Categorias
Destaque Mônica Freitas | Ética e Cidadania

Uma missão de vida

O que nos dá o direito de, como animais racionais que somos, escravizar, explorar e maltratar outras espécies de animais? Atualmente, o especismo constitui, junto ao racismo e ao machismo, a pedra de toque que reúne ideias e discussões éticas em torno da discriminação e do sofrimento de seres vivos em benefício de outros seres vivos. Talvez, nenhum tratado sobre justiça escrito até então possa fazer jus a tal questão. Na vida prática, sabemos que há ações que afetam dolorosamente e mortalmente seres vivos, em especial, aqueles dotados de certa consciência e percepção de dor e prazer, os sencientes. O que explica o fato de que, apesar de todo progresso intelectual, continuamos a incutir sofrimento a outras espécies para satisfazer meros caprichos?

Luisa Mell, em seu livro Como os Animais Salvaram Minha Vida (2018), conta, com honestidade e com o coração, sua trajetória como ativista e seu primeiro contato com a dura realidade dos animais em seu programa de TV Late Show Viva Mundo (Rede TV, 2008). Depois de ficar desempregada, Mell encontrou seu propósito na luta `a favor dos animais e em defesa do vegetarianismo e do veganismo. Sua ONG, que leva seu nome, tem ganhado o reconhecimento e a admiração de muitos. E, apesar de alguns desentendimentos e polêmicas com pessoas famosas, Mell continua corajosamente sua caminhada, denunciado vaquejadas, rodeios, testes em animais, o abandono e os maus tratos de animais. Sua militância faz, junto ao seu livro, um apelo contundente `a uma virada de consciência e atitude mais responsáveis em favor de animais de outras espécies.

Oscar Wilde, famoso escrito inglês do século 19, uma vez disse: “Se você passar tempo com os animais, corre o risco de se tornar uma pessoa melhor.” Sinceramente, acredito nisso. Também acredito que em seu livro, Luisa Mell dá um testemunho desse processo, o qual está ao alcance de todos nós. Vale a pena tentar.

Categorias
Destaque Mônica Freitas | Ética e Cidadania

Reescrevendo o passado

Por Mônica Freitas

Muito se tem discutido recentemente sobre as versões não oficiais da história, ou seja, aquelas em que, entre vencedores e vencidos, contam a história sob o ponto de vista dos vencidos. Tucídides (460-400a.C), historiador grego que escreveu sobre a Guerra do Peloponeso, inaugurou, com seu estilo conciso, direto e claro, a imparcialidade e o método científico nas narrativas históricas, seja por prezar pelas conexões causais entre os eventos, seja por buscar racionalmente o proposito das questões políticas. Sua contribuição relevante para o desenvolvimento da história, nos faz questionar, em vistas das discussões correntes, a razão de termos mais de uma versão histórica sobre um mesmo evento.

O mundo tecnológico e globalizado nos fornece acesso às informações sobre tudo que ocorre em tempo real. Mas o quanto de realidade reveste tais acontecimentos?

É fato que o que se escreve hoje será parte de nossa história amanhã. Também é fato que grandes líderes políticos desejam deixam sua marca na história. Mas a que preço?

Na China, o presidente Xi Jinping, à parte das discussões sobre o covid-19 e alterações climáticas no planeta, tem em sua agenda algo muito especial: uma grande reunião para reavaliar a história de seu partido, o qual está fazendo 100 anos. Sendo Xi Jinping um líder que tem conduzido a China a um grande avanço com reformas econômicas e sociais, reestruturação militar e modernização do país com a internet, sua imagem deve ficar para a história da forma mais favorável possível. Deixemos, desse modo, fora dos registros históricos, o autoritarismo e a opressão, a censura política, as denúncias de condutas antiéticas com relação aos trabalhadores e ao comercio de animais vivos, entre outros. O que for escrito será imparcial e fidedigno aos acontecimentos?

