No auge da pandemia, quando o mundo parecia ter desacelerado e o silêncio se tornava parte da paisagem, Marcela decidiu que era hora de dar um passo adiante no amor. Celso, seu companheiro de anos, era daqueles que apreciavam os pequenos gestos da vida, e ela sabia que um pedido de casamento comum não bastaria. Assim, arquitetou um plano ousado: uma serenata surpresa no centro do condomínio, um espaço esquecido entre os blocos de prédios, onde a melodia ecoaria como um abraço em tempos de distanciamento.
O local, próximo ao Simba Safari, era um refúgio de silêncio durante os dias de semana. Às 18h, quando o sol se punha tingindo o céu de tons dourados, Marcela acionou a portaria: “Diga a Celso que há uma encomenda para ele.” Intrigado, ele desceu, sem suspeitar de nada. Cada passo pelo hall ecoava mais do que o normal, como se até o tempo tivesse parado para assistir.
Enquanto isso, Fredi Jon, a cantora de timbre quente, e seu parceiro saxofonista, se posicionavam discretamente. O sax, aveludado, abriu caminho para a voz de Fredi Jon, que entoava uma canção que Marcela sabia ser especial para ele. A melodia serpenteava pelos corredores do condomínio, esgueirando-se pelas janelas abertas e invadindo espaços antes vazios.
Celso parou, confuso. Seus olhos percorreram os prédios, tentando entender de onde vinha aquela música. No meio do pátio vazio, Marcela surgiu, segurando um pequeno cartaz onde escreveu: “Você aceita dividir a eternidade comigo?”
Os vizinhos, que assistiam discretamente de suas sacadas, abriram janelas e iluminaram o espaço com lanternas de celular. Em tempos de isolamento, um pedido de casamento tornava-se um espetáculo coletivo de esperança. Até mesmo quem não se conhecia se via unido por aquele momento.
Celso riu, emocionado. “Você sempre me surpreende!” exclamou, enquanto descia a máscara momentaneamente para beijá-la. As palmas ecoaram como fogos de artifício contidos. O porteiro, que tantas vezes viu pessoas indo e vindo, sentiu-se parte de algo maior e vibrou com o momento.
Fredi Jon, entre uma música e outra, brincou: “Você imaginou Celso que uma encomenda como essa estava na portaria?” O saxofonista, sorrindo, acrescentou: “Mas, no fundo, não é o amor a melhor entrega que alguém pode receber?”
A noite seguiu com canções e risadas. Marcela e Celso dançaram, mesmo que sem música em alguns momentos, apenas ao som da própria felicidade. O pátio, que antes era apenas concreto e vazio, agora parecia pulsar com a energia do amor compartilhado. Naquele instante, perceberam: em um mundo suspenso pela incerteza, o amor ainda conseguia encontrar brechas para florescer — e talvez fosse ele o verdadeiro milagre da resiliência humana.