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A solidão dos átomos terapêuticos

Os místicos de várias religiões argumentam que a solidão é condição fundamental para termos um contato direto com a divindade. Este raciocínio pressupõe que o barulho produzido pelos seres humanos, principalmente nos grandes aglomerados comerciais, dificulta enormemente a escuta da palavra de Deus. Em outros termos, quando os homens falam, Deus fica com tédio, se aborrece e sai de fininho de cena.

Chamemos de positiva ou ascética este primeiro tipo de solidão e dela nos ocuparemos em outra oportunidade. O que nos preocupa agora é outro tipo de patologia social, aquela que os sociólogos de cariz durkheimiana reputam como falta de vínculos sociais ou, simplesmente, anomia. Neste segundo caso, Deus afastou-se do mundo e, quanto mais os homens falam, menos queremos ouvi–los, uma vez que estes ruídos nos são indiferentes ou ao menos não nos dizem respeito diretamente.

A imagem que me vem à mente é de uma enorme tela de televisão, vociferando palavras ao vento, enquanto a multidão passa ao largo, rumo aos afazeres cotidianos. Não é por acaso que países como a Inglaterra ou o Japão criaram os ministérios da solidão, ocupados do gravíssimo problema de milhões e milhões de indivíduos que se sentem ensimesmados, perdidos em um mundo atulhado por pessoas impassíveis às suas existências. Disso decorre uma quantidade expressiva e aparentemente incontrolável de suicídios, crises de sociabilidade de todas as espécies, fobias generalizadas, etc. Sem falar no número de pessoas que consomem diariamente antidepressivos, ansiolíticos ou controladores de atenção neurovegetativa.

Trata-se de um emblemático sintoma da solidão contemporânea que diz respeito a anciãos já muito vividos e jovenzinhos de 12, 13 anos de idade. No caso da Inglaterra, o adolescente sai de casa quando termina o ensino médio, vai para um centro grande, estuda em faculdades, começa algum tipo de relacionamento romântico, acaba por morar com o companheiro ou companheira, para logo a seguir voltar a ficar solteiro. Filhos são cada vez mais raros e os pais e a família como um todo passam a ser figuras distantes, enevoadas, perdidas na memória. Em outro âmbito, o trabalho com seu intrínseco anonimato (aqui o que importa é a performance no cargo, as funções requeridas, independentemente das pessoas de carne e osso que as ocupam) acaba sendo uma fonte de frustração também. Afinal de contas, você não é o Eduardo ou a Cristina com suas preferências estéticas ou singularidades psíquicas, mas apenas o gerente de relacionamento ou o analista júnior de tal ou qual empresa.

Ademais, a própria habitação nas gigantescas cidades tende a fazer do ser humano alguém atomizado, invisibilizado em enormes condomínios, onde mal sabemos o nome do nosso vizinho do andar de cima ou mesmo conhecemos aqueles que dividem os espaços de lazer conosco. A solidão dos átomos terapêuticos é a solidão de quem precisa pagar para ter amigos (há agências deste tipo em inúmeras cidades do Japão) ou contratar figurantes para tornar a própria festa de formatura mais animada.

Mas, existem aqueles que, apesar das evidências psicossociais, argumentam que nunca fomos tão livres, tão preocupados com o bem-estar do planeta, nunca a ciência nos prometeu tanto em relação à saúde física e mental. Em geral, estes profissionais ganham fortunas com livros de autoajuda ou estão em consultórios chiques, proclamando aos incautos pacientes: “deixe as amarras de lado, permita-se ser quem você é (seja lá o que signifique isso), liberte-se dos preconceitos impingidos pela sociedade opressiva, patriarcal e cristã”. Claro que, para ouvir estas sábias considerações, alguns estão dispostos a pagar dois, três mil reais por sessão terapêutica.

Eu penso que apenas os poetas podem capturar o drama deste mundo dominado por ideologias niilistas e perceptível no desespero sutil das multidões solitárias. Renato Russo foi direto ao ponto, quando cantou a angústia de uma geração inteira: “parece cocaína, mas é só tristeza”.

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Descrição de uma janela entreaberta

A luz outonal vinda da janela entreaberta espraiava-se pela amplitude da sala de estar, iluminando até mesmo os móveis mais refratários à claridade, como o imenso sofá de couro mobly vindo da Inglaterra, repousando no canto esquerdo do ambiente. No centro uma mesa igualmente robusta refletia a luz fria derramada pela fresta cuidadosamente aberta por mãos humanas ciosas por ventilação e amenidade.