Provavelmente, as futuras gerações da China crescerão lendo a história que foi escolhida para eles e não por eles. É lastimável que nações devam crescer às custas de alienar seus cidadãos da cadeia causal dos eventos históricos para reescrevê-los com mitos. E assim, retornamos a um tempo anterior a Tucídides…

Categorias
Destaque Mônica Freitas | Ética e Cidadania

Direitos de cidadania e humanidade

Por Mônica Freitas

A eleição de Barack Obama, como primeiro presidente negro dos EUA, foi um marco na história. Mas poucos sabem que, antes de Barack Obama, houve um negro, libertário, orador, sufragista e conselheiro do presidente Abraham Lincoln, que concorreu a vice-presidência dos Estados Unidos. Frederick Douglass (1817) nasceu escravo e, `as custas de grande esforço pessoal, se educou e escreveu o livro A Narrativa da Vida de Frederick Douglass, um Escravo Americano, marco da literatura americana de cunho abolicionista.
No livro, numa linguagem bastante próxima `a oralidade, Frederick Douglass relata sua vida de escravo sem poupar detalhes das crueldades sofridas, de seus algozes, das dificuldades para letrar-se e de sua fuga do cativeiro. A questão da raça e da cor, em relação ao racismo, fica bastante patente, na tradução portuguesa, quanto a escolha de palavras para ‘nigger’ e ‘colored’, por exemplo. Muito se tem discutido sobre a aversão de uso de palavras politicamente incorretas como ‘preto’, ‘crioulo’, ou o eufemismo ‘de cor’. No entanto, a questão que escapa à discussão do racismo, ainda presente na sociedade, consiste na insistência de um racismo velado e sutil, o qual subsiste mesmo quando outras palavras são inseridas no vocabulário para substituir `aquelas de cunho pejorativo. Por que cobrimos a ferida com novos curativos ao invés de curá-la de vez? Alguns podem argumentar que tal processo requer tempo. Mas, se consideramos o fato de que vivemos numa cultura tão prodiga em desenvolver conceitos e discussões sobre justiça, igualdade, liberdade, cidadania, entre outras noções do gênero, nos cabe perguntar que tipo de entendimento ainda nos falta.
Tais questionamentos talvez nos convide a habitar um fórum mais íntimo de reflexão: a ideia de que ainda temos muito que nos educar não somente em termos de desenvolvimento intelectual, mas sobretudo nas bases de um aprimoramento da sensibilidade para valores mais humanos. E sobre isso, Frederick Douglass, sem dúvida, nos dá uma bela lição.

Categorias
Mônica Freitas | Ética e Cidadania

Conquistar pelo fogo e pela espada

O que acontece quando J.K. Rowling afirma ser o sexo biológico e uma realidade objetiva que não pode ser negada? Para além das disputas entre ativistas transgêneros e feministas, há uma questão em pauta diante da controvérsia gerada em torno de sua afirmação. Até que ponto estamos seguros em afirmar nossas convicções sem sermos agredidos verbalmente ou mesmo fisicamente?

Outro episódio similar envolveu uma professora da universidade Sussex em UK. Katheen Stock, lesbica, feminista e liberal, afirmou que o sexo biológico existe e como tal deve ter precedência sobre identidade de gênero. O resultado foi inúmeros protestos, alguns ameaçando sua segurança, e pedido de sua demissão sumaria contra sua atitude dita transfóbica. Até que ponto exercitamos o respeito e a tolerância por diferentes opiniões e ideias? Quando o Califa Omar deu ordem para destruir a biblioteca de Alexandria no Egito, ele ponderou o seguinte´se o que havia nos livros já estava no Alcorão, eles eram inúteis e, se o que estavam nos livros estavam contra as ideias do Alcorão, eles eram nocivos. Portanto, queimá-los era a única ação cabível. Não parece que estamos trilhando os mesmos passos? Conquistar pelo fogo e pela espada?

Tais episódios nos faz pensar não somente no quanto nossa liberdade parece estar instrumentalizada, mas também o quanto as teorias sobre tolerância, equidade e discussões racionais sobre diferentes filosofias habitam apenas os livros. Podemos não concordar com as posições que nos são apresentadas em determinado momento, mas ataca-las ºa ferro e fogo me parece um grande retrocesso.

 

 

 

Categorias
Cultura Mônica Freitas | Ética e Cidadania Notícias do Jornal

A liberdade de ter voz

 

‘Luiz Gama – Uma voz Pela Liberdade’, direção de Ricardo Torres, produção de Mario Seixas e MS Events, roteiro de Déo Garcez, estrelado por Déo Gracez e Soraia Amoni

Com os atuais movimentos culturais e políticos em luta pelo reconhecimento e legitimação das minorias sociais, como por exemplo, o movimento negro ‘Vidas negras importam’, nada poderia ser mais oportuno do que revisitar a história de 353 anos de violência institucional do Brasil escravocata, a qual se deu a partir do século XVI. E nada mais oportuno do que revisitar a história do jornalista, poeta e advogado Luiz Gama (1830-1882). A vida e obra do abolicionista e escritor brasileiro, que advogou em favor da libertação de centenas de escravos mantidos em cativeiro ilegal, é revista pelo roteirista e ator Déo Garcez, trazendo de volta assuntos que ainda se mantêm presentes em nossa sociedade como a violência racial contra jovens negros das periferias e favelas de centros urbanos e a ausência de representatividade de tais minorias em posições de relevo no Brasil.

