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Riachão, o malandro eterno do samba baiano

Rianchão Reprodução

Cronista do cotidiano, o compositor transformou a vida simples e as ruas de Salvador em clássicos imortais da música brasileira

José Gomes, conhecido artisticamente como Riachão, nasceu em Salvador, em 1921, e tornou-se um dos mais importantes sambistas da história da Bahia e do Brasil. Criado no bairro do Garcia, ele construiu uma obra marcada pela observação atenta do cotidiano, pelo humor refinado e pela linguagem popular, transformando vivências simples em sambas que atravessaram gerações.

Antes de ganhar reconhecimento nacional, Riachão trabalhou como engraxate, vendedor ambulante e pedreiro. Essas experiências moldaram sua visão de mundo e influenciaram diretamente sua produção artística. Frequentador assíduo do Pelourinho e do Mercado Modelo, ele fez das ruas de Salvador seu principal cenário criativo, retratando personagens, hábitos e conflitos urbanos com lirismo e autenticidade.

Seu talento como compositor chamou a atenção de grandes nomes da música brasileira. O reconhecimento definitivo veio quando Caetano Veloso gravou “Cada Macaco no Seu Galho (Xodó)”, canção que se tornou um marco da música popular brasileira e apresentou Riachão ao grande público. Outros artistas como Gilberto Gil, Bethânia e Gal Costa também reverenciam sua obra, consolidando sua importância para o samba e para a cultura baiana.

Riachão era conhecido como um verdadeiro malandro filosófico, dono de frases espirituosas e de uma postura irreverente diante da vida. Mesmo com o sucesso tardio, nunca abandonou a simplicidade nem se afastou de suas origens. Até os últimos anos de vida, manteve-se ativo, compondo, concedendo entrevistas e sendo presença constante em rodas de samba.

Falecido em 2020, aos 98 anos, Riachão deixou um legado que vai além das canções. Ele eternizou a alma popular de Salvador em versos e melodias, reafirmando o samba como ferramenta de memória, resistência cultural e identidade. Seu nome permanece vivo como símbolo de autenticidade, sabedoria popular e amor incondicional à música brasileira.