A opulenta e centenária janela, feita de carvalho brasileiro da mais perfeita artesania, convidava-me a lançar os olhos pelas imensidões agrestes do sertão mineiro. E eu de bom grado aceitei o convite, deixando o espírito devanear pelos caminhos azulados das três horas da tarde, quando todos os seres vivos parecem descansar da labuta imposta pelas manhãs tonitruantes de afazeres e compromissos incontornáveis.

Mas, o meu espírito aturdido não buscava repouso nestas paragens de águas plácidas, brotando aqui e ali por entre as pedras calcinadas e agitadas pela ventania das montanhas solitárias de Minas Gerais. Muito pelo contrário. A janela entreaberta emoldurava meus pensamentos como um bloco solente de radículas, enquanto eu buscava, às apalpadelas, encontrar poesia nas ramagens alvejadas pelo calor e que atraíam a atenção de pequenos animais ávidos por um naco, por menor que fosse, da embriaguez da vida oferecida ao observador.

Detive-me então, com mãos curiosas, a investigar melhor a compleição da janela que serpenteava o meu próprio ser. Quantos anos teria a construção esculpida a cortes precisos e matemáticos no carvalho marrom? Quantos seres humanos, matutos ou escorregadiços como eu, teriam se deslumbrado com as paragens bucólicas, eivadas de misteriosos sons emanados dos pássaros, sobretudo os curiós, guaxes e galos-de-campina, multiplicando-se como numa cantata sagrada?

O luzeiro do sol declinava sobre o chão avermelhado e rugoso da sala de estar, mas o cerne do que eu vislumbrava enchia meu intelecto de espanto e muita alegria. 

Como é bom constatar a inteligência humana transformando a matéria bruta da natureza, a majestade do carvalho, em algo útil e belo, para dar-nos moradia em um mundo compartilhado por utensílios como aquela janela que descerrava a paisagem.

À terra sempre estamos a voltar desde a aurora dos tempos. Entranhados neste segredo cósmico aprendemos a cultivar pensamentos sublimes, através de olhares curiosos, como era o meu naquele dia de outono em Minas Gerais.

Pela última vez, então, pus as mãos na madeira imponente e nobre, acariciei-lhe os contornos, fitei as fissuras descoloridas do marrom, enfiei o dedo médio numa fratura, numa lasca nascida no decorrer dos anos e ouvi um som profundo nascido do coração das matas virgens do Brasil. Quis, não saberia explicar a fome ingênua, construir uma filosofia nova, um gesto político que refundasse um mundo pleno de luzes, pássaros, utensílios, madeiras maciças.

Fechei a janela que insistia em seduzir o sol muito vagorosamente como num ritual de celebração à divindade tanta vezes esquecida da condição humana.

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Diante de quem você chora as suas misérias?

Se você chora as suas misérias diante de pessoas anônimas e desconhecidas, saiba que está cometendo um erro gigantesco, porque estes sujeitos serão os primeiros a duvidar da sua sinceridade, além de se aproveitarem de sua fragilidade emocional para perpetrar todo o tipo de maldade, como o sarcasmo ou o deboche, por exemplo.

Se você chora as suas misérias diante dos amigos, tome muito cuidado também. A história humana está cheia de casos em que os supostos companheiros acabaram por trair a confiança daqueles que ingênua e desavisadamente abriram confiantes os devastados corações.

E quanto aos familiares, devemos chorar nossas misérias mais amargas diante deles, uma vez que são o sangue do nosso próprio sangue? A resposta de novo é negativa, pois os membros da família, não raras vezes, são os mesmos que apontam o dedo e dizem sem dó nem piedade: “Tá vendo? A culpa é toda sua!”. “Bem que eu avisei, isso nunca daria certo!”. “Poxa como você é fraco!”.

Mas, então não há saída? Não há ninguém para revelarmos os miasmas mais íntimos? A resposta é peremptória, pois nasce baseada no maior livro já escrito desde a criação do mundo, o Eclesiastes.

Jamais confie seus horrores ao bicho humano. Confie tão somente em Deus, prostre-se diante Dele em silêncio e solidão e confesse os pecados. O Altíssimo já os conhece perfeitamente, mas Ele quer arrancá-los de sua boca trêmula e hesitante. Arrependa-se de todo o mal feito e peça ajuda no que necessitar.