A luta contra a desigualdade no Brasil compõe a base de discussão da peça ‘Luiz Gama – Uma Voz Pela Liberdade’, protagonizaada por Déo Garcez – tendo este atuado também em Chica da Silva, O Cravo e a Rosa e Escrava Isaura, entre outros – e Soraia Amoni, a qual conta, dentro de uma biografia dramatizada, a trajetória de Luiz Gama, através de sua produção escrita, em artigos, poemas e sátiras políticas e sociais, e de seu perfil ativista, junto a personagens influentes em sua vida como sua mãe, interpretada pela atriz Soraia Amoni.

A ambientação intimista e o cenário minimalista – com uma luz de centro, duas cadeiras e uma mesa-, colocam em evidência a expressão corporal e a composição da personagem de Déo Garcez em dois diferentes momentos, o do intelectual abolicionista e a do advogado ativista, interpretados com perfeita desenvoltura. Soraia Amoni, por sua vez, trafega com fluidez e segurança nas diversas personagens que interpreta, dando também voz a uma narradora onisciente e crítica. Por fim, através desses expedientes, o diretor Ricardo Torres revela ao público os principais aspectos da vida e da militância política de Luiz Gama de forma dialógica e inventiva de tal modo que, em falas como “Em terra que rege branco, somos privados de pensar”, somos convidados a nos debruçar sobre nosso passado e a refletir sobre nosso presente.

Sob tal prisma, a peça, de forma muito bem sucedida, abre-nos um viés de permanente discussão e de engajamento por causas contra a opressão de minorias, sejam elas minorias de gênero, étnicas, religiosas ou raciais. Em particular, no entanto, a peça nos convoca a pensar de modo incisivo sobre o racismo sistêmico que ora assombra o mundo a partir de governos ultraconservadores. No Brasil, por exemplo, ainda nos deparamos com certas ideias insidiosas que se encontram veladas em vários discursos da mídia, os quais nos fazem ainda acreditar que racismo no Brasil não existe ou mesmo que a escravidão teria sido benéfica para os descendentes de africanos. Em vista disso, temos, com a peça, a oportunidade não somente de entender quais as reivindicações históricas que estão na ordem do dia, mas também de nos mobilizar a favor das causas antiracistas. Como bem coloca o ativista baiano Zulu Araújo, “Temos a oportunidade histórica de juntar pretos e brancos antiracistas nessa luta, algo que, depois de muito tempo, o movimento negro norte-americano conseguiu alcançar.”

Sendo assim, considerando o atual cenário político-social de certo retrocesso ideológico em torno da legitimação de práticas opressoras contra aqueles que compõem minorias, nada mais oportuno do que uma visita aos porões escuros de nossa história com a peça sobre Luiz Gama. Dessa forma, talvez, possamos encarar de frente nossos próprios monstros e nos inspirar a fazer uma mudança positiva em nossa sociedade. Aplaudo de pé a iniciativa.

MÔNICA DE FREITAS

Bacharel em Letras, professora de inglês e mestre em Filosofia

(PR2-55697)

profmonica_highkevel@yahoo.com.br

 

Categorias
Colunas Mônica Freitas | Ética e Cidadania

Princípios seculares e extremismo islâmico

A morte de três pessoas dentro de uma igreja (29/10), uma delas decapitada, por um suposto terrorista, na cidade de Nice, reacendeu a polêmica em torno do fundamentalismo islâmico e do secularismo na França, a qual tem sua origem no envolvimento deste país na guerra civil libanesa nos anos 80.

Diante do ataque, o presidente Emmanuel Macron anunciou estado de emergência e reafirmou direitos do Estado democrático, como liberdade de expressão e de consciência e, até mesmo, o direito à blasfêmia.

Em menos de duas semanas anteriores ao atentado, um professor de uma escola tinha sido decapitado por mostrar uma caricatura do Profeta Muhammed, publicada por Charlie Hebdo (2015) em uma aula sobre liberdade de opinião. Isso porque os muçulmanos proíbem qualquer representação física do profeta.

