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Neusa Santos Souza: a psicanálise como instrumento de combate ao racismo

©Acervo pessoal de Luiza Freire Nasciutti

Intelectual pioneira analisou os impactos psicológicos do racismo na construção da identidade negra no Brasil

Neusa Santos Souza foi uma das intelectuais mais importantes do Brasil no debate sobre racismo, subjetividade e identidade negra. Psiquiatra, psicanalista e escritora, ela construiu uma obra fundamental ao analisar os impactos psicológicos do racismo na vida de pessoas negras em uma sociedade marcada pela desigualdade estrutural.

Nascida em 1948, na Bahia, Neusa formou-se em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e, posteriormente, especializou-se em psiquiatria e psicanálise. Ao longo de sua trajetória acadêmica e profissional, destacou-se por unir a clínica psicanalítica a uma leitura crítica das relações raciais no Brasil, algo ainda pouco explorado em sua época.

Seu trabalho mais conhecido, “Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social”, publicado em 1983, tornou-se uma obra clássica das ciências humanas.

No livro, Neusa analisa como o racismo afeta a construção da subjetividade de pessoas negras, especialmente aquelas que alcançam mobilidade social em um contexto predominantemente branco. A autora mostra como a ascensão social não elimina o sofrimento psíquico causado pela discriminação, mas, muitas vezes, o intensifica.

Neusa Santos Souza foi pioneira ao demonstrar que o racismo não é apenas um fenômeno social ou econômico, mas também um fator profundamente psicológico, capaz de gerar conflitos internos, sentimentos de inadequação e rupturas identitárias.

Sua escrita clara, sensível e rigorosa contribuiu para aproximar a psicanálise das discussões raciais, influenciando gerações de pesquisadores, profissionais da saúde mental e militantes do movimento negro.

Além da produção intelectual, Neusa atuou como professora universitária e participou ativamente de espaços de reflexão sobre saúde mental e relações raciais. Seu legado permanece atual e indispensável para compreender as dimensões subjetivas do racismo no Brasil.Neusa Santos Souza faleceu em 2008, mas sua obra segue viva, sendo referência central nos estudos sobre identidade, racismo e saúde mental, consolidando-a como uma das vozes mais relevantes do pensamento social brasileiro.