplesmente imparável e estava invicto em campeonatos nacionais por 4 anos.

A bordo da kombi por volta das 8 horas da noite, em direção à academia para mais um treino semanal, os dozes meninos se esbaldavam. Falavam ininterruptamente contando o que tinha acontecido durante o dia, enquanto no rádio ouvia-se músicas italianas antigas que mestre Getúlio adorava.

Entre todas as crianças, havia uma particularmente peculiar.

Cabelos cacheados, olhos esverdeados, corpo franzino, mas extremamente inteligente e engraçado.

No entanto, era péssimo judoca. Na verdade, começou a lutar seguindo a recomendação médica para melhorar a asma crônica. No tatame perdia as lutas o mais rapidamente possível para ter tempo livre e ficar papeando com os outros meninos sobre futebol e rock.

Seu nome era Charlie e era o meu grande amigo no judô. Eu frequentava a sua casa e conhecia toda a família, além de irmos juntos aos jogos do São Paulo no estádio do Morumbi, todo final de semana.

A vida das crianças de dez anos de idade é realmente encantada. Ouvíamos entusiasmados os discos do grupo inglês Queen. Comentávamos sobre as garotas mais bonitas do bairro e no final de cada treino, com permissão do sansei, íamos à doceria ao lado e nos empanturrávamos com balas, sorvetes e chocolates.

A kombi verde oliva flanava pelas ruas da grande cidade. Mas o tempo passou muito rápido, envelheci e perdi contato com a turma de jovens samurais.

Quase 40 anos se passaram e eu estava junto à minha esposa e meus 4 filhos, preparando o habitual churrasco do domingo, quando o telefone tocou. Para minha surpresa, era um daqueles garotos de antigamente que havia me encontrado dias atrás no Instagram.

Falamos animadamente sobre os velhos tempos e eu perguntei sobre Charlie, o menino de olhar maroto e cabelos cacheados.

– Poxa cara, você não sabe!

– O Charlie morreu há mais de vinte anos de cirrose hepática.  Ele não aguentou o baque por ter perdido a namorada e começou a beber.

Desliguei o telefone, dei uma desculpa à Marisa e aos meus pequenos e me tranquei no quarto para relembrar a infância. Procurei no computador “we are the champions” do Queen. Ouvi a música várias e várias vezes e, quando voltei à sala de estar, tive uma certeza: mesmo cinquentão eu vou voltar ao judô!

Quero que você saiba disso, Charlie: meu regresso e minha primeira vitória nos tatames serão em homenagem à nossa inesquecível amizade.

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Destaque Eduardo Okayama | Lâminas do Cotidiano

A morte e as cambalhotas em Copacabana

Basta que alguma celebridade morra trágica e inesperadamente, para que a comoção tome conta do Brasil inteiro. Acho justíssimo o sofrimento de quem lamenta a perda de uma pessoa importante e única, encravada no mais afetuoso lado esquerdo do peito. Enterrar nossos mortos, com efeito, talvez seja um dos atos mais difíceis e ao mesmo tempo, mais heroicos de nossa condição humana.
Basta, portanto, que lamentemos a morte de alguém conhecido nacionalmente, para que as mídias sociais sejam invadidas por um sem-número de frases doces e acolhedoras que, a despeito de conterem certa veracidade, padecem daquilo que a filosofia chama de truísmos ou Flatus Vocis, banalidades empobrecedoras.
Então lemos no Instagram ou no Facebook, algo como: “a vida é um sopro e, sendo assim, temos que realizar os nossos desejos imediatamente, sem adiarmos por um segundo sequer o beijo na mãe querida, a declaração de amor ao amado ou a sonhada viagem a Paris”.
Ora, o fato de realizarmos nossos desejos aqui e agora, em nada ameniza a temeridade e a ubíqua presença da morte. Posso gritar como um alucinado na rua, dar cambalhotas no calçadão de Copacabana, consumir as guloseimas da tia Marilda até o desfalecimento do fígado, entregar-me a todo tipo de prazer sensorial, beber um tonel de vinho chileno e nada disso afastará a angústia e inevitabilidade da morte em meu coração. “A grande morte que nos habita não sofre de ansiedade porque sempre terá a última palavra”, asseverou o poeta alemão Rilke.
Mas o que os sábios do Ocidente e do Oriente têm a nos dizer sobre a precariedade do ser humano perplexo e solitário diante do colapso inevitável de sua existência? Algo que julgo importantíssimo, pois traz a filosofia e a ciência das religiões a serviço de nosso aperfeiçoamento humano.
Se não podemos vencer a morte, se ela sempre sairá sorridente da luta final, ao menos podemos, com nobreza e coragem, enfrentá-la racionalmente. Os gregos davam o nome de Areté e Mutatis Mutantis, os hindus chamam de Dharma, o processo anímico pelo qual encontramos o nosso lugar no cosmos, a fim de realizarmos o melhor de nosso talento intelectual no dia a dia.
Se você for um balconista de farmácia, por exemplo, apesar do salário baixo e do pouco reconhecimento social, deverá ser o MELHOR e mais preparado balconista da cidade. Atento, prestimoso, profundo conhecedor dos receituários médicos e seus enigmas intraduzíveis. Se você for um vendedor de viagens ao exterior, deverá ser também o MELHOR dos vendedores. Atencioso e educado com os clientes.
Transformar cotidianamente o banal em excepcional, infundindo beleza às nossas simples ações, significa transfigurar a vida, efêmera e contingente, numa obra de arte. E quando a indesejada da gente chegar, como disse o poeta Manuel Bandeira, vai encontrar um ser humano guerreiro, capaz de olhá-la bem no fundo dos olhos e dizer: a vitória é tua como sempre, mas a dignidade e a honra diante do desigual combate foram somente minhas.