Para além dos fatos que atestam incontroversa violência, ficam questões de difícil discussão, como as que se referem à liberdade de professar religião e de expressar opinião e crenças, bem como o respeito a tais posições.

Liberdade e respeito são dois pilares da vida moral de todo e qualquer indivíduo e trazem em seu bojo outras questões que denotam aspectos não somente para o exercício da cidadania enquanto seres políticos que somos, mas também para o exercício do espírito humano enquanto seres racionais.

Assim, se por um lado temos a capacidade de expressar nossas paixões, sentimentos e atitudes  como amor/ódio, vergonha/indignação e respeito/desrespeito, por exemplo,com relação a pessoas, objetos, ideias e até mesmo intuições,  por outro trazemos a capacidade de conceber conceitos como liberdade e responsabilidade com relação às nossas ações. Isso posto, ao considerarmos os dois lados da contenda, secularistas e extremistas muçulmanos, verificamos que  nenhum dos dois lados se encontra isento de tais capacidades ou impedido de seu exercício.

O que falta então na geopolítica e na ética mundial? Eu não saberia dizer. Mas, algo me parecer essencial para fundar as bases da solidariedade humana: boa vontade para entender e aceitar os diferentes pontos de vista e, nesse caso, em particular, para entender que, para além das disputas pelo poder na esfera da política e da religião, existe algo mais importante que é o valor da vida de um ser  humano.

Mônica Freitas

Bacharel em Letras, professora de inglês e mestre em Filosofia
(PR2-55697)
profmonica_highkeve.com.br

Categorias
Mônica Freitas | Ética e Cidadania

Cavaleiros do Apocalipse

Nos quatro cantos da Terra, os quatro cavaleiros, da profecia bíblica do livro de João, carregam a coroa e o cedro, a espada, a balança e o jarro. E também trazem consigo o símbolo da conquista do poder, da guerra, da injustiça da fome e da peste, respectivamente. Tais seriam os flagelos destinados aos homens como punição por sua própria miséria moral.

Simbolismos à parte, essa representação nos faz refletir sobre o agonizante cenário mundial que ora intercala conflitos bélicos civis e internacionais: no Congo, com a tribo Lendu; na Colômbia, com o Exército de Libertação Nacional; no Iêmen, com movimento huti − junto às intervenções da Arábia Saudita e de seus aliados −; nas Filipinas, com a guerrilha comunista e o levante islâmico; e, por fim, nas dissidências entre os Estados Unidos, a China e a Coreia do Norte. Isso somente para citar alguns casos.

É fato incontestável que todo contexto de conflito político, em particular as situações de luta armada, trazem em seu bojo a violência, a destruição, a pobreza extrema, a doença e a morte. Junte-se a isso a pandemia causada pela covid-19, que causou até agora mais de 440 mil mortes em todo o mundo e a estagnação da economia, e temos em mãos a oportunidade única de parar literalmente da corrida do dia a dia para pensar no que não está mais dando certo e repensar valores.

Em vista de tal calamidade, tanto para a saúde pública como para a sociedade como um todo, justo seria esperar que os países em situação de guerra, curvando-se diante de um poderoso inimigo comum, acatassem o cessar fogo que foi exortado em março pelo secretário geral das Nações Unidas, António Guterres. Ao invés disso, vemos situações de inescrupuloso oportunismo, sejam por lideranças institucionalizadas, sejam por meio de rebeldes radicais, para ganhar mais espaço na geopolítica do poder. Haja vista o caso do Estado Islâmico, que assumiu a autoria de um ataque que matou 27 pessoas e feriu outras 55 no Afeganistão no dia 6 de março desse ano. Ou o grupo rebelde da Colômbia, que tem recrutado venezuelanos desesperados que passam por pontos de controle da guerrilha.

Diante dessa visão incompreensível e aterradora, o quadro de Dürer, com seus quatro cavaleiros alegóricos, nos surge como uma revelação. A revelação de que a humanidade pagará o ônus de suas próprias escolhas.

Categorias
Mônica Freitas | Ética e Cidadania

Líderes não são super-heróis

Enquanto pessoas comuns estão fadadas às suas imperfeições e erros ao tomarem decisões diárias, alguns cidadãos concebem – inspirados talvez por um romantismo utópico – que seus líderes são super-heróis à prova de faltas e enganos. Não poderiam estar mais longe da verdade: enquanto super-heróis podem ser líderes – mesmo aqueles que são pouco carismáticos –, o contrário não se verifica.

