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Erica Malunguinho: a educadora que levou o quilombo ao Parlamento

Foto_Reprodução_Sp.Gov

Nascida em Recife e criada entre a arte e a militância, ela se tornou em 2018 a primeira mulher trans eleita para uma assembleia legislativa no Brasil

Quando o nome de Erica Malunguinho surgiu nas urnas em 2018, o Brasil assistiu a um marco histórico: pela primeira vez, uma mulher trans conquistava uma cadeira em uma assembleia legislativa estadual. Com mais de 55 mil votos, a educadora, artista plástica e política pernambucana chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) pelo PSOL, carregando consigo não apenas uma trajetória pessoal de resistência, mas um projeto coletivo construído nas margens da sociedade.

Erica Malunguinho da Silva nasceu no bairro de Água Fria, em Recife, em 20 de novembro de 1981, em uma família de militantes orgânicos, forjada nos movimentos populares. Mestra em Estética e História da Arte pela Universidade de São Paulo, viveu a educação como território de transformação antes de ingressar na política institucional, atuando com crianças e adolescentes. Mulher, negra, nordestina e trans, ela reúne em sua própria existência os marcadores sociais que o poder brasileiro historicamente tentou silenciar — e foi exatamente a partir dessas identidades que construiu sua força política.

Antes de ocupar o Parlamento, Erica fundou a Aparelha Luzia, definida por ela como um “quilombo urbano”: um espaço cultural, de encontro, afetividade e resistência negra no coração de São Paulo. O projeto se tornou símbolo de uma forma de fazer política que nasce da cultura, da arte e da ancestralidade africana, e que recusa a lógica de apagamento imposta às populações negras e LGBTQIA+. A Aparelha virou referência nacional e pavimentou o caminho que levaria sua criadora à vida pública.

No mandato, Malunguinho fez de sua trajetória uma plataforma de luta contra o racismo, o patriarcado e a LGBTfobia, defendendo que raça e gênero sejam tratados como fundamentos — e não como pautas secundárias — da ação política. Em 2020, enfrentou episódios de tensão institucional, como a reintegração de posse de seu próprio gabinete, que expuseram as resistências que uma mulher trans e negra ainda encontra nos espaços de poder. Ainda assim, manteve a disputa política cotidiana como método, insistindo na ideia de que a alternância de poder deve incluir quem sempre esteve à margem dele.

A história de Erica Malunguinho ultrapassa a conquista eleitoral. Ela representa a abertura de uma fenda em estruturas seculares de exclusão e a afirmação de que corpos antes invisibilizados podem — e devem — ocupar os espaços de decisão. Mais que uma figura política, Malunguinho tornou-se referência de uma geração que entende a representatividade não como fim, mas como ponto de partida para transformar o país.

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