Baluarte da velha guarda, Hildemar Diniz dedicou mais de sete décadas ao samba de terreiro e virou símbolo da azul e branco de Oswaldo Cruz
Poucos nomes se confundem tanto com a história de uma escola de samba quanto o de Monarco com a Portela. Hildemar Diniz, o Monarco, nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1933, no bairro de Cavalcante. Ainda criança mudou-se para Oswaldo Cruz, berço da agremiação azul e branco, onde conviveu de perto com os grandes sambistas da escola e foi discípulo do lendário Paulo da Portela. Foi ali, entre blocos e rodas de samba, que o menino ganhou o apelido que o acompanharia por toda a vida.
Em 1950, foi convidado a integrar a ala de compositores da Portela, iniciando uma trajetória de mais de 70 anos dedicados ao samba. Chegou a ser diretor de harmonia e, mais tarde, líder da Velha Guarda e presidente de honra da escola. Curiosamente, nunca venceu uma disputa de samba-enredo pela Portela, mas eternizou os chamados “sambas de terreiro” ou “de quadra”, como o célebre “Passado de Glória”, verdadeiro patrimônio cultural da agremiação.
Sua obra atravessou gerações pela voz de grandes intérpretes. Martinho da Vila gravou “Tudo Menos Amor”, Paulinho da Viola imortalizou “Lenço”, Beth Carvalho cantou “Obrigado pelas Flores” e Zeca Pagodinho emplacou sucessos como “Coração em Desalinho” e “Vai Vadiar”. Monarco também teve carreira solo, com discos a partir dos anos 1970, e ganhou projeção internacional ao participar do CD “Tudo Azul”, produzido por Marisa Monte em 1999, ao lado da Velha Guarda da Portela.
O reconhecimento veio em diversas formas: o documentário “Mistério do Samba” (2008), selecionado para o Festival de Cannes; o DVD “A Memória do Samba” (2010); o prêmio de Melhor Álbum de Samba no Prêmio da Música Brasileira, em 2015, com “Passado de Glória – Monarco 80 Anos”; e uma indicação ao Grammy Latino em 2019.
Monarco morreu em 11 de dezembro de 2021, aos 88 anos, após complicações de uma cirurgia, e foi velado na quadra da Portela, em Oswaldo Cruz. Em sua homenagem, a prefeitura do Rio rebatizou o Parque Madureira como Parque Madureira Mestre Monarco. Em 2027, sua história será celebrada como enredo da própria Portela — a prova definitiva de que, para o samba carioca, Monarco é verdadeiramente eterno.