Deus é como um pai generoso, tem o coração mole e acaba dando tudo o que o filho lhe pedir.

Mas, atenção: diante do sagrado não há como mentir ou tergiversar. Portanto, esqueça as desculpas esfarrapadas, retire as máscaras costumeiras e o vitimismo infantil (prevalecente em nossa sociedade) e revele o que vai no mais profundo do seu ser atormentado. Deus quer escutar os momentos nos quais as paixões e os vícios foram irresistíveis. Não tema a confissão das fraquezas, mas perceba o quanto elas te transformaram numa criatura triste e ranzinza.

Concordemos neste ponto: o que é a condição humana, senão uma batalha renhida e ininterrupta contra nós mesmos, nossas impurezas e as manipulações ardilosas do mundo?

No misterioso plano divino está inscrita a frase dourada: “eu quero ver você lutar e lutar e lutar, dia após dia, noite após noite”.

Esta é a essência do nosso cotidiano. Guerreamos o tempo todo contra a morte, as injustiças, a falta de amor, as doenças e os sofrimentos morais.

Mas, em nossos momentos de alegria (poucos é bem verdade) nos sentimos plenos, fortes, extasiados e temos aí uma prévia do que acontecerá um dia, quando estivermos face a face com a luz perene irradiando bem aventurança. Esta luz metafísica é a única capaz de nos consolar e dar autêntica e sólida esperança aos dias precários.

Talvez você argumente, do alto do ceticismo pós-moderno, que não pode tocar o transcendente porque crê nos intelectuais que dizem ser Deus alienação da consciência (Marx) ou ilusão inventada pelos fracos (Nietzsche).

Repitamos: nunca confie nos homens, por mais sábios que eles pareçam ser. Busque a solidão e o silêncio, porque o eterno só pode ser percebido nestas circunstâncias longe do convívio humano. Comece o diálogo devagarzinho e uma voz saindo da claridade lhe dirá amorosamente: “QUE A PAZ ESTEJA CONTIGO”!

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Para ser um homem charmoso

É preciso, acima de tudo, saber escolher as roupas adequadas. Por isso, opte por cores sóbrias e clássicas; entretanto, deve-se acrescer à serenidade um toque exótico. Por exemplo, use o costume azul marinho, adornado por um pequeno lenço liso, vermelho ou azul claro.

O corte é fundamental, dizem os estilistas. O caimento deve ser enxuto e confortável, seguindo o emolduramento do corpo. Usa-se hoje, graças aos italianos, as barras das calças cada vez mais curtas. Elegantíssimas. Exagere nesta tendência porque ela veio para ficar.

Um bom e sofisticado perfume também distingue – e como o faz – o homem charmoso. Prefira sempre os tenramente amadeirados, em especial os fabricados com cedro ou sândalo. Mas, neste caso vale a parcimônia: jamais use a fragrância em demasia, muito pelo contrário, o aroma duradouro e intenso deve impregnar a pele e o ambiente de maneira suave, sem alardes, nem exibicionismos.

Ouse na medida certa e construa um estilo absolutamente próprio! Que tal camisetas customizadas e sem barras, cortadas em decote V, acompanhadas por um bom jeans e tênis sneakers?

Para os irmãos carecas vale a dica de ouro: abusem dos chapéus e gorros em todas as ocasiões e em qualquer hora.

Óculos são um capítulo à parte: invista nas marcas realmente sofisticadas (sim, são caras e difíceis de encontrar, mas valem cada centavo). Minhas preferidas são a francesa Lesca, a alemã Lunor e a inglesa Cutler and Gross. Use modelos pequenos com aros grossos que realcem o alcance e a beleza do olhar. Óculos grandes somente os escuros que podem ultrapassar as sobrancelhas, mas não podem atrapalhar o movimento das maçãs do rosto em eventuais sorrisos.

Homens modernos usam mochilas e não pastas envernizadas, ultrapassadas e algo caretas. Sapatos sociais apenas em eventos específicos. Prefira o despojamento, mas com um toque de (des)elegância punk. Blazer e camisas desestruturadas com cores fortes são uma ótima opção. Relógios paulatinamente vem perdendo força na moda masculina.

Mas essas dicas de nada valem se você não cuidar de sua vida interior e dos gestuais perpetrados neste grande teatro que é o mundo.