Há poucos dias, Joe Binden, ex-vice-presidente dos EUA, cometeu uma gafe ao fazer uma piada na qual considerava como certo seu favoritismo junto à comunidade negra. Admitindo seu erro, Binden desculpou-se. Quantos políticos assumem seus erros? E quantos podem levar uma nação ao abismo antes que estejam dispostos a admitir seus equívocos em determinada questão?

Nosso país respira o caos de uma pandemia mundial – o segundo país em número de infectados depois dos EUA – e enfrenta o dilema entre salvar vidas e salvar a economia. Nesse ínterim, a Organização Mundial de Saúde suspende o ensaio clínico com hidroxicloroquina e cloroquina para o tratamento de pacientes com covid-19, enquanto o Ministério da Saúde daqui recomenda o medicamento. Cientistas se veem em meio a ameaças, de um lado, e à pressão do governo, de outro, enquanto alguns profissionais da área de comunicação são impedidos de fazerem cobertura jornalística no Palácio da Alvorada.

Contabilizando tudo, chegamos a um resultado negativo em termos de gerenciamento geral da crise, o que evidencia o fato de que houve e ainda há erros a serem admitidos e corrigidos. Logo, não há heróis, senão líderes humanos e falhos.

Categorias
Mônica Freitas | Ética e Cidadania

Mantendo distância social da covid-19 e do AI-5

Os perigos parecem estar em toda parte nos tempos atuais. Enquanto o novo coronavírus estabelece o terror na saúde pública mundial, o surgimento de forças políticas ultraconservadoras apresenta-se uma ameaça para os regimes democráticos institucionalizados em diversos países. Na pauta do governo brasileiro, no entanto, a ameaça nos dois casos parece carecer de qualquer realidade. E é conveniente que assim o seja.

O mercado legal de comida viva em Wuhan, China, foi o começo da contaminação e de muitas mortes por um vírus que passa entre espécies até chegar ao ser humano. A questão de manter interesses econômicos de mercado em detrimento das questões do bem-estar da população não é novidade. Em termos gerais de visão macroeconômica, o mercado, nos países capitalistas, tem como constante moldar o Estado em vista de seus objetivos. Este cenário, comum do neoliberalismo, vem se firmando cada vez mais no Brasil desde 2016.

Sem entrar em pormenores de política econômica neoliberal, faz-se forçoso observar que, nesse caso em particular, mercado e contaminação viral coincidem em determinado ponto: um movimento insidioso que vem enfraquecendo a atuação e responsabilidade do Estado em questões sociais em favor de um mercado mais forte mesmo que tal medida custe vidas humanas. Sua ação é traiçoeira e velada de maneira tal que mine de dentro e de forma “legal” e “institucionalizada” nossa estrutura democrática. Ninguém vê: é uma força invisível como o vírus. E assim, sem que percebamos, ela vai morrendo e com ela seus cidadãos.

Categorias
Mônica Freitas | Ética e Cidadania

A economia do mundo nas mãos dos médicos 

O impacto da pandemia causada pelo covid-19, o coronavírus, que teve início em dezembro do ano passado na China, tem causado perdas significativas em vários setores na atividade econômica: desde empresas aéreas e de turismo, indústrias e fábricas até taxas de câmbios, commodities e bolsas de valores. Sendo a China responsável por um terço das manufaturas do mundo e a primeira em exportações de bens de consumo, pode-se imaginar que a paralisação de algumas de suas fábricas, como medida de contenção da doença, provoca taxas de crescimento mais baixas da economia global e consequente diminuição do PIB.

No entanto, há o outro lado da questão a ser considerado. Ocorre junto a isso a queda da densidade de dióxido de nitrogênio lançado na atmosfera e a diminuição do consumo talvez desenfreado de bens de consumo. Não quero dizer com isso que a tal epidemia seja um mal necessário, mas parece certo dizer que toda e qualquer situação de calamidade, por que passa a humanidade, constitui uma oportunidade, ainda que sofrida, de rever certos valores e curar certos desequilíbrios, os quais têm se tornado crônico no corpo orgânico de nosso planeta.

Para além de tais considerações, é interessante notar o fato, talvez irônico, de que não existe no mundo líder político poderoso ou grande conglomerado financeiro ou moeda de câmbio forte que possa salvar a economia de um possível colapso senão os profissionais da saúde. Diante disso somente nos resta uma pergunta: por que então investimos tão pouco em saúde e educação?