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Deleite Linguístico: Natal: uma riqueza de nossa língua

Foto: Reprodução

A saudade de meu amado professor Evanildo Bechara fez-me pensar em redigir este texto, depois de ler um artigo dele, intitulado “O Natal em línguas do mundo, que faz parte do livro “Análise e história da língua portuguesa, editora Nova Fronteira, 2022. O mestre Bechara, para quem não sabe, faleceu no dia de meu aniversário, modificando a comemoração de meu nascimento. E por falar nesse termo, Bechara nos explica que a expressão Christi natale teve vida na latinidade balcânica, servindo para celebrar o aniversário de nascimento de Jesus. Ademais, meu mestre descreveu o fato de, na antiga Roma pagã, o dies natalis urbis marcar o dia do aniversário dessa lendária cidade, enquanto o dies natales era em comemoração do aniversário de várias divindades e do próprio imperador.  Nem se cogitava em Papai Noel, pois!

Assimilei também que, entre os primeiros cristãos, natalis ou dies natalis fazia referência tanto ao dia do aniversário de nascimento, quanto ao dia de morte, esta sendo uma novidade semântica do cristianismo, fazendo especial alusão aos mártires e santos da Fé, os quais gozariam da vida eterna com suas mortes terrenas. Essa oposição semântica, segundo o mestre Bechara (2022, p.87), vinha da percepção de um notável estudioso holandês Rev. Josef Schrijen, que defendia ser essa mudança oriunda de uma vox media, isto é, o significado de aniversário, ligado a natale ou natalicium. Não satisfeito de a nós proporcionar esse estudo linguístico, Bechara recorda que a data nem sempre foi a atual, sendo comemorada em 6 de janeiro em Roma, na Gália e no Oriente. Depois de beber dessa fonte inesgotável de conhecimento, vinda do filólogo e linguista Bechara, quero trazer a questão do fenômeno fonético da vocalização. Pelo termo, fica fácil compreender que se trata da passagem de um termo consonântico que passa a vocálico. Essa alteração ocorre em posição de coda silábica, ou seja, no final da sílaba. Quem nunca realizou uma vocalização? Quer testar? Diga, em voz alta, as palavras Natal, salto, alto, sol, animal. Escutou um som de U no lugar do fonema consonantal L? Então, você entendeu do que se trata esse fenômeno. As crianças, em fase de alfabetização são as maiores praticantes da vocalização porque não conseguem dominar o uso das letras L ou U nos casos de coda silábica ao regidir seus primeiros textos. Uma dica que apenas ajuda, mas não soluciona é aplicar um teste simples: passe para o plural a palavra animal. Se terminar em -IS, use o L. Animal>animais. Em sol, tem-se sóis. Já, se você passar para o plural PAU, tem-se PAUS. Logo o emprego do U será o adequado; mas, por favor, não use esse método para MAL /MAU, pois a explicação é outra. MAL pode significar “assim que”, com valor semântico de tempo; ser antônimo de BEM, ou seja, um advérbio; ou um substantivo precedido de artigo ou outro determinante. Como podemos observar, a palavra Natal é riquíssima em detalhes, assim como deve ter sido seu Natal!

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