Lá vão algumas regras gerais: o homem charmoso sempre fala baixo e discretamente. É educado e atencioso, independentemente da ocasião e das pessoas às quais se dirige. Você sempre vai ouvi-lo dizer bom dia, obrigado, sinta-se à vontade, por favor, etc.

Uma de suas características mais marcantes é o olhar atento e acolhedor, mas nunca invasivo ou bisbilhoteiro. Seu jeito de andar é viril e austero. Os ombros estão sempre aprumados. O tórax é o centro irradiador de sua natural sensualidade. Os passos nunca são excessivamente apressados nem flacidamente lentos.

O homem charmoso desfila com a singeleza de quem conhece todas as belezas e imperfeições humanas. Raramente discute política ou religião ou o que quer que seja, ao contrário, ao invés de perder tempo com vaidades inúteis, prefere ouvir música em silêncio para alcançar os momentos de transcendência e paz que todos nós, no fundo, sempre almejamos.

O homem charmoso é divertido. Gosta de encontros românticos reservados e excitantes. Toma sol à farta, pratica atividades esportivas, lê sempre poesia e jamais se deixa impressionar pelas imanentes misérias do mundo. Para ele, a cultura dos moralistas escandalizados, das celebridades e das elites presunçosas simplesmente não existe. Por isso, tem o semblante iluminado do guerreiro, maduro e misterioso como se pertencesse a outro mundo, muito melhor que o nosso.

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O memorável Abutre de Franz Kafka

Chama a atenção nesse conto de Kafka, publicado em fins do outono de 1920, a brevidade do relato e a extraordinária força simbólica contida no enredo.

Um abutre bica impiedosamente os pés de um homem. Uma pessoa que passava no local nota a cena e fica chocada. Pergunta ao homem como suporta aquilo e este lhe responde que já esgotou todas as forças para conter o pássaro. O passante promete então ajudá-lo e se prontifica a pegar uma espingarda em sua casa. Foi quando o abutre, que tudo escutava, voltou-se para o homem imperialmente, sem duvidar do que deveria fazer: olhou-o como a anunciar a morte iminente e o atingiu em cheio na boca. O homem morre, mas o abutre também sucumbe, mergulhado no sangue que envolveu a ambos.

A trama nos remete diretamente à metáfora e ao simbolismo literário tão caros a Kafka. Se pudéssemos usar aqui uma interpretação religiosa, veríamos o abutre como o perseguidor implacável que tudo observa, ferindo a carne humana recorrentemente.  Como aquele que possui a capacidade divina de perscrutar os gestos terrenos ubiquamente.

Se acompanharmos a cena como uma fotografia de apreensão psicológica, de angústia e de terror, então poderíamos falar do abutre como uma metáfora deliberadamente urdida, como se fora ele próprio um inquiridor, sempre à espreita, detentor do veredito final, que controla o tempo e seus avatares e sabe a hora certa para perpetrar o ataque definitivo, sem hesitações que possam colocar em dúvida a certeza e a correção ética do voo em direção às chamas finais.

Notemos a atitude da vítima. O homem sabe perfeitamente que o abutre o acompanha, sabe do vaticínio imposto à condição humana: aconteça o que acontecer, não sobreviverás! E, apesar dos esforços inúteis para escapar das bicadas e fugir da angústia implacável, conhece perfeitamente o seu destino. Está fadado ao que lhe foi imposto pelas deusas parcas e o desalento de seus gestos o comprovam.

Entretanto, analisando a altivez das personagens em Kafka, para quem “o herói é igualmente aquele que tem a coragem de assumir a própria miséria”, percebemos por que o protagonista não tenta (ao contrário da sofreguidão de um Jó) enfrentar a situação opressiva, buscando forças dentro de si, ansiando por um cerne de racionalidade em que possa entrever as causas da perseguição.

Não há no conto menções a quaisquer momentos de interioridade, de introspecção, de busca de sentido. Afinal de contas, por que ele deveria experimentar a aflição de ser o objeto daquelas bicadas, do inexcedível voo que o consumiria? De onde veio o pássaro sinistro? De quais latitudes? Seria o abutre uma oblação oferecida pelos inimigos aqui da terra ou cultivada pela agricultura sagrada lá nos céus?

