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Governo lança ofensiva para formar profissionais-chave no parto humanizado

Saúde 3 MS Arquivo Divulgação

Ministério da Saúde investe R$ 17 milhões para qualificar 760 enfermeiros obstétricos, em um país que possui apenas 13 mil profissionais na área

O Ministério da Saúde está reforçando a rede de atenção às gestantes no SUS com a formação emergencial de 760 enfermeiros obstétricos. O investimento de R$ 17 milhões visa combater uma grave carência nacional: o Brasil possui apenas 13 mil profissionais especializados registrados, dos quais menos da metade está ativa no sistema público. A iniciativa, conduzida pela Rede Alyne em parceria com a UFMG e 38 instituições, busca qualificar enfermeiros com experiência no SUS para humanizar o parto e reduzir as altas taxas de cesarianas.

A presença desse profissional é considerada vital para mudar um cenário marcado por intervenções desnecessárias. “Enquanto no Brasil temos cerca de um enfermeiro obstétrico para quatro médicos, no mundo a proporção é inversa: são quatro enfermeiros para um médico”, compara Renné Costa, conselheiro do Cofen. Ele destaca que o modelo baseado na fisiologia do parto, defendido por esses especialistas, reduz intervenções e os riscos associados, como as iatrogenias. A cesárea, lembra, multiplica em 70 vezes o risco de morte materna.

A formação é um passo para reverter uma cultura que, segundo especialistas, estigmatiza o parto normal como “de pobre” e medicaliza excessivamente o nascimento. O enfermeiro obstétrico atua no pré-natal, no parto vaginal e no pós-parto, oferecendo acompanhamento contínuo e permitindo maior autonomia e conforto para a gestante. A experiência de municípios como Viçosa (AL) mostra o impacto: após a qualificação de um profissional local, o número de partos no hospital saltou de menos de 100 para cerca de 600 ao ano, evitando deslocamentos arriscados de gestantes para a capital.

Apesar do avanço, o número de vagas é considerado insuficiente para a demanda nacional. Enquanto países com modelos consolidados têm entre 25 e 68 profissionais por mil nascidos vivos, o Brasil tem apenas cinco. A capacitação também esbarra na necessidade de experiência prática. “Não basta o conhecimento teórico. Parto tem variáveis que não se controlam”, alerta a médica Margareth Portella, coordenadora materno-infantil da SES-RJ, defendendo treinamento em serviço para garantir segurança.

A Rede Alyne, que homenageia Alyne Pimentel – vítima de negligência obstétrica que levou o Brasil a uma condenação internacional –, tem a meta ambiciosa de reduzir a mortalidade materna em 25% e a mortalidade de mulheres negras em 50% até 2027. Para gestantes como a empresária Valéria Monteiro, mãe de três filhas, o acompanhamento da enfermeira obstétrica foi decisivo para um parto normal tranquilo após uma cesárea traumática. “Ela me deu coragem, força e o embasamento científico. Deixei meu corpo agir”, relata. A história ilustra o potencial transformador dessa política para milhões de brasileiras.

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