Danillo Nunes, analisando o consolo do protagonista em sucumbir junto ao sangue do abutre, cita a parte final do pequeno conto: “Ao cair de costas senti como uma libertação, que em meu sangue, enchendo todas as profundidades e inundando todas as margens, o abutre se afogava irremediavelmente”. Mas o homem nada pergunta e a conversa com o passante sugere antes, conhecimento do infortúnio do que esperança em acabar com o sofrimento.

No desfecho da história em que o sangue tudo redime e reconforta, temos a súmula do intrigante texto kafkiano: somente o homem sagrado, aquele desprovido de interesse próprio, que não faz perguntas em demasia, pode libertar-se da opressão que caracteriza nossa consciência de existir em meio a agourentos pássaros econômicos, sociais e políticos. Pensando bem, desde Adão e Eva estamos morrendo afogados junto ao sangue de nossos assassinos.

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Sobre amar uma pessoa do mesmo sexo

Certamente a melhor e mais conhecida qualidade de meu pai era a generosidade e, por este atributo, todos o saudavam na bonita cidade de Sorocaba, no interior paulista. Absolutamente apaixonado pelos filhos, devotava todo o tempo que sobrava do trabalho cansativo (era químico de profissão) aos cuidados comigo, seu primogênito,e com meu irmão oito anos mais novo.

E assim a vida acontecia, enquanto eu crescia. Viagens à praia, finais de semana no clube, futebol toda quarta e sexta à noite e até, quando sobrava dinheiro, turismo na Itália, Calábria especificamente.Eu tinha um pai maravilhoso, alegre, respeitoso, companheiro e, acima de tudo, profundamente culto(tinha lido todos os livros clássicos da literatura ocidental).

Mas esta vida feliz estava prestes a acabar.  Aos dezesseis anos, respirei fundo, meditei por meses a fio até tomar coragem para contar ao meu pai sobre minha homossexualidade.Quando ele, numa noite quente e chuvosa de primavera, ouviu minha confissão, não disse uma palavra sequer;muito pelo contrário, ficou num terrível silêncio que parecia ter durado a própria eternidade.

Desde aquela data, nossa relação mudou inteiramente.Meu pai continuou sendo respeitoso e amigo como antigamente,mas eu percebia que seu olhar tinha se transformado.Também o abraço, outrora caloroso e acolhedor, passou a ser protocolar, quase distante. Tinha a convicção de que havia perdido o amor de meu pai para sempre.E isto doía terrivelmente, dia após dia, noite após noite, mas a vida tinha que continuar.

Acabei a universidade, me formando em engenharia de materiais e prontamente comecei o mestrado na mesma área.Nesta altura, eu já estava namorando o Miguel (apesar de nunca o ter apresentado à família) e praticamente toda a nossa roda de amigos sabia do relacionamento.Recebi então,uma surpreendente proposta para fazer doutorado e trabalhar em uma empresa de tecnologia em Chicago, nos Estados Unidos. Eu e Miguel nos mudamos pra lá no final de 1992.

Certa noite, meses depois de minha partida, recebi um telefonema de minha mãe, dizendo que meu pai estava internado em estado grave no hospital.Arrumei as malas e voltei ao Brasil para visitá-lo.

O diagnóstico era terrível: câncer no pâncreas. Os médicos davam no máximo duas semanas de sobrevida.Encontrei-o magérrimo, quase desfigurado pela dor, perfurado por sondas, crivado de cateteres transparentes no leito do quarto.

Ele me olhou com emoção. Já não podia falar nem se mover, mas com enorme esforço,abriu um largo sorriso ao me ver e o manteve assim o quanto pôde até quedar-se exausto. Logo em seguida, foi levado à UTI e faleceu uma semana depois.

Aquele sorriso dele lancinado jamais saiu do meu espírito, sorriso que significou para mim o amor devolvido ao filho pródigo,um aceno de reconciliação e perdão de quem estava se despedindo da vida.Saudoso, mas renascido, finalmente pude me olhar com dignidade em frente do espelho e prosseguir a rotina sem o travo da angústia que desesperou minha existência desde a juventude.

Voltei aos Estados Unidos e, de maneira completamente banal, descobri que meu marido Miguel estava tendo um caso com outro homem.Fique descontrolado. Ameacei-o com gritos e enxovalhos de toda a natureza. Enxotei-o sem nenhuma piedade do nosso apartamento.

Mas, neste ínterim, o adeus generoso de meu pai ressurgiu em minha memória intensamente.Quatro meses depois de descobrir a traição, liguei para o Miguel, que trabalhava na mesma empresa que eu,e marcamos um encontro na Michigan Avenue.Ele estava ansioso,sentado de pernas cruzadas num daqueles bancos altos perto do bar.

Aproximei-me discretamente, coloquei a mão em seu ombro e dei-lhe o melhor sorriso que um ser humano pode dar a outro ser humano.Afastei-me e fui caminhando cabisbaixo pela neve espessa que cobria a cidade de Chicago.

De volta ao prédio na Union Station, eu estava às lágrimas porque tinha a certeza de que meu pai, lá do céu,sentia orgulho do seu filho homossexual.

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Preferências (Parte 2)

Prefiro acordar bem cedo para usufruir os bons ventos da manhã.
Prefiro não jantar.
Prefiro água de coco às bebidas alcoólicas destiladas.
Prefiro pastel de carne na feira.
Prefiro adicionar canela ao leite quentinho.
Prefiro jogar baralho com meu avô a assistir a Rede Globo de Televisão.
Prefiro as notícias que eu mesmo invento.
Prefiro ser alegre a ser triste, se bem que há horas em que a gente quase se esconde debaixo da cama.
Prefiro acreditar que sou um cara legal.
Prefiro os conservadores aos revolucionários, porque não há civilização sem tradição consuetudinária e autoridade legítima. 
Prefiro o velho jeans gasto e camisetas básicas ao terno e à gravata. Eu detesto o calor. E passar frio. E passar fome. Eu quase desmaio tirando sangue e preciso sempre da mão acolhedora da enfermeira para não dar vexame.
Prefiro perfumes amadeirados bem masculinos sandalizados aos cítricos.
Prefiro atores ingleses aos tupiniquins, com exceção do meu talentosíssimo amigo Samir Murad.
Prefiro escutar samba carioca da gema. Quanta saudade da Clara Nunes!
Prefiro ler e reler mil vezes o Apanhador nos Campos de Centeio.
Prefiro as noites estreladas, quase brancas do sertão nordestino.
Prefiro a Chapada Diamantina e a Cachoeira da Fumaça aos resorts nababescos, onde se fala um inglês caricato e todos têm cara de Bill Gates e Madona.
Prefiro as mulheres que usam esmalte cor de renda nas mãos.
Prefiro as velhinhas que dizem pra gente ao final de uma boa conversa: 
– Vá com Deus, meu filho!
Prefiro o São Paulo Futebol Clube.
Prefiro as estradas infinitas como a rota 66 dos Estados Unidos.
Prefiro tatuagens ao botox.
Prefiro dormir cedo e não frequentar baladas sacripantas.
Prefiro Chico Anysio aos novos comediantes doidivanas.
Prefiro beber caldo de cana ao lado de meu pai.
Prefiro Maximiliano Maria Kolbe.
Prefiro minha esposa que diz toda noite “eu te amo” e prepara bolos de chocolate e sorvetes de papaia pra gente ser mais feliz.
Prefiro as pessoas que se comovem diante do sofrimento humano. Mas detesto os que usam as mazelas sociais para fazer proselitismo político.
Prefiro a poesia tocante dos desesperados ao falatório dos que idolatram o ódio.
Prefiro rezar em silêncio longe de todo mundo, inclusive e, principalmente, longe de mim mesmo.
Prefiro acreditar que só consigo compreender algo se antes perceber a eternidade vicejando em torno de mim.

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Preferências

Prefiro o vento frio do outono ao suadouro do verão.
Prefiro os cães inofensivos e alegres aos ferozes e guardiães.
Prefiro as casas pequeninas, pintadas de verde e roxo, com ladrilhos vermelhos aos condomínios luxuosos.
Prefiro o cinema de antigamente onde havia poesia e não carros voadores explodindo no ar.
Prefiro fotografias em preto e branco às modernas coloridas, porque preciso reconhecer minha infância perdida.
Prefiro ler poemas ao invés de declamá-los.
Prefiro Salinger a Proust.
Prefiro as pessoas singelasque riem delicadamente e gesticulam como se regessem orquestras imaginárias.Detesto os prepotentes.
Prefiro inventar combinações ousadas para minhas roupas e nãoseguir o lugar comum dos certinhos e chatinhos.
Prefiro o rock clássico, mas gosto também do Alceu Valença.
Prefiro namorar moças pequeninas para combinar com minha compleição meio oriental.
Prefiro esportes à política. Alguém acha sinceramente que o povo decide alguma coisa?
Prefiro as pessoas compassivas e silenciosas aos abutres que vivem apontando o dedo e lançando luzes sobre os pecados alheios.Adoro lugares santos.
Prefiro as igrejinhas modestas das cidades do interior e os garotinhos e as garotinhas que se vestem com roupa de festa para visitar o nosso senhor Jesus Cristo.
Prefiro sorvete de milho verdee não maracujá.
Prefiro viagens com data e hora certa para voltar.
Prefiro deixar o quarto bem escuroe as janelas entreabertas para dormir ouvindo a chuva cair.
Prefiro não fazer perguntas demais.
Prefiro óculos redondos porque me deixam bonitinho.
Prefiro os mártires cristãos aos padres televisivos e fanfarrões.
Prefiro fazer sexo com a mulher amada.Desprezo com todas as forças o patrulhamento ideológico.
Prefiro ser melancólico a ter aquele sorrisinhoartificial estampado no rosto.
Prefiro salada que tenha beterraba, pepino,sal, mas jamais pimenta.
Prefiro o pôr do sol e a noite chegando, enluarando a minha cidade.
Prefiro morrer dormindo, sem sofrimento, para ter o rosto beijado por Deus.
Prefiro Kafka aos influenciadores digitais.
Prefiroas frutas compradas na feira, uva e goiaba principalmente.
Prefiro observar pés femininos ao invés de consumir entorpecentes.
Prefiro os amigos de riso fácil e abraço acolhedor.
Prefiro caminhar ao invés de correre parecer uma atração de circo esquisitíssima.
Prefiro lutar como lutou Antão contra os demônios no deserto do Egito.
Prefiroentreter-me com o humor brasileiroe apreciar o casamento gastronômico de Romeu e Julieta.
Prefiro comer queijo e goiabada, fresquinhos, como alucinógenos na madrugada.

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O dia em que minha bombinha para asma pegou fogo

Meu primeiro emprego, quando eu tinha 16 anos, foi como cuidador de um casal de velhinhos num bairro próximo à minha casa. Às 8 em ponto, toquei a campainha e uma mulher magérrima, usando óculos de tartaruga me recebeu sorridente.

– Fique à vontade, meu rapaz. Papai e mamãe estão no andar de cima e acabaram de acordar. Vou dar uma saidinha, mas volto antes do meio-dia.

Entrei no quarto o mais silencioso que pude e cada um dos velhinhos estava em sua respectiva cama. Puxei uma cadeira de veludo que jazia perto da janela e me posicionei entre ambos.

– Olá, muito bom dia! Eu sou Eduardo e…

O velhinho sem me cumprimentar nem nada, interrompeu dizendo:

– Meu caro jovem, você poderia dizer para a senhora aí do seu lado que eu detesto salada de alface e ela deveria saber disso depois de 40 anos de casada?

Percebi então que eles não estavam se falando e eu seria um pombo-correio improvisado, levando mensagens de um lado para o outro. Então me dirigi à velhinha:

– O seu marido disse que não gosta de salada de alface e que a senhora deveria saber disso depois de…

Antes de completar a frase, ela retrucou:

– Pois diga a este velho teimoso que é preciso obedecer às ordens da nutricionista, porque a Celina gastou uma fortuna com a consulta e…

– Meu jovem, – pediu o senhorzinho, encurvando–se e puxando meu casaco pela manga – avise minha esposa que quem pagou a consulta no final das contas fui eu, porque a Celina pegou toda a minha poupança e…

De repente a velhinha se virou raivosa para o velhinho e ambos começaram a se xingar e eu sinceramente não sabia o que fazer para acalmar os ânimos. E assim do nada, como robôs programados para matar, eles se entreolharam, pararam de discutir, vieram em minha direção e começaram a me agredir fisicamente.

Primeiro foi o seu Alberto que acertou um pontapé no meu joelho direito que doeu um bocado. Depois foi a dona Ana que me desferiu um tapa nervoso na cabeça, fazendo meu boné voar a uns dois quilômetros de distância.

Assustado (velhinhos não são seres graciosos e inofensivos?), saí correndo daquele hospício, desci as escadas e abri a porta que inacreditavelmente estava aberta. Continuei correndo por quarteirões inteiros, até me sentir exausto e ser acometido por uma terrível crise de asma (sempre que fico nervoso tenho este troço).

Parei numa farmácia e meio sem fôlego, pedi à atendente uma bombinha para asma. Abri a embalagem às apalpadelas, rasguei o invólucro e, ao invés das duas doses habituais, devo ter dado umas 7 ou 8 inalações. Assim que o remédio entrou nos meus brônquios, senti uma espécie de vertigem, os ouvidos zuniram, os olhos lacrimejaram.

Nossaaaaaaa, fiquei chapadão! Olhei minha bombinha na palma da mão e ela estava pegando fogo. Então, joguei-a com toda a força para o meio da rua. O céu estava todinho roxo e eu podia ouvir o canto agradável de cem mil passarinhos ao meu redor.

Não sei como cheguei em casa, mas o fato é que meu golden retriever PIX estava saltitando e balançando o rabo, vindo em minha direção. Dei um abraço super apertado no PIX (quase estrangulei o coitado) e sei lá por que, desde aquele dia, deduzi que trabalhar e frequentar hospícios são quase a mesma coisa.

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Palavras são como jujubas que a gente devora e não sente

Existem as palavras. Sim, existem as palavras que nos distinguem: cheiro de café pela manhã, estradas de terra ao final da tarde, frutas saborosas e coloridas à vista da criançada, perfume das árvores depois da chuva intensa, grama molhada, pássaros cor de cinza chumbo e de peito amarelo, o olhar que vê, que se alonga, contempla e agradece, amigos que se aproximam, abraços, risos soltos, “quem fez esta merda no teu cabelo, mano?”,  a música de nossa juventude, os corpos macios e inebriantes das meninas quando eu tinha 14 anos nos bailinhos da vizinhança, o primeiro beijo, que sensação aquela! 

Saudades da Mirela! Passei em frente da sua casa depois de 30 anos, ainda é a mesma casa de sempre, mas onde está você? O tempo passou rápido, mudo, imperceptível. A memória que guardamos nas entranhas, o jeito debochado e alheio da Gabriela, a doce Marli na faculdade, lugar de tantos e tantos livros encantados, preciosos. Quantas vezes salvaram a minha vida? Não saberia dizer.

Salinger, Maughan, Drummond, Kafka, Holderlin, Buber, minha sincera gratidão a todos vocês. O paraíso é vosso agora e por toda a eternidade. Preces na noite escura, compaixão pelo jovem sonhador, Deus. Seria essa, afinal de contas, a palavra essencial? Ou seriam outras, tais como: estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar como cantava o poeta mineiro? 

Cantar o velho Rock and Roll, delícia das delícias juvenis, jeans velhos, rasgados, som altíssimo, cabelos compridos a bordo do carro veloz serpenteando pelas ruas de São Paulo, minha cidade, lugar ébrio apascentando os terrores, minha implacável solidão. Mas sempre voltei a ti, não é? Desta traição não podem me culpar. O quarto escuro, cativo, emoções se multiplicavam, contraditórias como o desejo, ser e não ser ao mesmo tempo.

“A quem eu muito amei, muito feri”, li numa placa escrita em Cascais, Portugal, aquele sotaque irmão, mas espezinhado. Os sons que saem da boca de todo o mundo, mas as palavras não deviam ferir nem humilhar. Elas não nasceram para isso, as palavras são como jujubas que a gente devora e nem sente, mas de vez em quando elas machucam.

“Você não é gente”, disse meu pai numa manhã longínqua, perdida para sempre no coração do jovem de 24 anos. Então, veio a filosofia, conceitos, explanações analíticas e, com jeitinho, aprendemos os macetes, os jargões, grego e latim. E eles (no grande teatro do mundo) acham que ficamos inteligentes, sábios e eloquentes, mas se esquecem que só fazemos meditar sobre a morte, somente ela importa. O que vem depois do fim ou não vem nada e tudo é rigorosamente absurdo?

Mas, se é absurdo, então eu persevero e creio, fecho os olhos e acredito. Estou com os primeiros cristãos no Coliseu de Roma, diante dos leões famintos e ulcerados. Nossos corpos agora foram retalhados, dançamos no ar um balé macabro, rodopiamos no ar lacerados. Somos gritos, uníssonos, entreouvidos nos espaços ermos, nas bocas manchadas de sangue. Mas eu creio, apesar de tudo, creio como a criança cingida nos braços da mãe crê no amor gratuito e sincero, a despeito do aparente abandono em que tantas vezes fazemos morar o nosso desespero.